Ame alguém cujos cabelos não brilhem pornograficamente ao sol.

O domingo é que pega. O domingo que acorda com as fábricas vazias e com os restaurantes por quilo fechados, é o domingo que pega. É no domingo de recém-abandonadas pílulas que meus hormônios vão se reorganizando aos pouquinhos e me lembrando de que eu sinto vontade de transar, de que eu sinto muita vontade de transar. De que eu ouço aquela música e quero transar. De que eu saio do banho e quero transar. De que eu não uso sutiã e quero transar. De que eu bebo e quero transar. De que eu existo e quero transar.

É no domingo de manhã que eu tenho pequenas alucinações com o seu cabelo que brilha pornograficamente ao sol, com o seu cabelo que eu ainda encontro estragando o escuro das minhas roupas pretas, com o seu cabelo que eu cheirava em tempos de desespero dos quais vocês nunca soube. É no domingo de manhã que eu encontro camisetas, que eu me irrito com a esponja rosa do banheiro, que eu sinto sua unha me cutucando a sola do pé, que eu faço em voz altas piadas internas das quais ninguém vai rir, que eu quero dançar a abertura de Gilmore Girls na sala, que eu quero ouvir a música irritante que você canta com o meu nome repetindo as últimas sílabas até eu te pedir pra parar.

É no domingo de manhã que tudo isso me fala bom dia em um turbilhão só, como num espirro que acaba instantaneamente e te deixa arrebatado, lacrimejante e de nariz vermelho. O domingo é que pega, que derruba meus planos de estar bem solidamente mantidos durante a semana. É no domingo que me lembro que transávamos toda segunda-feira, que babávamos um no outro o desgosto do primeiro dia de trabalho e que acordávamos nus, excitados e prontos para o resto da semana. É no domingo que me lembro de contar os dias até a próxima segunda e de como as nossas agendas se tornaram cada vez mais livres um para o outro e de como nosso calendário era bonito.

É no domingo que lembro a textura do seu sofá na minha bunda ou as frases que você costumava dizer enquanto transávamos. É quando lembro meus joelhos ficando vermelhos e a sensação de ardência à qual sobrevivi sorrindo tantas vezes enquanto gozávamos. É no domingo que sinto o gelado da sua parede nos meus mamilos depois de gemer me come em pé, que sinto sua mão grande empurrando minha cara no concreto duro enquanto meu cabelo se torna uma criatura disforme, assustadora e segura de si.

É no domingo que confundo os utensílios da minha cozinha com os da sua e que vou ao mercado de sempre para ouvir as pessoas de sempre perguntarem cadê você. É no domingo que o meu café não é tão bom como costumava ser, que estreia série nova que deveríamos ter visto juntos, que eu tomo banho para não te encontrar na cama. Que eu abro a gaveta e contemplo o meu estoque organizado de meias 7/8, de meias 5/8, de meias arrastão, de meias arrastão rasgadas, de meias-calças, de meias-calças rasgadas e de cintas-liga e ele não faz mais sentido algum. É no domingo que eu me torno o eu-lírico de uma música do Wilco que não tem mais louça, chão, roupa, sapato ou bicho de estimação para lavar. E me vem o seu cabelo.

É no domingo que eu não consigo mais gozar, porque meu punho dói vítima das muitas tentativas em dias úteis e porque eu não assisto pornografia. E você sempre foi o filme amador que eu repeti na cabeça antes mesmo de te filmar em POV. São seus pelos na cara que me fizeram gozar até agora e no domingo eu não consigo substituir os seus por outra imaginação. Eu não sei criar paus maiores, paus mais grossos, paus de gostos diferentes do seu. Paus que gozam de outro jeito, paus que gostam de outras coisas, paus que não sabem me acordar aos domingos de manhã. Eu não sei pensar estocadas que não as suas, posições que não as nossas, liberdades e sujeiras que não as que nos acostumamos a fazer. Aos domingos, eu não consigo excluir a imagem do seu cabelo insuportável das minhas tentativas de escapar. E eu não gozo.


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