Da sabedoria infantil

O raciocínio descabido e cheio de genialidade das crianças.

Por Kika Coutinho

Entre todas as perguntas esdrúxulas das crianças, essa parecia a campeã.

Começou quando ele disse, do alto dos seus 4 anos recém completados:

— Mãe, quando eu tiver um filho, vai ter que cortar a minha barriga, pra sair?

Pergunta normal. Tudo bem que ele era um menino, mas, para isso servem as mães: Para explicar. Tudo. Do óbvio, ao que não tem explicação.

-Filho, meninos não ficam grávidos. Só as meninas. Não vai ter bebê nenhum na sua barriga. — Ele parece estranhamente aliviado, e diz:

-Ah, então eu não vou ter que engolir o bebê?

-Oi??

-Pro bebê ir pra barriga, mãe. Só a menina tem que engolir o neném?

Entre o susto e o riso, me encho de alegria quando consigo acompanhar o raciocínio dele. Claro! Como mais um bebê pode ir parar na barriga de alguém, senão passando pela boca?

Todo mundo tem pêrolas das suas crianças. Minha filha me pergunta onde é o teto do céu, e quem, afinal, é fulano, que todo mundo fala esse nome e ela nunca viu esse moço. Um amigo me conta que, quando criança, achava que as ondas do mar eram feitas pelas baleias e sua cauda gigantesca. Poesia pura.

As crianças são geniais. Pequenos Einstens, todos, porque concebem o mundo a partir do nada. Do absoluto vazio, fazem as suas sinapses, conexões ricas e cheias de ternura, escritas na folha em branco que são os pequenos.

Nós, adultos, já preenchemos as nossas páginas. As vezes apagamos uma ou outra coisa, tentamos rabiscar uma bobagem que escrevemos com tinta permanente, mas, está ali. Nossa visão de mundo, nossos preconceitos, nossa força e nossa fraqueza, até o que não sabemos já tem contornos no livro da vida, porque passamos anos tendo certezas das mais tolas coisas.

Todos os dias, quando meus filhos entram no meu quarto, o caçula pergunta insistentemente: "Tá de dia?" A cada manhã eu admiro esse não saber. Respondo repetidas vezes que sim, quando está claro lá fora, é de dia.

É tão melancólico quanto bonito, preencher a folha em branco que ele me traz. Uma manhã, ele não vai perguntar. Vai olhar, e saber. E eu vou sentir aquele estranha saudades de uma linha em branco e, claro, torcer para ter escrito as verdades certas, com o devido espaçamento, para que ele ainda tenha um pouco de nada, até a velhice.