TACENDO CAVILLAMUR CIVES
OU COLUMELLA SOBRE A MÁ GESTÃO ECONÔMICA
(Rodrigo Peñaloza, 28-XII-2015)

Em seu “Tratado sobre as Coisas do Campo” (De Re Rustica, I, 1–5), Lucius Iunius Moderatus Columella (4-c.70 d.C.), um dos mais importantes autores romanos de Economia, puxa a orelha daqueles que atribuem as más colheitas apenas às variações inesperadas do clima ou aos abusos que os homens do passado cometeram na administração agrícola. É difícil furtar-me a comparações com os nossos políticos e os maus gestores de hoje — guiados que são mais por vinculações partidárias e ultrapassadas crenças econômicas do que por predileção pela técnica — e de cujos repetidos erros sofremos as mais severas consequências. Mereceriam o mesmo puxão de orelha por tudo atribuírem à crise internacional ou a governantes do milênio passado ou, risível!, às políticas “neoliberais”? Assim é. Mas puxar-lhes as orelhas é corrigir os costumes e nada mais facecioso que um bom puxão de orelha. O Brasil é tanto mestre em rir para corrigir quanto em persistir no erro.

Há um castigat ridendo mores no ar. E do que se trata? Em 16 de dezembro o colega Alexandre Schwartsman publicou em sua coluna na Folha um artigo chamado “O porco e o cordeiro”, dirigido, com a ironia de quem não se prende a meias-verdades, ao arqui-inimigo da ortodoxia, o colega Belluzzo, que, logo em seguida lhe devolveu, em um artigo intitulado “Ridendo castigat mores”, os petardos recebidos. Esbanja Belluzzo a sua erudição clássica dizendo de sua predileção por “Lupus et agnus”, “Ranae regem petierunt” e “Rana Rupta et Bos”, fábulas de Esopo, para logo perdir “vênia ao leitor mais jovem para não traduzir os títulos”, porquanto, nas palavras dele mesmo, “seria um desrespeito à cultura clássica de meus ínclitos adversários”. Prossegue a auto-defesa pelo ataque, transbordando Alexandre o Grande, Hannah Arendt e, claro, mais clássicos. Muito me esbaldaria em gáudio por tanta cultura clássica, não me atinasse que as fábulas de Esopo nasceram primeiro em Grego e que um verdadeiro detentor da cultura clássica greco-latina não se meteria em maus lençóis se gabando de Esopo em Latim se antes há em Esopo em Grego. Tampouco se gabaria de respeitar a cultura clássica se o gerúndio latino nos chega, pela sua pena, com o selo do Latim mal estudado. Se é para replicar com o dictum, ora nas bocas, castigat ridendo mores, que o fizesse com o respeito aos clássicos, que, embora alegado, não vi. Cultura clássica perde sua substância se não tiver o correto Latim e o Grego.

Há um castigat ridendo mores no ar, usado, contraditoriamente ao seu significado, para o seu contrário, para um “não se pode criticar rindo”. Não, castigat ridendo mores não é apenas “rindo, castiga os costumes”, como se o ridente tivesse escolhido o riso para corrigir, podendo ter escolhido o não-riso. Não há outra forma de corrigir os maus costumes! O gerúndio português não traduz adequadamente o gerúndio latino. Nosso gerúndio não chega aos pés do gerúndio latino. O gerúndio latino ridendo tem o sentido de necessidade causal para a oração que ele modifica, ele é o ablativo do infinitivo ridere, ele é, sozinho, uma oração adverbial de causa subordinada a castigat mores. É porque se ri, é em razão do riso e por causa do riso que o ridente corrige os costumes. O significado é, portanto, bem mais profundo do que simplesmente a denotação de um modo particular de corrigir e merecedor da queixa de Belluzzo . Não se pode acusar o que ri dos costumes de ter escolhido o riso para corrigi-los, pois castigat ridendo mores implica que é rindo que se corrigem os costumes, não de outro modo. Negar ao ridente o direito de rir-se para corrigir os costumes é negar a qualquer um o próprio direito de corrigir os costumes, mesmo não rindo. Costumes não são corrigidos sem o riso. O que a sentença ensina é que o riso é o fundamento do progresso dos costumes, é o motor mesmo do progresso dos costumes e sem o qual os costumes não são corrigidos. Se não há defeito, se não há o desproporcional, não há riso.

