Garantindo o sono do Papa 19 anos depois

Se na ficção o Capitão Nascimento garantiu o sono do Papa em 1997, nós estamos vendo essa mesma operação acontecer de novo, agora, para Olimpíadas. O que aprendemos quando vimos o filme?

O sucesso de bilheteria (e pirataria) nacional de 2007 fala sobre a rotina da PM do Rio de Janeiro. O protagonista, Capitão Nascimento (Wagner Moura), está a procura de um substituto para a sua vaga no BOPE (Batalhão de Operações Especiais), mas antes, ele precisa garantir que João Paulo II faça sua visita a Cidade Maravilhosa em segurança.

Assista até os 17:45 para se lembrar dos motivos desse filme.
Eu sei que o Papa não tem culpa dos meus problemas, mas ele já tinha vindo ao Rio de Janeiro 2 vezes: não dava para saber como a banda toca por aqui? É claro que político nenhum quer ver o Papa baleado. Se o Papa quer ficar perto de uma favela o que você acha que o governador vai fazer? Vai correr o risco de uma bala perdida acertar a cabeça da sua santidade? É claro que não. Vai ligar pro Bope.

Em 2009, o Rio de Janeiro venceu Madrid na corrida para sediar as Olimpíadas de 2016. O argumento brasileiro baseou-se na tese do “ineditismo” do país em sediar uma Olimpíada e o bom momento econômico que vivíamos naquela época. Um projeto que na época era estimado em R$25 bilhões, na última atualização já ultrapassava R$39 bilhões. No esquema final de segurança 85 mil homens já estavam previstos para garantir que as Olimpíadas funcionem, tanto no Rio quanto nas demais cidades do país que terão atividades relacionadas. Mais de 700 milhões de reais para fazer tudo acontecer.

Ninguém tem dúvida do treinamento que a Polícia tem para conter qualquer distúrbio durante as Olimpíadas. Afinal, ela já foi treinada na Copa de 2014 e nas dezenas de remoções que foram feitas para levar nosso país à evolução e o desenvolvimento, o chamado “Padrão FIFA”.

Se precisar, a Polícia usa cavalo e espada contra meia dúzia de manifestantes desarmados. Estamos seguros.

Parte do trabalho de garantir a segurança da cidade durante os jogos, vem sendo feita ao longo dos anos através do projeto das UPP’s. O Complexo da Maré foi ocupado, gastou uma pá de dinheiro, e mesmo assim não cumpriu nem uma parte do que deveria. E com as Olimpíadas se aproximando (e a crise financeira do estado se acentuando), a UPP da Maré, que era uma prioridade pras políticas de segurança dos jogos, acabou ficando pra depois.

Porém, com os Jogos se aproximando, a operação para “garantir o sono do Papa” de 2016 já parece estar em curso, mesmo com o alerta do Cap. Nascimento:

Ele deixou isso bem claro: vai dar merda.

Mesmo com trechos tão evidentes da consciência da ineficácia destes métodos, continuamos repetindo um modelo baseado na criminalização das áreas pobres e excluídas da cidade, mesmo que já tenhamos bases de UPP instaladas nessas comunidades. E essa política vai além das questões de segurança: nos últimos seis meses tivemos uma redução até das linhas de ônibus nos bairros mais pobres e perigosos da cidade.

E isso é explicado pelos próprios protagonistas do filme. Wagner Moura falou a respeito das repercussões do filme na sociedade numa entrevista para a Revista Caros Amigos. Vale ressaltar esses trechos aqui:

Vivemos uma situação caótica em relação à segurança pública. Então, a tendência do cara que já foi assaltado cinco vezes e vê alguém metendo a porrada no bandido e matando é dizer: “É isso. A solução é essa.” A solução, pra mim, está muito longe. Enquanto o único poder público a subir na favela for a polícia, não vai ter solução. Na favela não sobe escola, não sobe hospital, não sobe livro, não sobe parquinho pras crianças brincarem, não sobe biblioteca, só sobe polícia?
[…]
Os policiais do Bope que eu conheci, eu vou dizer a você: eles todos são homens de bem! Incorruptíveis, eles têm suas famílias, e eles realmente acreditam que estão fazendo um puta bem pro Brasil matando bandido.

José Padilha, já disse que quem deveria nos proteger não entendeu o filme. Veja:

Padilha comenta que ninguém da segurança pública entendeu o filme

Então me diz, se tá tão claro que a política de esculachar morador e promover a matança é uma estratégia ineficiente, por que ainda temos isso aqui acontecendo:

Vídeo sensacional do Coletivo Papo Reto, no Alemão, semana passada.

E não há dúvidas de que a “operação Papa 2016” está em curso. Por mais que as pessoas inteligentes da Polícia Militar briguem e façam força para que essas operações absurdas aconteçam, a lógica deve terminar mais ou menos nesse diálogo aqui, seja nos batalhões, ou naquele anexo da Central:

Missão dada é missão cumprida (independente de quanto sangue escorre por aí)

Eu digo que a “Operação Papa 2016” está em curso, por que o noticiário não deixa dúvidas. Nos últimos dias houve praticamente uma “operação” policial por dia. Jacarezinho, Manguinhos, Queimados, Japeri, Vila da Penha, GuapimirimDe Acari vem esse relato (quase todos os links vem de representantes das comunidades atingidas):

Uma denúncia grave que não teve respostas.

A Cecília Olliveira, especialista em Criminalidade e Segurança Pública, tem publicado através da hashtag #BoletimViolênciaRJ números sobre as ultimas notícias disso no Rio. Pelo seu facebook, dá dimensões ainda maiores, como os dados colaterais dessa política de segurança:

Perfil a ser seguido no Facebook :)

Com números e reações tão contundentes é difícil aceitar que neguemos nossa cidade em torno de um projeto de promoção internacional através de mega eventos. Como já publicado pelo Coletivo Carranca:

Agora, às vésperas da Olimpíada, a Babilônia, favela convertida em mercadoria, carro chefe da propaganda positiva da gestão militar de um território urbano, já não pode mais sustentar a farsa da UPP. Estamos vivendo dias de horror e aumento da violência numa guerra entre facções rivais que estão disputando o controle da venda de drogas nesse território.
O tráfico, que não foi combatido, mas sim empurrado para regiões periféricas, está retomando com tudo as regiões centrais. A barbárie já não pode mais ser financiada pelo Estado e seus parceiros devido à crise econômica. O Estado não pode mais pagar a motivação dos seus mercenários. Chegamos na fase do colapso da barbárie. E todas as tensões se agravam com a aproximação da Olimpíada e a necessidade de se sustentar uma ideia, ainda que ilusória, de segurança pública para gringo ver.
“A verdade é que a PM do Rio tem que acabar”

Nós vemos essa guerra civil insana e sem fim, torcemos, todos os dias, para que esse discurso fosse efetivo. O filme, apesar de usar uma frase forte, mostra o destino que todos nós queremos: A polícia que passa dos limites, que comete crimes e faz de tudo para um objetivo de uma minoria tem que acabar. Já passou da hora. Queremos nossos irmãos e conterrâneos vivos.

Por fim, esperamos que a “Operação Olimpíadas” não termine desta forma:

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