Mãe, olha isso.

Como lidar com os filhos obcecados — e exagerados — por você.

Por Kika Coutinho

Vestido Amendoin- http://bit.ly/2r0Kfz0

A frase se repete basicamente o dia inteiro. "Mãe, olha isso?" Ele diz quando vai lançar uma bola na parede. "Mãe, olha isso!" ela fala enquanto tenta um pulo do sofá. “Mãe, olha isso?”a caçula pede quando puxa uma pelinha do dedo.

A demanda para ser visto é eterna. A gente cresce querendo e precisando do olhar do outro para nos constituirmos. As formas mudam, mas, quando fazemos um bom trabalho, por exemplo, esperamos o reconhecimento do chefe. Quando emagrecemos, esperando o elogio do amigo, quando damos os nossos saltos, sejam eles quais forem, sempre queremos um aplauso, ainda que em forma de sorriso.

São os olhos alheios que nos reconhecem.

Mas, na maternidade, nem sempre há o reconhecimento. Ninguém ganha bônus porque desfraldou o filho. Ninguém nem nota que você arruma a mochila deles todo santo dia.

Quem nos olha, de maneira mais profunda, é quem nos pede o olhar.

Nessa sexta-feira pós dia das mães, penso nas declarações de amor dos filhos, nas redes sociais. Um pouco exagerada, convenhamos — confesso que, no domingo a noite, quando meu whatsApp contava centenas de mensagens, dezenas de cartões com flores, o dia monotemático já me cansava e “feliz dia das mães” estava até me irritando. “Chega gente, já deu”, em implorava, as 10 da noite, fugindo das conversas repetitivas.

Mas, algumas homenagens, me emocionaram.

“O que é a coisa preferida que sua mãe faz por você?” Vejo no Instagram de uma amiga: “Ataque de beijos” O filho pequenino responde.

Num mundo onde a coisa preferida que alguém pode fazer por nós é, no mínimo uma massagem, no máximo pagar-as-minhas-contas, alguém que te ame a ponto de ter como sua atividade preferida, beijá-lo em forma de ataque, é um prêmio da loteria.

Leio aquilo e penso, imediatamente: Quando é que seremos amadas assim, tão profundamente, de novo? Que fase da vida que teremos esse olhar, ao mesmo tempo tão ingênuo e tão sinceramente amoroso?

Os filhos sabem pouquíssimo sobre nós, nos conhecem há menos tempo que qualquer colega de trabalho, mas nos olham com adoração única. Na hora de sair, sem saber pra onde vão, ou o que tem que fazer, nos dão as mãozinhas, à seguir o nosso caminho pelo mundo.

Não vai durar para sempre, eu sei. Com o tempo, as mãos entrarão nos bolsos, irão se entrelaçar com as amigas, namorados, e eles seguirão o mundo com as próprias pernas.

"Mãe, olha isso", meu caçula repete, pela milésima vez, só nessa manhã. E, embora eu tenha o ímpeto de dizer: “Já olhei, to olhando, chega!” acabo respirando fundo, desligando o celular, e olhando; de verdade. É assim que sou olhada de volta. É hoje, o meu tempo desse amor, dessa intensidade, e desse salto.