
Uma das minhas atividades preferidas, com as crianças, é ver fotos antigas. Deles bebês, minhas, dos tios, avós e de quem mais vier.
Meu caçula queria saber se o pai, naquela foto, era adolescente ou criança. Explico que era quase adulto e ele começa a procurar fotos, um pouco irrequieto.
- O que você está procurando, filho?
- Eu quero ver uma foto minha adolescente, mãe.
- Filho, mas você é criança ainda.
- Eu seeei — ele está quase irritado — mas eu quero ver uma foto de quando “eu ser” adolescente. — Suspiro -
- Não dá, filho.
- Mas por que não, mãe?
- Porque ainda não aconteceu, querido. Vai ser no futuro, como o amanhã.
- Onde tá o futuruuuu? — responde meu menino turrão, virando a caixa de fotos.
Ah, como eu queria saber…
A gente planeja tanto o amanhã. Vamos levar o carro pra arrumar, vamos mandar aquele email, vamos almoçar com um amigo e, quem sabe, tomar sol. Mas, pera. Onde está o sol de amanhã? A luz de amanhã a conversa de amanhã?
A verdade é que não existe. "Amanhã" é um conto-da-carochinha, uma mentira que a gente inventa pra segurar as pontas porque, convenhamos, o "hoje", sozinho, é uma mesa bamba. Talvez a vida seja essa mesa de três pés onde ontem, hoje e amanhã nos fazem ser, mais ou menos, estáveis. Mas não devia né?
Porque, na real, tem amanhã não. Onde está o meu menino adolescente? As espinhas que ele pode ter, o cabelo; desgrenhado ou bem repartido? Onde estão os jantares que teremos, os abraços de amanhã, o céu e os pássaros de amanhã? Olhe bem. Procure. Ele não existe, meu amor.
Felipe não entende nada — ou entende — e proponho um banho longo. No chuveiro, enquanto se ensaboa, peço cuidado pra não escorregar e noto que o exercício é esse: Cuidarmos do agora e nos equilibramos nessa espuma, de hoje, para saborearmos os encantos da vida. No único tempo real. Esse. Exato. Agora.
Aproveitemos!
