Gustave Doré: L’énigme, 1871.

SOBRE A NATUREZA DA INTERPRETAÇÃO SIMBÓLICA
(Rodrigo Peñaloza, 2009)

Neste ensaio apresento minhas reflexões sobre a natureza da interpretação simbólica, com base nos meus estudos sobre o Tratado de Simbólica, de Mário Ferreira dos Santos (1956).

Na Grécia antiga, quando alguém recebia uma visita em casa, costumava partir uma moeda ao meio em sinal de amizade. Cada parte tendo a metade da moeda, esta só teria valor se as duas metades estivessem coladas uma à outra, significando que cada uma das duas pessoas só tem valor porque mantém estreito vínculo de amizade com a outra. A palavra símbolo vem de συμβολή (symbolé), formada por βολή (bolé), que significa bola (que se lança), disco, a moeda propriamente dita, e pelo prefixo σύμ (sým), que transmite a idéia de junção. Como essa palavra era interpretada como significando o vínculo entre duas partes, passou, com o tempo, a significar qualquer menção a algo maior, algo além da denotação imediata das palavras.

A gênese do símbolo é explicada pelo esquema biológico da adaptação. O processo de adaptação é composto de acomodação e de assimilação (no sentido de “assemelhação”). Acomodação é a disposição dos esquemas mentais ao ambiente. Assimilação é o captar-se do ambiente o que é assimilável aos e pelos esquemas mentais. A adaptação exige equilíbrio entre acomodação e assimilação.

A ideia é simples. Imagine que você se muda para um país estranho, de cultura e hábitos muito diferentes dos seus. Graças a certos aspectos de sua cultura, você pode adaptar-se ao novo ambiente, ou seja, em parte, você pode se inserir no novo ambiente com relativa facilidade. Por outro lado, também graças a sua cultura prévia, você pode assimilar novos hábitos e parte da cultura local. No primeiro caso, temos acomodação; no segundo, assimilação. A combinação dos dois é o que perfaz a adaptação. Acomodação é, assim, a componente da adaptação caracterizada por um movimento de dentro para fora; a assimilação é a componente da adaptação que é caracterizada por um movimento de fora para dentro.

Há duas variantes que podem ser consideradas, quanto ao grau de acomodação versus assimilação. Quando a acomodação supera a assimilação, os esquemas noéticos (isto é, esquemas do pensamento) tendem a ser como os esquemas noemáticos (isto é, dos aspectos objetivos da vivência, da percepção do mundo externo) aos quais buscam adaptar-se. Temos, assim, a imitação. Quando, no que tange a um fato, a assimilação supera a acomodação, então o fato tem notas que, embora não se adeqüem própria ou totalmente a este ou àquele esquema noético, adequam-se, por assimilação, a outros esquemas noéticos. Temos, assim, o símbolo.

Considere o diagrama seguinte:

Figura 1: representação dos esquemas noéticos.

O quadrado maior representa a mente. Cada célula representa um esquema de pensamento. Por exemplo, quando pensamos cadeira, pensamos num objeto que serve para sentar, que tem quatro pernas, um assento e um encosto etc. Não pensamos na forma específica, mas em seus aspectos essenciais. Isso é um esquema noético. Nossa mente possui vários esquemas noéticos.

O triângulo no lado direito da figura representa um objeto qualquer. Não interprete o triângulo como sendo o objeto “triângulo”, mas realmente como um objeto qualquer, como o Sol, a Lua ou o Delta Luminoso. Os três vértices envoltos em círculos representam as notas ou aspectos que descrevem esse objeto.

Por exemplo, se o objeto considerado é a figura 2, então suas notas ou aspectos podem, num primeiro momento, ser duas: “um círculo” com “um ponto central”:

Figura 2: círculo com ponto central.

Quando somos capazes de acomodar perfeitamente esquemas noéticos de nossa mente às notas que compõem o objeto observado, estamos simplesmente identificando o objeto com alguma imagem ou conceito que já temos em nossa mente. Isso é simbolizado pela seguinte parte do diagrama da figura 1:

Se, ao olharmos a figura do círculo com o ponto central, fizéssemos apenas uma acomodação de nossos esquemas noéticos ou mentais ao esquema noemático ou fenomenológico dessa figura, então diríamos, conclusivamente, que se trata de “um círculo e seu ponto central”. É por isso que a acomodação acarreta imitação.

Considere, mais uma vez, um objeto qualquer, como o representado pelo quadrado pequeno à esquerda no diagrama:

Os quatro vértices representam as notas ou aspectos do objeto em questão. Note que, porém, nossa mente captou apenas dois deles, aqueles representados pelos vértices envoltos nas duas bolinhas à direita. Imagine que esse objeto é, mais uma vez, o círculo com o ponto central. Quando interpretamos esse objeto simbolicamente, buscamos em nossa mente esquemas noéticos que se assemelhem às notas captadas. No diagrama abaixo (que é a reprodução da figura 1), isso é representado pela ligação de mais de um esquema noético ao objeto.

