MORTALIDADE POR AIDS EM PAÍSES DA AMÉRICA LATINA

Miraldo Monteiro
Nov 1 · 11 min read

ALINE GRIMBERG P. DE MEDEIROS(Sanitarista-UFRN/Mestranda em Demografia-UFRN)

MIRALDO MONTEIRO DE OLIVEIRA(Atuário-UFS/Mestrando em Demografia-UFRN)

LUCIANA CONCEIÇÃO DE LIMA(Doutora em Demografia/UFMG, professora do departamento de Demografia e Ciências Atuariais/UFRN)


A transição epidemiológica seria a denominação atribuída à mudança de longo prazo da distribuição de doenças, lesões e fatores de risco. Ou seja, representa a alteração de padrões de mortalidade por doenças infecciosas para a mortalidade majoritária por doenças crônicas. Assim, essa transformação acarreta no aumento da esperança de vida da população, de 20 anos para cerca de 80 anos (HORIUCHI, 1999).

Uma vez que a mortalidade no século XVIII nos países europeus deduzia uma expectativa de vida na faixa de 25 a 40 anos, com variações regionais. Enquanto no século XX, passou para 65 anos, com um ganho substancial. Esse aumento foi em decorrência da queda das doenças infecciosas e parasitárias (OMRAN, 1971; PRESTON, 1976). Dado que na França, a tuberculose — doença infecciosa — declinou entre 1925 e 1955, em torno de 79% para homens e 87% para mulheres (VALLIN; MESLÉ, 1988).

Esse padrão de mudança das doenças infecciosas para agravos degenerativos foi bem delimitado nos países abastados, pois foi uma alteração lenta, em que os países puderam se adaptar. No entanto, na América Latina, por conviver com desigualdades regionais quanto ao desenvolvimento, cada lugar possui seu próprio perfil epidemiológico e demográfico. Então apesar das doenças cardiovasculares serem a causa de morte prioritária, o HIV positivo ainda se insere como um ponto significativo do cuidado em saúde.


CONTEXTO DA AIDS DOS PAÍSES DA AMÉRICA LATINA

Dado que HIV/AIDS continua a ser um problema de saúde pública ao redor do mundo. De forma que a epidemia na América Latina é caracterizada por estabilidade e concentração com prevalência na população de 0,5% (95% IC: 0,4–0,6). Por sua vez no Caribe a prevalência é variável de país para país. No Brasil, o país mais infectado na América Latina, abriga um terço das pessoas infectadas dessa região do mundo. Dado isso, o perfil do grupo de risco se configura em homens que fazem sexo com outros homens (HSH) (7,9%-25,6%), mulheres profissionais do sexo (3,2%-4,3%) e usuários de drogas injetáveis (78%) (GONZALEZ et al., 2011).

Como cada país tende a possuir realidades distintas, apresenta também características diversas com relação ao grupo de risco do HIV positivo. Por isso, cada nação necessita de políticas de saúde adequadas ao seu quadro. De maneira que, as informações com a finalidade de retratar o cenário epidemiológico de cada país são fundamentais. Ainda é importante destacar que a principal dificuldade seria a acurácia dos dados coletados (GONZALEZ et al., 2011).

Tradicionalmente, a maior prevalência de HIV entre HSH foi relatada no México e nos países andinos. No entanto, nos últimos 10 anos, a prevalência no México parece ter diminuído ou estudos recrutaram uma amostra mais heterogênea e níveis recentes são semelhantes àqueles relatados na América Central. A carga de doenças foi maior no Brasil, embora taxas recentes também foram mais baixas do que as de uma década atrás.

Modelos para a epidemia de HIV na América Latina (AL) demonstraram um aumento de 21% na mortalidade anual por HIV entre 2001 e 2004 e uma queda para 16% no ano 2008 (WHO, 2009). O declínio entre 2004 e 2008 tem sido associado ao aumento da disponibilidade e acesso aos medicamentos em toda a região da América Latina (WHO, 2009). No entanto, diferenças tanto fora como dentro dos países ainda persistem (TUBOI et al., 2009; LAWN et al., 2010; IeDEA, 2008).


CONTEXTO DO BRASIL

O surgimento da AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) no Brasil ocorreu no início da década de 80. Dados mostram que entre os períodos de 1980 a 2017, foram notificados 911271 casos de pessoas infectadas em todo país. Sendo que a região Sudeste, obteve maior número de infectados e a região Centro Oeste o menor número de casos, conforme o Ministério da Saúde (2003).

