Torre Eiffel iluminada para a COP 21. Foto: Yann Caradec

Além de Meio Ambiente, Paris foi sobre Economia. E o Brasil?

Por Guilherme da Nóbrega, assessor especial do ministro da Fazenda

Interessante o papel que o Brasil tem na construção da nova visão global sobre a questão ambiental, que subiu mesmo à agenda global. Estiveram todos atentos ao Brasil durante o acordo histórico que 196 países firmaram em Paris no último fim de semana. O presidente dos EUA, Barack Obama, foi um dos que ligaram para a presidente Dilma Rousseff depois do evento em Paris, para parabenizar o papel do Brasil.

Certamente estamos na direção correta. E além de melhorar a qualidade do ar que respiramos, a saúde de todos e as cidades, essa nova visão global terá também cada vez mais impacto econômico.

O mundo valoriza cada vez mais as ações de reflorestamento. Já temos boas iniciativas, potencial, e os avanços podem favorecer cada vez mais nossa economia. Vai crescendo o trabalho do Serviço Florestal Brasileiro, por exemplo na gestão do novo Cadastro Rural Ambiental (CAR).

Criado em 2012, o CAR é o nosso registro eletrônico obrigatório de terras — divididas em Áreas de Preservação Permanente, Reservas Legais, Florestas, Remanescentes de Vegetação Nativa, Áreas de Uso Restrito, e propriedades e posses rurais ao redor do país.

Já há cerca de 2,1 milhões de imóveis cadastrados, ou cerca de 63% do total. O Brasil está rumo a eliminar o desmatamento ilegal, e firmar-se como um mercado verde: foco em energia renovável, baixo carbono, e uma agricultura com mais qualidade. Bons sinais para o investidor.

Regras mais firmes de proteção ambiental fazem cada vez mais sentido, e devem logo se tornar realidade pelo mundo. Faz lembrar regras econômicas que hoje são comuns pelo mundo, e que sequer existiam, digamos há 150 anos atrás: estão aí o emprego formal, a moeda nacional, a política fiscal, etc. O novo avanço é na economia da preservação; o Brasil pode estar mais preparado do que a maioria para se ajudar à novidade.

Por exemplo, o evento em Paris torna razoável admitir que regras de reflorestamento se tornarão demanda popular pelo mundo; serão abraçadas como parte da gestão dos negócios ao redor do mundo; e darão ao investimento privado papel expressivo no combate ao aquecimento. Será especialmente via reflorestamento, e revisão progressiva do uso de combustíveis fósseis.

Parque de energia eólica em Brotas de Macaúbas (Bahia). Foto: Alberto Coutinho — Secom/BA

Um país como o Brasil pode ganhar destaque em um mundo que demanda preservação ambiental, e escolhe o modelo de economia verde, como já temos e podemos aprofundar.

Em novos tempos, a preservação pode crescer rapidamente aqui como critério para a concessão de crédito agrícola, e ajudar a expansão da nossa agricultura. Afinal, poucos países têm tanto espaço para ajustar sua agricultura, e já começaram a dar passos nessa direção. Importante: esse novo padrão agrícola global pode refazer o branding da nossa agricultura, especialmente quando avançarmos para produtos mais elaborados.

Os investidores devem manter-se atentos ao papel do nosso Código Florestal. É por aí que vamos levar toda nossa produção a boas regras; e desenhar reformas que deem à agricultura o papel que lhe cabe em um mundo globalizado (fenômeno que vai além da volta da China ao PIB mundial, e inclui consumo e produção).

A temperatura da Terra sempre tem ciclos de alta ou baixa. Eis a opinião científica atual: a) o ciclo agora é de aquecimento; b) vem desde pelo menos meados do século 20; c) pela primeira vez, é fruto de ação humana. A mensagem de Paris: vale o esforço de fechar o ciclo, e vamos todos agir juntos.

Claro que o aquecimento é um ângulo do fenômeno da globalização, e tem a ver com a integração econômica. Em geral falamos em globalização com foco em economia, embora o conceito se estenda também à dimensão ambiental. Paris nos lembrou disso.

Eis como mudam a economia e o meio-ambiente: as últimas décadas espalharam as oportunidades de comércio. Também disseminaram estilos de consumo e produção, agora mais capazes de gerar poluição além das fronteiras nacionais.

Digamos que um país usa regras suaves de controle da poluição em suas fabricas, e se tornou importante exportador industrial. Ora, se o comércio cresceu muito, suas exportações podem chegar a clientes distantes, e sua produção levar mais gás de efeito estufa a vizinhos próximos. Ou seja: globaliza-se o consumo, concentra-se a produção, e é mais necessário criarmos padrões regionais de controle ambiental. Na indústria, e especialmente na agricultura.

Este é um resumo da mudança global que envolve economia e meio ambiente. E uma rápida visão do bom papel que o Brasil começa a jogar na construção desse novo capítulo. Ao longo dos próximos anos, poderemos ser cada vez mais visíveis nesse debate.