Por exemplo, um esquema noético pode ser o conceito “círculo com um ponto central”, mas o segundo pode ser “o Sol como fonte emanadora de Luz”. Esse segundo esquema ilustra bem a assimilação, ou seja, a associação de uma semelhança. O “círculo com o ponto central” é semelhante ao Sol, isto é, sugere uma semelhança conceptual com o Sol. Pelo seu próprio contorno geométrico, que se obtém pelo giro do compasso, o Sol é um disco no céu. O ponto central sugere o ponto de apoio do compasso sobre o papel ao se traçar a circunferência. É desse ponto que emana a circunferência, o que, por sua vez, sugere a idéia de que o Princípio Criador emana sua Luz em todas as direções, donde se conclui que o símbolo em questão representa o Criador em seu aspecto de provedor da Vida. Já estamos, aí, saindo da pura imitação e caminhando em direção ao símbolo.

Note que há, também, uma ligação com um esquema que representa o aspecto inconsciente, que é um noético inconsciente. O adjetivo noético vem do substantivo grego νοῦς (nous), que significa mente. Os antigos consideravam a mente como aquela parte do homem capaz de apreender o mundo sensorial pela razão, pelo discurso (λόγος, isto é, lógos). Em latim, νοῦς (nous) é traduzido por sensus. Já o que os latinos chamavam mens (e que em Português se traduz por mente) tinha o correspondente grego no termo ψυχή (psiquê), que em Português é muitas vezes traduzido por alma. Assim, a despeito da confusão gerada pelas traduções, aquela célula separada da mente a que chamamos aspecto inconsciente no diagrama acima denota a capacidade da alma (que é superior à mente) de atribuir um significado ao objeto através de uma intuição psíquica que não é explicada pela mente racional.

Quanto mais o interpretante se exercita na interpretação dos símbolos, mais esquemas noéticos são desenvolvidos e maior se torna sua capacidade interpretativa, seja esta noética ou psíquica. A famosa metáfora das camadas da cebola, segundo a qual a interpretação simbólica se dá por camadas ou graus acessíveis de acordo com a capacidade simbólica do interpretante, fica agora mais clara. Eis a razão pela qual é absolutamente necessário que o interpretante se dedique a cada etapa interpretativa com toda a seriedade possível, de modo a exaurir, dentro de seus próprios limites, toda sua capacidade interpretativa, adquirindo, então, etapa por etapa, uma profundidade maior de conhecimento sobre si mesmo, sobre o mundo e sobre a Divindade.

Portanto, o símbolo é tudo quanto está em lugar de outro, sem acomodação atual à presença desse outro. Com este aquele tem semelhança e é por meio daquele que queremos transmitir essa presença não-atual.

Dissemos acima que, ao se defrontar com um objeto, o interpretante capta algumas notas — uma parte — do objeto e busca em seus esquemas noéticos ferramentas para sua apreensão hermenêutica. A idéia de captar uma parte é fundamental nesse processo. Captar uma parte significa partem capĕre. Daí que vem o termo participar, que significa exatamente captar uma parte. O símbolo capta uma parte do simbolizado. Os escolásticos herdaram dos neoplatônicos o adágio: quidquid recipitur ad modum recipientis recipitur, ou seja, “o que é para ser captado é captado segundo o modo do recipiente”. Isso significa que a profundidade de interpretação do símbolo depende do interpretante. O símbolo indica, com sua formalidade, em estado limitado (pela limitação do recipiente), a referência a uma forma em estado superior ou absoluto. Por isso, o símbolo é hierarquicamente inferior ao simbolizado. Daí que pode haver uma hierarquia de símbolos, donde a necessidade dos graus. Pela ausência da prática interpretativa dos símbolos nos graus anteriores, o interpretante permanece limitado, como recipiente, e capta, assim, uma parte menor da imensa riqueza contida no símbolo. É como se, por não haver trabalhado, tivesse menos riqueza para usufruir de todas as comodidades disponíveis.

A deficiência de compreensão é compensada pela capacidade simbólica. Fora da via simbólica, o Homem sente a angústia do vazio, pois a simbologia é parte inerente à natureza humana. Jung dizia que o símbolo não é uma alegoria nem um sinal, mas a imagem de um conteúdo em sua maior parte transcendente à consciência.

Não há composição entre símbolo e simbolizado, ou seja, o símbolo não tem, não possui, parte do simbolizado, ele apenas aponta notas do simbolizado sugeridas pelo esquema noemático (o que o símbolo aponta não é do seu ser, mas do seu ter). Por exemplo, quanto ao binômio Ser x Ter, podemos dizer, como Platão: Deus é o Bem, mas o Homem tem a bondade, isto é, participa do Bem. Se houvesse tal composição, haveria idolatria, ou seja, o símbolo tomaria o lugar do simbolizado. O símbolo se tornaria alegoria.