Os esforços das políticas públicas ao combate da AIDS se intensificaram significantemente nas últimas décadas. Com destaque para a criação do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH), em 1996. Este programa surgiu como um mecanismo do estado brasileiro para potencializar a cobertura e cumprimento dos direitos humanos, em relação a epidemiologia da AIDS. O tratamento e a prevenção se tornaram direitos fundamentais das pessoas, sendo que os itens específicos que garantem o cumprimento destes direitos estão contidas no PNDH (BRASIL, 2003).

Segundo Reis et al. ( 2007), a mortalidadepor AIDS, decresceu a partir de 1996. Para os autores esta desaceleração foi causada principalmente, pela introdução do tratamento com antirretrovirais pelo serviço público de saúde. Neste mesmo ano, a implantação gratuita e universal do tratamento antirretrovirais, pela rede pública de saúde, contribuiu com o aumento da sobrevida dos portadores de HIV. O estudo ainda aponta que a redução mais expressiva ocorreu entre o sexo masculino, além de destacar que os grupos mais afetados pelo vírus, são os jovens e pessoas com níveis socioeconômicos menores.

O padrão da mortalidade por AIDS no Brasil, sofreu expressivas alterações ao decorrer das décadas. No início epidemiológico o vírus atingia principalmente pessoas dos grandes centros urbanos, as maiores vítimas eram os homens homossexuais e pessoas hemofílicas. Contudo estudos observou mudanças no padrão epidemiológico da AIDS, caracterizado pela interiorização, feminização e de aumento de pessoas nos níveis mais baixos de escolaridade. Além de estudos realizados sobre a carga global de doenças em 2010, mostra que a mortalidade por AIDS está entre as principais causas de anos perdidos em todo mundo (BRITO et al., 2001; LOZANO et al., 2013).


METODOLOGIA

Este estudo consiste em uma análise descritiva da mortalidade por HIV positivo e AIDS, em quatro países da América Latina: Brasil, Argentina, Chile e México. Ao longo do tempo e para o ano de 2018. Com pessoas em idade a partir dos 15 anos. Foram realizadas análises com base nos dados do Banco Mundial para os países em destaque e outro estudo para o Brasil com dados do Sistema de Informação da Mortalidade do Ministério da Saúde SIM/MS.

Para os países latinos exceto Brasil, foram calculadas as taxas de prevalência (doença presente na localidade), incidência (casos novos) e letalidade (óbitos entre doentes), além de diferenciais por sexo. A fim de conhecer a realidade dos países. Entretanto por limitações das bases de dados do Banco Mundial não foi possível realizar a análise descritiva do México, onde até a sua aparente estabilidade nos Gráficos, pode ser atribuída à ausência de dados.

Para o Brasil foram realizados, o presente trabalho buscou descrever o perfil da mortalidade por AIDS entre 2010 a 2017, optando em analisar a mortalidade por sexo, idade, raça /cor e estado civil, além de mensura os anos potenciais de vida perdidos.


RESULTADOS

No Gráfico 1, pode-se observar que a prevalência do HIV positivo teve incremento ao longo dos anos nos países analisados, com exceção do México. Entre esses países latinos, o Brasil confirma o destaque atribuído pela literatura. Ao seu lado está o Chile. Vale ressaltar que a prevalência seriam os casos presentes em um local delimitado.

Essa prevalência crescente pode ser atribuída aos avanços da medicina no tratamento da AIDS, ao invés de ser ter uma alta mortalidade por tal desfecho, o que ser percebe é a convivência com o vírus da AIDS.

Apesar da alta prevalência, no Brasil em relação aos demais países, verifica-se que a mortalidade entre os casos novos ou incidência é menor do que na Argentina e Chile, retrata no Gráfico 2. Com destaque para a alta mortalidade de casos novos no Chile. Ainda é válido destacar que o México não foi analisado por falta de dados no Banco Mundial, o que pode mascarar a taxa constante apresentada no Gráfico 1.

O fato de haver elevada taxa de mortalidade dos casos novos no Chile, demostra que ainda se precisa avançar no país para tratar os portadores de HIV. Visto que tal taxa destoa dos demais países alocados na mesma região.

Por sua vez no Gráfico 3, há os diferenciais por sexo, com a predominância da letalidade (óbitos entre os doentes) entre homens por AIDS, em 2018. Assim, como no Gráfico 2, não estavam disponibilizados os dados do México e Brasil.

