“Essas noites são preenchidas com pensamentos solitários
Os tímidos, os indomáveis
Essas noites, eu passo dentro da minha cabeça
O único lugar que eu odeio estar”
Eu sou uma pessoa bem egoísta.
Tudo o que eu dizia repugnar nas pessoas, eu era metade dessas coisas. Isso me causava uma sensação de raiva tão grande que eu me perguntava se havia algum sentido em continuar a notar coisas que me incomodavam no mundo.
Existia uma coisa que eu odiava mais do que tudo: ficar comigo mesmo. Eu gostava de ficar sozinho, mas não gostava de ficar sozinho ao ponto de perceber que minha única companhia era eu mesmo e ninguém parecia se importar comigo. Nem eu me importava comigo o suficiente para mostrar alguma preocupação ou me cuidar. Mas o fato era que eu amava ficar sozinho até o ponto que eu percebia que não estava apenas eu. Quando eu me encontrava sozinho com meus pensamentos, eu percebia que realmente não havia ninguém para que eu pudesse alcançar e fazer algum pedido de ajuda.
Ficar sozinho comigo mesmo era como estar sentado na frente de uma bomba com contagem regressiva para explodir. E eu não sabia desarmá-la. Quando ela explodia, levava tudo em volta e deixava apenas eu ferido. Eu mesmo acabava me ferindo e ferindo tudo ao meu redor.
Eu sou uma pessoa egoísta, tóxica e medrosa. Odiava ficar perto das outras pessoas, com medo de alguma aproximação mais intensa como um vínculo emocional, mas odiava ficar sozinho ao ponto de perceber que não tinha ninguém. Eu não merecia as pessoas, na verdade. O pensamento de que elas podiam sempre encontrar algo melhor e fazer coisas mais divertidas do que estar comigo sempre me assombravam e, quando não estávamos juntos, eu conseguia ver que meus pensamentos eram verdadeiros. Eu era uma pessoa tóxica e tinha medo de me relacionar com outras pessoas, por isso quando conhecia alguém criava uma certa distância e decidia o que a pessoa deveria saber sobre mim ou não.
Eu não me mostrava completamente para pessoas. Enquanto por fora eu transmitia calor, era apenas uma forma de mostrar o quão frio estava por dentro. Eu não era completamente sincero e as pessoas que juravam me conhecer bem o suficiente demonstravam uma surpresa exagerada quando percebiam coisas em mim que elas não sabiam que faziam parte dos traços da minha personalidade. Quando diziam me conhecer como a palma da mão delas, eu apenas ria ou ficava zangado. Vocês não sabiam nada sobre mim, por que tentavam agir como se soubessem?
“Essas noites me lembram que eu sou um e um só”
Eu tenho medo de ser amado.
Pode parecer estranho, mas quando alguém dizia em um tom sério, em uma conversa séria, que gostava de mim, eu chorava. Não por um alivio por saber que alguém simpatizava com meu jeito repugnante e desprezível, mas por tristeza por saber que alguém estava direcionando os sentimentos para mim. Me sentia desprotegido e vulnerável, sabia também que não era merecedor de tais sentimentos.
Não fique perto de mim, eu apenas vou te machucar. Eu não mereço sua simpatia nem sua habilidade de gostar de alguém. Eu tenho certeza que você pode encontrar pessoas melhores e que merecem tal sentimento. Por favor, não me deixe assustado, você está perdendo tempo comigo. Eu sou complicado, não faça isso com você mesmo. Algumas pessoas não deveriam ter contato com coisas assim. Mas existia alguma coisa nas pessoas que as fazia pensar que poderiam mudar outra, que talvez o amor, afeição, sentimentos em geral fossem o suficiente para curar alguém de uma solidão interna.
“Essas noites me lembram da escuridão e de como ela me engana com facilidade”
A minha rejeição aos meus próprios sentimentos e aos sentimentos dos outros fazia com que mais pessoas além de mim sofressem. Quero dizer, isso se sofressem. Eu era uma pessoa tão repugnante e inútil que não podia despertar sentimentos tão longos nas pessoas. Elas cansavam e desistiam facilmente. Quando percebiam que a abertura para o meu eu interno não poderia ser alcançada, desistiam porque era mais fácil deixar um estorvo de lado do que carregá-lo.
E eu concordava.
As pessoas deixavam sentimentos de lado na mesma frequência que construíam eles. Era uma coisa chamada sentimentos idealizados e, quando percebiam que minha resposta não era o que eles planejavam, era muito mais fácil ir embora e encontrar outra pessoa para ser o ideal delas. Isso era por um lado bom. Eu não tinha senso de humor, não correspondia sentimentos, fingia falsa felicidade todos os dias esperando que alguém mostrasse o quão falso eu era e desmanchassem minha imagem, me fazendo sentir uma vergonha tão profunda que nunca mais apareceria no mesmo lugar. Eu poderia me comparar com o sol e a lua. O sol era minha personalidade que eu mostrava para os outros e a lua era minha personalidade interna, a real e a que eu escondia. Era muito mais fácil fazer as pessoas rirem do que acompanhar o quão sem vida eu realmente era. A lua era vazia, fria. Poderia ser considerada bela para as pessoas, até mesmo para mim que me sentava em algum lugar em algumas noites e olhava para o céu noturno, admirando a lua e as estrelas em contraste com a escuridão.
“Essas noites me lembram dos meus sonhos
E como eu nunca irei os alcançar
Essas noites me lembram de um coração
Com o qual eu odeio ficar sozinho.”
Eu sou um pária.
Talvez a lua também fosse e por esse motivo que eu me sentia protegido quando a via. Não era uma sensação de que tudo daria certo, mas era algo que me lembrava que eu não estava sozinho. E então quando ela desaparecia, me via sozinho novamente, me agonizando e me confrontando, encarando aquela bomba prestes a explodir. Eu odiava ficar sozinho com meus pensamentos. Odiava ficar sozinho porque meu eu interno e meu eu externo entravam em conflito, no qual a minha forma verdadeira vencia e eu via que não era nada do que eu fingia ser. Eu era uma mentira, um egoísta, um medroso. Eu não gostava de ter pessoas perto de mim, não gostava que elas tentassem se aproximar e tentar se aventurar em mim, tentando descobrir coisas que eu tentava esconder a todo custo.
Minha mente possuía constelações de coisas que eu havia deixado de dizer.
Eu estou com medo. Por favor, não se aproxime. Quando a bomba explodir novamente, não tenho controle sobre quem ela vai atingir. Se mantenha o mais distante possível. Eu não valho a pena todos os seus esforços, eu não valho a pena o brilho nos olhos das pessoas, eu não valho a pena tamanha atenção, eu não valho a pena.
“Nós apenas esperamos pela luz para afastar nossos medos
Esses medos despertam na noite
Sozinho na minha própria cabeça, esses pensamentos despertam na noite
Sozinho com meu próprio coração”
Música: Show Me The Moon — Bandshes
