Por que nossa geração se sente tão sozinha?
Uma recente pesquisa, realizada pela ONG Mind Share Partners mostra que as gerações Y e Z têm maior probabilidade de deixarem seus empregos devido a problemas com saúde mental. Enquanto 50% da geração Y ou millenials (pessoas que nasceram entre 1980 a 2000) e 75% da geração Z (pessoas nascidas entre 1990 e 2010) afirmaram ter pedido demissão por este motivo, apenas 10% dos baby boomers (geração de pessoas nascidas entre 1946 e 1964) tiveram o mesmo resultado.
Além disso, os estudos constam que as gerações Y e Z têm, respectivamente, três e quatro vezes mais chances de experienciar sintomas de ansiedade em relação aos baby boomers. Esses dados tornam-se mais alarmantes quando comparados com outros estudos como, por exemplo, o realizado pela empresa britânica YouGov, que constatou que, entre todas essas gerações (incluindo a X, geração que precede a Y), o índice de solidão é mais alto para a última (Z) e, com o passar do tempo, aumentou exponencialmente.
Inúmeras pesquisas em torno do tema têm apontado a geração mais recente como a mais estressada, e isto pode ter raiz em diversos fatores, dentre eles os mais citados são: trabalho, dinheiro e relações pessoais. Mas quando falamos de uma geração que nasceu conectada, não podemos esquecer os fatores criados durante a era da internet, como pressões estéticas, necessidade de pertencimento, padrões de beleza, fomo — fear of missing out (medo de ficar de fora) etc.
Entretanto, a pós modernidade não trouxe apenas mais preocupações para a sociedade, mas também um maior fluxo de informação, o que pode ter sido o principal fator para a conscientização da importância da saúde mental. Isso pode explicar porque as gerações atuais preferem manter a sanidade em vez do emprego. Apesar disso, a economia quebrada, taxas elevadas de desemprego e a necessidade do sucesso imposta por gerações anteriores não facilitam o processo pois, ainda que os jovens deixem seus trabalhos para se cuidar, precisam preocupar-se com sustento, carreira e com os olhares alheios sobre si.
Para uma geração que, em sua maioria, foi criada pela geração baby boomer, é de se esperar que se sintam pressionados. Os baby boomers cresceram relativizando o sucesso (visto o aumento da natalidade), presenciaram uma economia que, em sua maior parte do tempo era estável, e tiveram oportunidades profissionais, rendendo uma vida agradável, mesmo sendo frutos de um período incerto na história do mundo. Quando estes tiveram filhos, suas expectativas de vida foram impostas neles, ainda que inconscientemente, ignorando o contexto histórico do momento: um país com alta desigualdade, com elevada taxa de desemprego, maiores pressões acadêmicas e maior concorrência no setor profissional.
Ainda sobre incompreensões, os dados colhidos pela empresa YouGov expõem que 22% dos millenials declaram não ter amigo algum. A porcentagem é ainda maior quando se trata da geração Z, afetando não somente a saúde mental, mas também a física, visto que estão interligadas.
Ademais, apesar de dados comprovarem que millenials apresentam maior dificuldade financeira que a geração de seus pais e avós (The Great British Retirement Survey), as gerações mais antigas tendem a acreditar que a geração Y tem dinheiro o suficiente para “gastar em coisas inúteis”, e que a mesma não apresenta maior ou igual dificuldade que as gerações anteriores.
No entanto, um dia houveram aqueles que disseram que seriam as mais novas gerações a consertar e preservar o mundo. Ainda permanece vago a razão pela qual a sociedade parece ter esquecido que confiava tanto nos jovens. Talvez fosse o caso das altas expectativas dos baby boomers otimistas. Talvez seja porque os millenials estão começando a perceber que muitos dos problemas da atual sociedade surgiram daqueles que tinham esperança de um mundo restaurado por eles.
Fica claro que o rumo que os jovens tomaram através do tempo não era o esperado pelos mais velhos. Nem o desenvolvimento tecnológico e a forma com que os jovens se relacionam com ela. São diversas críticas feitas pelos anos sobre uma geração que “perdeu a habilidade de socializar devido a internet”, sem ao menos um estudo prévio sobre o motivo para tal antipatia por relações à moda antiga.
Sendo assim, é possível entender o porquê do sentimento de solidão. Todavia, essa ignorância pelas dificuldades da atual era não parte apenas de pais e avós. Muitos jovens tiveram suas cotas de privilégios vivendo numa sociedade repleta de desigualdade, tornando difícil a convivência com alguém que não entende seus conflitos internos. É fácil, para alguém que não vive na pele dos outros, concluir que essa é uma geração perdida. Difícil mesmo é entender que as gerações Y e Z não estão ignorando o fato de que o mundo precisa de mudança, eles apenas estão começando o conserto por si mesmos.
