Sobre junho

O mês que tinha pra ser um desastre, e a sua salvação.

Por Kika Coutinho

Junho tinha tudo pra ser um desastre.

Pensa bem. Um mês de inverno, aquele frio do Brasil, onde ninguém nunca está preparado para temperaturas baixas. É um tal de por muitos casacos, fazer combinações esdrúxulas e olhar com alguma melancolia para a saia no armário: "E se eu puser uma meia-calça?" - a gente pensa, tiritando de frio.

As crianças, mesmo ultra empacotadas, muitas vezes ficam doentes e eu duvido que algum outro mês bata junho, nas vendas de analgésicos e antigripais.

Fora que as aulas estão quase acabando, e todo mundo naquele ritmo que oscila entre "não aguento mais" e "socorro, as féria estão chegando".

Junho. Pobre junho, quase foi um fiasco.

Mas, daí, olha que sorte, inventaram a festa junina. Certeza que São João, Santo Antonio e São Pedro, os responsáveis pela festa, fizeram por misericórdia de junho e, inesperadamente, a coisa se inverteu de tal maneira que até julho pega as sobras do seu antecessor.

Junho, ah Junho. Que outro mês seria nome de festa? Nenhum. Nem carnaval, nem Natal foram capazes de fazer dos seus meses, titulares em festa. Ou seria possível existir festa dezembrina? Festa feverina? Não, nunca.

Junho, cujo céu tem outra cor, e a música — junina — já avisa: "Olha pro céu meu amor, veja como ele está lindo", é o único.

E os cheiros? Sabores? Paçoca, pé de moleque, quentão, vinho quente, canjica, milho verde — ô São João, nem dezembro tem um banquete desses!

Tudo sempre regado àquele clima de abraço, que é o frio: "Me esquenta, pai" pede a menina de tranças. Os meninos reclamam do bigode, mas ficam ali, paradinhos, enquanto alguém lhes rabisca o buço. E tem noivo, noiva, pintinhas na bochecha, tem a libertação de mentir e desmentir a vontade: "A ponte quebrou! — É mentira !— Olha a cobra — É mentira (de novo)!" E dança. Muita dança.

Antes que o mês acabe, amanhã, ainda tem noite de São João; esse danado. Salvou junho de ser um fiasco. Esquentou nosso coração em pleno inverno, e de quebra vestiu as meninas de saias que rodam, incansavelmente. Sorte a nossa. Celebremos!