Neste ponto é necessário comentar a ideia de alguns de que entre a alegoria, ou parábola, e o símbolo não existe diferença essencial. O verbo grego παραβάλλω (parabálō), donde vem a palavra parábola, e o verbo συμβάλλω (symbálō), que é a raiz da palavra símbolo, ambas têm o significado sinônimo de comparar. Alegoria, porém, não é a mesma coisa que símbolo. Bastam alguns exemplos para ilustrar essa diferença. A festa de São João é caracterizada pelas fogueiras, ou seja, pelo fogo do espírito. A fogueira é símbolo dessa espiritualidade. Com o tempo, com a prática da ritualística sem o exercício da interpretação simbólica, o povo passou a ver a festa de São João apenas como uma festa que tem fogueiras. A fogueira se tornou alegoria. Alegoria tem um significado de apreensão imediata, geralmente de natureza moral. O símbolo requer um processo bem mais complexo de interpretação.

O verbo συμβάλλω (symbálō) significa “lançar junto”, ou ainda, “encontrar-se” (na voz média, não na passiva), como o encontro de duas pessoas, juntar, unir etc. O verbo grego, assim como o latino, é sempre identificado pela primeira pessoa do singular do indicativo presente ativo, sempre que a forma ativa existe. Em sua ausência, usa-se a voz passiva. Assim, συμβάλλω (symbálō) significa, literalmente, “lanço junto”. Mas como em Português a identificação é feita sempre pelo infinitivo presente ativo, manteremos a tradução pelo infinitivo. O “lançar” é um “lançar de modo a atingir”. Assim, o símbolo e o interpretante atingem, juntos, um graças ao outro, aquilo que é simbolizado. Daí termos dito que não há composição entre símbolo e simbolizado, que ele apenas aponta notas do simbolizado. O alcance semântico transcende tanto o interpretante quanto o próprio símbolo. Já o verbo παραβάλλω (parabálō) significa “lançar ao lado”, “lançar ao largo”. A parábola, portanto, atinge o objetivo ao lado do interpretante, o alcance semântico sendo bem menor. Dessa forma, o símbolo é muito mais transcendente que a parábola. A parábola cristã do óbolo da viúva é, de fato, uma parábola e, por isso mesmo, seu significado é imediatamente acessível às pessoas. Já o Apocalipse de São João é inteiramente simbólico, sua compreensão é muito mais difícil. Discordo, portanto quando se diz que a alegoria é um símbolo verbal. O termo alegoria vem de ἀλληγορία (alēgoría), que significa “descrição de uma coisa sob a imagem de outra”. A proximidade da alegoria com o objeto simbolizado é muito próximo. A do símbolo com o simbolizado não é.

O filósofo neoplatônico Jâmblico, no século IV d.C., assim alertou quanto à disposição mental para a interpretação dos símbolos, em De Mysteriis Aegyptiis, VII, 2[250], p.290: “Ouve, portanto, também, a interpretação intelectual dos símbolos, de acordo com o pensamento egípcio, bane a imagem das coisas simbólicas, que depende da imaginação e do ouvir dizer, e eleva-te em direção à verdade intelectual” (Ἄκουε δὴ οὖν καὶ κατὰ τὸν τῶν Αἰγιπτίον νοῦν τὴν τῶν συμβόλων νοερὰν διερμήνευσιν, ἀϕεὶς μὴν τὸ ἀπὸ τῆς ϕαντασίας καὶ τῆς ἀκοῆς εἴδωλον αὐτῶν τῶν συμβολικῶν, ἐπὶ δὲ τὴν νοερὰν ἀλήθειαν ἑαυτὸν ἐπαναγαγών). Em outras palavras, ele disse para não nos atermos às imagens, às alegorias, mas ao conteúdo transcendental do símbolo.

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Leia também:

(1) Do motto alquímico “igne nitrum roris invenitur”.
(2) De malo iudicio in tragoedia graeca: quae sint personae gerendae ab alia et ignorantia.
(3) Russel’s paradox and Greek ontology.
(4) De chao apud veteros graecos.
(5) The meaning of nature: φύσις.
(6) A symbolis aegyptiis usque ad veritatem.
(7) Egrégora.
(8) Minha interpretação da carta de Paulo aos Romanos 12:19.
(9) On the rationality of the Golden Rule: why Eve should not be blamed alone for the fall.
(10) On the notion of wrong decision in the Greek tragedy: the epistemic rôle of risk, ignorance and uncertainty
(11) On the Greek origins of the idea of spontaneous order versus deliberate order.
(12) A irracionalidade não pode persistir para sempre.
(13) Teoria dos Jogos versus Estatística.
(14) Microcredit: a Bosnian tragedy.
(15) Quanto realmente custam os desastres meteorológicos?
(16) εἲς μούσαν τῆς χρωμογραφίας.
(17) De coloribus verborum. (Versão latina de εἲς μούσαν τῆς χρωμογραφίας).

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