Mais uma vez, o Gráfico por diferenciais de gênero condiz com a cultura masculina em não saber que está doente. Por alcançar estágios mais avançados, o tratamento se torna mais difícil e acarreta no óbito masculino.

Gráfico 1: Prevalência do HIV positivo no Brasil, Chile, Argentina e México, ao longo do período entre 1990 a 2015.

FONTE: Banco Mundial (2019).

Gráfico 2: Taxa de Mortalidade de Casos Novos, 2018.

FONTE: Banco Mundial (2019). NOTA: Não estavam disponíveis os dados para o México.

Gráfico 3: Taxa de Letalidade de AIDS por sexo, 2018.

FONTE: Banco Mundial (2019). NOTA: Não estavam disponíveis os dados para o México e o Brasil.

Analisando o Gráfico 4 observa que o maior número de pessoas que morrem decorrente do vírus HIV, se concentra no sexo masculino, a mortalidade entre homens por AIDS, é duas vezes mais que entre as mulheres, em números entre os anos analisados foram registrados 95008 óbitos na idade jovem adulta (15 a 69 anos), onde 66,07% destes óbitos foram no sexo masculino, a faixa de idade com maior frequência observou do 20 a 49 anos.

Em relação a raça e cor o maior percentual de óbitos foram registrados, entre pessoas brancas, pardas e negras, correspondendo a percentuais de 43,13%, 42,19% e 14,06% respectivamente (Gráfico 5).

O Gráfico 6 descreve o percentual de óbitos por HIV registrados em relação ao estado civil, percebe-se que os maiores percentuais se concentram entre pessoas solteiras casadas e separadas judicialmente, correspondendo a 66,59%, 16,59% e 7,24% respectivamente.

Os anos potenciais de vidas perdidas, ou seja, os anos médios de vida perdidos, decorrente da morte prematura por HIV, no Brasil os valores encontrados foram de 26,95 anos para o sexo masculino, e de 27,44 anos para o sexo feminino, sendo as idades calculadas entre os 15 e 69 anos.

Gráfico 4: Mortalidade por AIDS no Brasil, sexo e idade 2010 a 2017.

FONTE: Sistema de Informações sobre Mortalidade — SIM/Ministério da Saúde.

Gráfico 5: Mortalidade por AIDS no Brasil, raça/cor 2010 a 2017.

FONTE: Sistema de Informações sobre Mortalidade — SIM/Ministério da Saúde.

Gráfico 6: Mortalidade por AIDS no Brasil, estado civil 2010 a 2017.

FONTE: Sistema de Informações sobre Mortalidade — SIM/Ministério da Saúde.

Por meio dos resultados encontrados no Brasil entre 2010 e 2017, se conclui que a mortalidade pelo HIV, é predominante entre pessoas adultas jovens do sexo masculinas e solteiras. Isto indica que devem ser desenvolvidas políticas públicas, direcionada principalmente para este grupo. Com o objetivo de melhorias no acesso aos serviços de saúde, campanhas que visam a prevenção do vírus HIV. Além de políticas públicas de inclusão social, uma vez esta inclusão sendo alcançados, os indivíduos se conscientizarão da importância do tratamento. Desta forma, possibilitar o aumento na expectativa de vida.

Analisando os resultados sobre a raça/cor (Brasil) conclui-se que existe uma concentração de óbitos por AIDS, representativa entre as pessoas brancas, pardas e pretas, isto mostra que a mortalidade por HIV no Brasil, é heterogenia em relação a raça/cor.


CONSIDERAÇÕES FINAIS:

A literatura consta que a expectativa de vida, para pessoas soropositivo tem aumentado nas últimas décadas no Brasil. Isso implica enfatizar que este aumento na expectativa de vida, é resultado de políticas públicas eficientes e eficazes, desenvolvidas nas últimas décadas. Contudo com o cálculo do indicador anos potenciais perdidos de vida na mortalidade por HIV em presente trabalho, conclui-se que mesmo com o aumento da expectativa de vida, o indicador demonstrou que a mortalidade por AIDS, ainda é responsável por significativos anos potenciais perdidos de vida no Brasil. De modo que doenças infecciosas coabitam com doenças degenerativas. Logo, a dualidade deste perfil indica a complexidade no momento de planejamento das ações de políticas públicas do país.


REFERÊNCIAS:

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Originally published at https://medium.com on November 1, 2019.

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