O stress cotidiano

Sobre as pequenas (e grandes) tensões que só as mães conhecem.

Por Kika Coutinho

Eu duvido que alguém, no mundo, passe mais nervoso do que uma mãe. Nem Bin Laden antes de ser pego, passou o que a gente passa.

Filho, cuidado!” “Meu Deus, vai cair daí!” “Filha, fica aqui perto, não sai correndo!” “Olha a borda da piscina, olha o carro, olha o galho.” Isso nos dias leves, porque, nos mais pesados, conheço mães dignas de: “Filho, aqui tem gente que rouba criança” ou “Se você cair daí, morre, nunca mais volta”. Não conto quem é, mas tem até uma que faz uma variável combinando ambas as ameaças de cima: “Aqui tem gente que rouba criança e mata, nunca mais você vai ver a mamãe.”

Sim, tem mães que apelam, e eu não julgo porque cada um sabe a fina que o filho já tirou. E, mais, cada um sabe o nervoso silencioso, aquele íntimo, que passamos caladas, em momentos que ninguém, absolutamente ninguém, nem imagina.

Naquela festa, quando os amigos começaram a demorar um pouco pra chegar. Naquela que a Cinderella ficou de chegar as 4 e já são quase 6. A gente está até rindo, brincando, o clima pode ser de alegria, mas, saibam, tem uma mãe ali olhando o relógio. Checando o whatsApp. “Cade a Giovana, que disse que vinha?” “E se a Elza não chegar?” Tem uma mãe tensa, sorrindo para os convidados, onde você menos imagina.

Na mesa do almoço. Mesmo que seja um almoço cotidiano, em casa. A mãe que fez o macarrão, inventou um molho com espinafre que achou naquele site; e serve, aparentando tranquilidade. Você não sabe, mas enquanto todos começam, ela disfarça, com uma leve tensão a espera da garfada inicial do caçula. Todo mundo comendo e a mãe, por dentro, repetindo: “Goste do molho, goste do olho, goste do molho”. Ninguém nem nota, mas, quando, por fim, a criança empurra o prato e, abusada, fala: “Eca”, um pé de galinha nasce naquela mãe. Ela suspira: “Esse menino não come. Vai ficar doente de novo.”

Você nem imagina, mas tem mãe que até sua, nervosa, antes de cada refeição.

Mãe que tem taquicardia na véspera da apresentação de ballet. Na véspera do vestibular. No primeiro dia de aula. No dia da excursão. Quando toca o telefone — e é da escola.

No escritório, trabalhando, naquela reunião super importante — mesmo entusiasmada, mesmo feliz — mas, se começa uma tempestade lá fora, pode saber, tem uma mãe se ajeitando na cadeira giratória, tensionando os músculos: “Que droga, não tinha casaco na mochila dela

As mães não desligam, mas podem respirar e seguir a reunião. Algumas - outras não. Tem as radicais. Você pensa que ela foi ao shopping, mas ela está seguindo o ônibus escolar daquela excursão maldita até o Butantã. Você pensa que ela tá na manicure, mas ela está entre um arbusto e uma pilastra, tentando assistir, escondida, o primeiro beijo da mais velha.

Depois a gente ri da gente mesma. Conta pra uma amiga pior ainda e se faz de tranquila para aquela mãe segura da escola. Uma bobagem, uma balela. Somos todas iguais. Todas soldados nas trincheiras de guerra, dispostas a tudo, enquanto disfarçam jogando o cabelo.

Todas, absolutamente todas, com aquele mesmo invencível, imbatível, tão comum e tão único, amor de mãe. Que alegria e que sorte a nossa.