Eu sou a minha mãe

Sobre o que a gente carrega, o que a gente deixa - e o que não nos deixa nunca.

Por Kika Coutinho

Descobri dia desses, quando apertei firme o braço da minha filha caçula. Eu me vi cerrando os dentes, como ela fazia, e tomei um susto. “Meu Deus, eu sou minha mãe!” — soltei de ímpeto, como quem tenta se livrar de algo que não lhe pertence.

Que bobagem, eu não conseguiria nunca. Porque, quanto mais o tempo passa; mais eu noto, nas mínimas coisas, que eu sou a minha mãe.

Sou a minha mãe quando escolho a roupa da minha filha, aquele estilo clássico de cabelos bem penteados e rabo de cavalo — e sou minha mãe quando não escolho, exausta, e deixo a menina de galochas e calça de moleton dois tamanhos abaixo do dela.

Sou a minha mãe quando compro roupa bege, pensando que, assim, posso passar das filhas meninas para o menino.

Sou minha mãe quando tiro a mesa, prato por prato, sem empilhá-lhos para não sujar a parte debaixo.

Sou a minha mãe quando, mesmo exausta e atrasada, passo o jantar para uma travessa bonita, só pra não por a panela na mesa; como ela odiava.

Sou a minha mãe quando evito um palavrão e quando acho que gemada (!) pode até ser um bom café da manhã. Sou a minha mãe quando escolho ouvir notícias no radio, a contra gosto das crianças, que seguem reclamando no banco de trás: "Quando você crescer e tiver o seu carro, você escolhe" — eu digo, sendo mais a minha mãe do que nunca.

Sou a minha mãe quando grito: “Nem-um-pio”, “Você não é todo mundo” e “Agora eu vou te dar motivo pra chorar

Sou a minha mãe, quando falo pra não bater de volta, quando ponho panos quentes e quando falo indignada a grande "novidade": "Mas ela é sua irmã, filha!!" — Ah vá — ela ainda vai me responder na adolescência. Preciso me preparar pra isso.

Sou a minha mãe quando finjo que não quero saber, e vou cavucando uma história, comentando pelas beiradas, enquanto ando pela casa simulando arrumar um armário.

Sou a minha mãe quando dou aquela olhadinha extra na mochila. Sou a minha mãe quando passo Vicky VapoRub no peito do meu filho, mesmo o pediatra tendo dito que não pode. Sou a minha mãe quando faço uma bolsa de água quente pro ouvido da pequena, e quando faço "tapotagem" nas costas da mais velha. Sou a minha mãe quando encano com uma virose e, sou a minha mãe quando falo uma das frases mais absurdas da humanidade e que, aposto, só uma mãe fala: "Filha, quando acabar não da descarga que eu quero ver o seu cocô".

Sou a minha mãe no certo e no errado, no que quero e no que não quero. Sou a minha mãe, até quando faço diferente porque, o que me fez mal, me ensinou a fazer o contrário. Com ela, aprendi a copiar; mas também aprendi a reparar.

Sou a minha mãe as avessas, quando faço com a minha filha aquilo que ela nunca fez comigo, e que eu tanto queria. De cócegas à festa do pijama. Sou a minha mãe ao contrário, quando decido não ser: "Isso não!"- eu grito, internamente. Isso eu vou fazer diferente; penso, quando me dou conta de que não dá mais pra culpá-la, que passei da idade de responsabilizar mãe em terapia, que cresci e apareci, exatamente como ela dizia - entre ironia e desejo: cresça e apareça.

Porque, se os olhos das nossas mães nos pesam, eles também nos afagam. E, ter essa referência para assistir, como um filme que você sempre pode voltar e olhar, e ver de novo, e entender aquela cena sob outra ótica; é um enorme presente. Ver a sua mãe não mais pelos seus olhos nublados de filha, mas com as cores novas e vívidas que o olhar materno te trouxe. Brindemos, com lucidez e saúde, às nossas mães.

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