Que diria Columella ao agricultor queribundo que, alheio à própria culpa, expostula do ridente que, rindo, emenda os maus costumes do quérulo agricultor de atribuir as más colheitas aos humores de Júpiter e aos abusos que os homens do passado, nossos maiores, cometeram na administração agrícola, que diria, repito, senão que ao flévil agricultor nada mais útil que um tacendo cavillamur cives pregado à boca? É porque calamos que debochamos dos cidadãos. Não há, portanto, que queixar-se Belluzzo do riso do Schwartsman, pois quem cala diante dos maus costumes debocha de todos. E para que não debochemos do país, devemos rir dos maus costumes, para corrigi-los. Calar-se seria rir da sabedoria e perspicácia de um Columella e isso não seria uma coisa legal de se fazer, pois Columella não precisa ser corrigido. Re vera, res non iucunda factu. Se não queremos escarnecer da Nação e debochar de todos que ora sofrem com um 2016 já pior que 2015, então, meus caros, sói rir para corrigir os costumes, os maus costumes.

Para Columella, as más colheitas são o resultado de nossa própria má administração. Ele deixa implícito que a Natureza é boa e que, para bem administrar as coisas do campo, não podemos entregá-las a quem não seja capaz de lidar com elas. Em outras palavras, ele clama por uma postura racional e um comportamento otimizador frente à aleatoriedade do clima. O riso de Alexandre é o eco de Columella. Nestes tempos em que os assuntos de natureza técnica, como a gestão dos recursos hídricos e petrolíferos e mesmo a condução da res argentaria, são entregues a pessoas sem o devido preparo profissional ou fortaleza moral, não consigo deixar de pensar o quanto de bom senso se perdeu ao longo dos séculos. E é pior quando a condução da res nummaria é vedada ao técnico. Com a palavra, Columella:

“Muitas vezes, em nossa cidade, ouço os governantes culparem ora a infertilidade dos campos ora o mau tempo prolongado pelas colheitas e ouço também certos [governantes] atenuarem, com a mesma determinação, as queixas supramencionadas, em razão de considerarem que o solo, exaurido e fatigado pela produtividade dos tempos passados, não pode mais produzir, com a mesma bonança de outrora, alimentos para os mortais. Estou convicto de que essas causas, Públio Silvino, estão longe da verdade, porquanto nem é justo considerar a natureza das coisas — natureza essa que o Supremo Criador do Mundo concedeu com perpétua fecundidade — como tendo sido afetada por uma certa doença e nem é justo, para o homem prudente, crer que a terra tenha envelhecido tal como o homem, essa terra à qual coube por sorte uma juventude divina e eterna e porque, tendo trazido tudo sempre e para sempre havendo de trazer, seja dita a mãe comum de todas as coisas. Depois disso, nem imagino que estas coisas nos aconteçam por essa intemperança do clima, mas antes pelo nosso vício, porque os assuntos do campo entregamos ao pior dos escravos, como se entregássemos ao carrasco aquilo que o melhor de nossos ancestrais tratou otimamente.” (Saepenumero civitatis nostrae principes audio culpantes modo agrorum infecunditatem, modo caeli per multa iam tempora noxiam frugibus intemperiem; quosdam etiam praedictas querimonias velut ratione certa mitigantes, quod existiment ubertate nimia priori saevi defatigatum et effetum solum nequire pristina benignitate praebere mortalibus alimenta. Quas ego causas, Publi Silvine, procul a veritate abesse certum habeo, quod neque fas est existimare rerum Naturam, quam primus ille mundi genitor perpetua fecunditate donavit, quasi quodam morbo sterilitate affectam; neque prudentis credere tellurem, quae divinam et aeternam iuventam sortita communis omnium parens dicta sit, quia et cuncta peperit semper et deinceps paritura sit, velut hominem consenuisse. Nec post haec reor intemperantia caeli nobis ista, sed nostro potius accidere vitio, qui[a] rem rusticam pessimo cuique servorum, velut carnifici noxae dedimus, quam maiorum nostrorum optimus quisque et optime tractaverit.) — De Re Rustica, I, 1–5.

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Nota: Quanto à regência de cavillor, Cícero, em De Natura Deorum, 3.83, diz “…atque in eo etiam cavillatus est aestate grave esse aurem amiculum, hieme frigidum,…”, em que cavillatus est rege acusativo com infinitivo: uma oração subordinada objetiva direta reduzida de infinitivo, com verbo infinitivo esse, sujeito acusativo neutro aureum amiculum e adjuntos adnominais grave e frigidum (acusativos neutros). Assim, mantendo a sintaxe de Cícero, cavillari significa dizer debochadamente, de modo que se traduza “… e sobre isso também disse, debochadamente, um manto dourado ser opressivo no verão e frio no inverno…” Deduz-se que cavillor rege acusativo e daí a opção por cavillamur cives no título, com o acusativo plural cives.

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