Reflexões sobre o futuro de hoje.

por Jorge Martins

Esse colete salva-vidas… #not

O futuro chegou.

A frase, que é um clichê que nem tem mais graça, hoje faz sentido.

Dia 21 de outubro de 2015 é o dia em que Marty McFly, o adolescente que protagoniza De Volta para o Futuro, chega (dã), ao futuro, no segundo filme da trilogia.

O futuro é hoje. Literalmente.

Pelo menos para nós, que crescemos tendo Marty McFly como referência de cultura pop.

Talvez o mais legal de ser testemunha dessa data é ver como os produtores do filme erraram em quase tudo que previram. Não há skates voadores, nem kits para converter carros comuns em carros voadores, nem basquete antigravitacional — e essa obsessão com coisas voadoras demonstra a limitação da nossa imaginação na época.

Mas não para por aí: ninguém se veste com roupas prateadas inteligentes, ou pelo menos não comumente (weareables são tendência, mas ainda não são parte da vida cotidiana). Não há — ainda — conversores que transformem nosso lixo em energia, apesar de algumas experiências interessantes nas cidades britânicas de Bristol e Bath (ônibus urbanos se movem a partir do tratamento do esgoto e de comida descartada). Mesmo com alguns acertos incríveis (óculos de realidade virtual, como o google glass, videogames sem controle e televisores inteligentes), o fato é que o futuro é bem diferente do que acreditávamos que seria.

Obviamente, a série de filmes não tinha a intenção de ser fiel ou acertar em nada, mas o próprio exercício de imaginar o futuro é um bom indicativo de como funcionam nossas mentes a respeito do futuro.

E a conclusão é lógica: não temos como prevê-lo.

Simplesmente não conseguimos ligar os pontos.

Basta observar: já havia telefones celulares em 1985 (eles foram criados — acredite — em 1947, segundo a Wikipedia). Já havia internet quando o filme foi produzido — utilizada basicamente por militares e universidade americanas. A World Wide Web, ou simplesmente web, surge um pouco depois, em 1989. Mas quem poderia prever que ela seria o que se tornou?

Talvez o que essa reflexão nos permita perceber é: as principais inovações de nossa época não vieram de invenções disruptivas estapafúrdias, que surgiram do nada, mas da reassociação de elementos já presentes. A internet, por exemplo, é uma rede de redes (já existiam computadores, já existiam redes). Nada tecnicamente NOVO foi criado, mas uma reorganização das tecnologias já existentes possibilitou o surgimento da internet como a conhecemos hoje. E esta veio a modificar quase todas as áreas do conhecimento humano, bem como influenciar na mudanças de padrões de sociabilidade que seriam impensáveis lá em 1985.

2+2, muitas vezes, pode dar mais que 4, quando se fala de inovação.

E, quando falo em mudança de padrões de sociabilidade, isso se dá para o bem e para o mal: temos, sem dúvida, uma sociedade mais aberta em muitos aspectos. E mais retrógrada em tantos outros. Mais tolerante e mais intransigente. Mais complexa.

Uma rede de computadores está possibilitando a ressignificação da sociabilidade humana. Quem diria?

Talvez hoje pareça óbvio, mas lá, no passado, quando os caras estavam concebendo como seria o futuro de mentirinha do De Volta para o Futuro, muito provavelmente ninguém imaginou que conectar as pessoas pudesse ser a coisa mais importante que o futuro nos reservaria.

Os desdobramentos diversos e absolutamente impactantes proporcionados por essa capacidade de comunicação ilimitada são tão profundos quanto surpreendentes. Ao menos aos olhos de quem vivia em 1985.


E porque estamos discutindo esse assunto aqui, no medium da Yayá, uma agência de comunicação? Bom, primeiro: nós amamos cultura pop e tendências e todas essas coisinhas. Inaugurar o medium da agência no dia em que o futuro literalmente chega até nós (mesmo que seja um futuro de filme) é emblemático. E segundo: trabalhar com comunicação no mundo do futuro, que é o nosso hoje, requer que se faça esse tipo de reflexão. Afinal, ao mesmo tempo em que é possível medir, quantificar e esquadrinhar no detalhe cada ação de comunicação e seus resultados — e com isso ser mais assertivo e eficaz na estratégia de mídia (escolha a sua métrica de resultado preferida), precisamos lidar com uma miríade de públicos que simplesmente não tinha voz em 1985, o que torna a definição precisa da mensagem um desafio cada vez maior.

Talvez sempre tenha sido assim.

Só que agora nós sabemos.

Não dá mais pra resolver um job falando de “classe AB 25+” como se esse estrato sócio-econômico fosse um monolito que pensa e age igual.

E o que muda com isso? Bom, primeiro o óbvio: é mais difícil adequar o discurso das marcas quando há tantos e tantos diferentes stakeholders envolvidos. Não basta falar mais e apenas com quem compra seu produto: é preciso falar com quem influencia os compradores, com quem virá a consumir…. É preciso ser mais vigilante quanto à dubiedade das mensagens, a fim de não gerar crises com os diferentes públicos de interesse. É preciso entreter. É preciso não interromper. É preciso construir diálogos. É preciso trazer as marcas para a grande arena global e torná-las partícipes da construção do futuro do mundo, por meio de ações de responsabilidade sócio-ambiental.


É mais difícil viver no futuro.

Não apenas pros profissionais de comunicação, mas pra todo mundo.

Setores inteiros da indústria e dos serviços vem sofrendo com a readequação de seus modelos de negócio, e não é diferente com a comunicação. Mas, ao mesmo tempo em que a incerteza é parte do jogo, é excitante viver numa era de tantas possibilidades.

Não sabemos como será o futuro das agências, nem da comunicação, nem dos mercados, nem da sociabilidade humana.

Pode ser que em 30 anos tudo seja extremamente diferente do que se faz hoje.

Aliás, isso é muito provável.

Pode ser que as agências, como conhecemos, atuem mais como publishers, como propõe este texto aqui.

Ou ainda que sejamos cada vez menos “criativos” e cada vez mais consultores de negócios, como propõe este outro texto aqui.

Não sabemos: podemos até mesmo ter skates voadores e roupas prateadas!

Não temos respostas, mas temos algumas apostas.

Qual é a sua?