Sou servidor público e sou honesto
(Rodrigo Peñaloza, 18–09–2016)

Atenção, amigos: Sou servidor público concursado. Era uma única vaga e ela foi minha. Não sou ladrão e nunca achei que, por ser concursado e ter estabilidade de emprego, isso me fizesse menos honesto do que sempre fui.

Minha formação sempre foi pelo caminho mais árduo. Fiz duas graduações ao mesmo tempo e ainda cursava várias matérias do mestrado em Matemática. Só não tenho o diploma de Matemática porque me formei primeiro em Economia e fui pro mestrado noutra cidade. Faltavam poucas matérias, mas isso não muda nada. Fiz doutorado numa excelente universidade quando poderia ter feito numa outra que me seria muito mais leve. Amo meu trabalho, nunca aderi a greves, pois todas tiveram natureza político-partidária. Normalmente dou mais matérias por semestre do que a média e mesmo assim mantenho uma frequência de publicações acadêmicas. Hoje meu projeto é publicar meus livros, sendo que dois já estão quase prontos. Se o meu trabalho não fosse estável, eu não teria o menor problema com isso, pois confio plenamente no meu taco.

Penso ser uma estupidez imensa quando acham que, por ser servidor público, não tenho o direito de achar que o governo está errado. Não sou servidor do governo. Sou servidor público e por público eu entendo o povo, não o partido que governa. Também considero abominável a comparação que Lula fez entre o político ladrão e o servidor público. Mais reprovável ainda a constatação de que servidores públicos petistas calaram-se diante da fala de Lula. Pra ele, o político é mais honesto que o servidor público concursado porque o político, de 4 em 4 anos, por mais ladrão que seja, tem que dar duro pra ser reeleito e continuar a ser ladrão. Já o concursado, se for ladrão, não precisa lutar pra manter a galinha dos ovos de ouro, pois já tem o emprego garantido. Ele deve estar admitindo, implicitamente, que o único trabalho do servidor público ladrão é manter oculta a sua roubalheira. E que, claro, todo servidor público é ladrão. Ou pelo menos preguiçoso, já que, tendo passado em concurso, nada mais lhe resta a fazer, nem mesmo trabalhar pra se sentir um ser humano digno.

Conclui-se do raciocínio doentio de Lula, que é mais honesto ser um político ladrão do que um servidor público concursado ladrão porque o político tem que se dar ao trabalho de convencer o eleitor de que a sua ladroagem pode ser perdoada e assim habilitá-lo para mais 4 anos de roubalheira. Ao complementar sua fala dizendo que os Procuradores são analfabetos políticos porque não entendem como a Política é feita, o que Lula faz é uma confissão de crime. Afinal, não sabem eles que a Política se faz roubando dinheiro e comprando as pessoas? “Por que eles me perseguem”, pensaria Lula, “se eu roubo igual a todo mundo, se eu faço Política igual a todo político ladrão?”

Seu comportamento defensivo se manifesta precisamente no ataque à qualidade de concursados dos Procuradores, qualidade que veio à baila quando foram questionados sobre pretensas motivações políticas na peça acusatória, a cujos questionamentos os Procuradores corretamente responderam que isso seria absurdo, pois a acusação fora elaborada pela totalidade de Procuradores encarregados do caso e todos eram servidores públicos e, por conseguinte, como impõe até mesmo a Constituição, servidores públicos honestos.

Pra terminar, deixo dois pronunciamentos sobre o que é ser político. Um, de Luís Inácio Lula da Silva, em 15/09/2016. Outro, de Adolfo Bezerra de Menezes, em sessão de 04/06/1867 do Parlamento do Império. Aquele, a opinião dos petistas que se fingiram de mortos quanto à fala de Lula. Este, a opinião com a qual, como servidor público, concordo e acredito dever ser aquela da qual os cidadãos deste país compartilham:

Luís Inácio Lula da Silva — “A profissão mais honesta é a do político. Sabe por quê? Porque todo ano, por mais ladrão que ele seja, ele tem que ir pra rua, encarar o povo e pedir voto. O concursado não: se forma na universidade, faz um concurso e está com o emprego garantido pro resto da vida.”

Adolfo Bezerra de Menezes — “Largando a vela nos mares sempre revoltos e agitados da política, eu tomei por meu santelmo um princípio com o qual pode-se muitas vezes arriscar os cômodos, o bem-estar e futuras posições, mas nunca a honra. A política como eu compreendo, não é uma especulação dos homens, é uma religião, a religião da pátria, tão sagrada e obrigatória como o culto das verdades eternas que constitui a religião de Deus.”