Para Quem Espera o Segundo Filho

A MiniLou quer trazer para a moda o nosso coditiano de mães e filhas

Eu sei da sua aflição. Eu vejo em mim a sua angústia, é como se fosse um filme que eu já assisti, e eu me lembro exatamente dos primeiros minutos: Minha segunda filha nem tinha nascido, eu estava grávida de 8 meses, quando uma amiga veio em casa, e trouxe de presente para a neném, umas meinhas pequenas, com solado de borracha. O tamanho era RN. Minha primeira filha, então com pouco mais de 1 ano, se interessou pelo pacote e o pegou — eu nem vi — até que minha amiga me cutucou. A pequena Sofia estava sentada no chão, descalça, tentando encaixar a meia do recem-nascido no seu pezinho. Um estranho desconforto me invadiu.

“Filha, não é sua” — eu explicava, em vão.

Ela fazia uma força danada, língua pra fora e tudo, tentando fazer caber em si, a peça da irmã. Uma cena que se repete até hoje, com outra roupagem (literalmente, inclusive).

Ter um segundo filho é ir para a maternidade e não se dar conta que você nem viu se o bebê estava mexendo, porque não pára de pensar se a primogênita jantou. É posicionar a camera para registrar um beijo de amor e ser surpreendida com um beliscão: ei, não faz isso na sua irmã, você diz, entre a raiva e a compaixão. A raiva de ver uma agressão, e a compaixão de compreendê-la, ainda que o mundo a condene.

Ter um segundo filho é ter um conflito. Ou dentro de si, ou fora entre eles — serão as cenas mais cansativas e repetitivas desse longo filme que você escolheu. Até porque, nelas, você vai viver o conflito dentro do conflito, e vai se ver entre um grito de:

“Cheeega, não quero saber de nada, vou tirar das duas agora e acabou-se!”

Ou, respirar e tentar entender o que, no final das contas, não tem muita explicação.

Ter um segundo filho é amar quando deveria brigar, porque suas filhas estão fazendo uma arte daquelas, mas elas estão tão juntas e cúmplices que seu coração sorri, mesmo que Maria Montessorie esteja revirando na cova. Que se dane, você pensa com o coração inundado de amor. 
Ter um segundo filho é repetir infinitas vezes:

“é seu irmão, fala com ele, e não comigo” e outras tantas: “não! Quando é assim você fala comigo!”

e nunca saber direito quando é hora de falar uma coisa ou outra. E todas essas cenas se repetirão tantas vezes ao longo dos anos… É um filme de amor, cheio de emoção, muita comédia, aventura que pode conter cenas fortes de violência, e, claro, drama de chorar — prepara. Em todo o filme você estará esperando, ansiosa, pela cena de amor. Talvez não sejam tantas, mas, quando vier uma, você vai ouvir a trilha sonora da sua vida, e, sentirá que todas as outras cenas valeram aquela. É um filme que tem de tudo um pouco, inclusive uma cena de sexo, mas ela é bem no começo, não se preocupe.

Pegue uma pipoca, respire fundo, e ah, desligue o celular — ou não. O filme da sua vida, vai começar.

Kika Coutinho