As mutações de uma torcedora

Santos 1 x 2 Corinthians — Semifinal Paulista 2001

No dia 13 de maio, há dezesseis anos, eu enrolei a toalha da Minnie na cabeça, enxuguei o corpo com a do Harry Potter e me vesti. Resolvi sentar na ponta da cama e ligar a TV, enquanto aguardava minha mãe vir me ajudar com aquele cabelo longo, quase na cintura, que eu ostentava aos 10 anos.

Na pequena tela estava passando um jogo do Corinthians. Um jogo do meu time, que não estava ganhando, mas também não estava perdendo: um para ele e um para o Santos, o placar indicava. Ainda iam demorar dois anos para eu ter acesso à Internet — discada, só sábado depois das duas e de domingo — , então eu não sabia nada sobre a relevância da partida. Meus interesses eram Nintendo 64 (Fifa e Zelda), Gameboy (Pokémon), andar de patinete e brincar com uma bola amarela da Ultragaz, simulando todos os esportes, reais ou não.

Hoje eu sei que Gil sambou pra cima do André Luiz, fingiu que ia cruzar, Marcelinho Carioca fingiu que ia receber o passe e Ricardinho fingiu que ia fazer um gol normal, mas fez um golaço no Fábio Costa. Em 2001, fiquei pulando ao ver a euforia da comemoração: era uma sensação diferente, esse tal de gol no último ataque. O homem que narrava explicou que a vitória classificou o Corinthians. O meu time estava classificado e eu, feliz, simplesmente feliz.

“Qual seu time?”. É difícil, da minha experiência em São Paulo, que a resposta seja “não torço para ninguém”, ainda que o envolvimento com o futebol seja ínfimo, e assim temos um torcedor, um número, um dos milhões. Uma pesquisa realizada em 2017 indicou que praticamente 70% dos torcedores dos grandes paulistas não conseguem indicar três jogadores titulares de seus times. Alarmante.

Naquele domingo de 2001, semifinal do Paulista, deixei de ser torcedora — do tipo acima apontado — para virar Torcedora, querendo aprender cada dia mais sobre o Corinthians e me envolvendo com o futebol.

A família da minha mãe possui pouco interesse no esporte. Já a do meu pai é composta apenas por palmeirenses. Nascida em 1991, eu estava na fase “criança fofa” na era Parmalat, então nada mais natural que vestir sua filha com o uniforme — camisa, shorts e meias — alviverde, na festa de aniversário de cinco anos dela.

Porém, a fase de me autoproclamar palmeirense durou pouco. Um tio me presentou com uma camisa do Corinthians MUITO PIRATA — benção, tio, mas preciso confessar — e MUITO MAIOR do que uma criança de seis anos, naturalmente pequena, poderia vestir. Mas a foto mostra que eu sorri com o agrado, que o branco e preto me conquistaram mais do que o verde e branco de antes. Outra foto mostra que resolvi tirar o conjunto jeans e vestir essa mesma camisa, com a adição de um shorts preto e um boné do Banespa virado para trás, para dar alegria à minha festa de oito anos, a primeira desde que minha avó havia falecido.

Meu pai nunca ficou nervoso por escolher torcer para o arquirrival. Continua fazendo graça para os outros: “onde foi que eu errei?”. Embora nunca tenha tido vontade de ir ao estádio — “Isso não é para mim.” — poucas vezes deixou de acompanhar o Palmeiras no rádio, inclusive me dando um pequeno radinho pink para a gente ouvir juntos as partidas, quando o jogo calhava de acontecer em um passeio nosso.

Aos sete anos ele já havia me ensinado sobre as Guerras Mundiais, Napoleão e a diferença entre um lateral e ala, tudo num estilo simples, mas carinhoso, que ele julgava ser imprescindível de uma criança saber. Como disse há pouco, depois de virar Torcedora fui atrás do conhecimento sobre futebol e, no início da puberdade — aquela fase que parece que um trator passou na sua cara — , os papéis se inverteram e era eu quem ensinava fatos e curiosidades do futebol para ele, nosso vínculo mais forte.

Como as glórias não chegam por um caminho de rosas, a transição de Torcedora para Fanática veio com a humilhante eliminação ante o River Plate, em 2006, ano da minha primeira vez a um estádio, com a minha mãe — que se tornou uma grande corintiana e elegante comentarista, por sinal. Vesti tudo que tinha do time e fui para a aula na manhã seguinte, chorando. Barrada na porta, a raiva só não era maior do que o sofrimento que passava com a maioria dos colegas — e era um pulo para eu cair na pilha. Fazer o colegial entre 2006 e 2008 definitivamente não foi fácil, houve só pequenos momentos de alegria, como com o Betão.

A maturidade me deu a chance de apreciar o futebol com mais prazer. Não evita as lágrimas, a angústia e a dor que um time do coração pode causar, mas permite que nunca perca a curiosidade, a gana de aprender e, principalmente, o respeito por tudo que envolve o jogo, sem se afetar por uma parcialidade cega e violenta, benéfica a ninguém. Evolução e profundidade, diria o Tite.

Do alto dos meus 26 anos, tive a oportunidade, com o futebol, de escrever matérias para sites, gravar um documentário na Argentina, participar de podcasts e de conhecer pessoas tão apaixonadas como eu, de ideais semelhantes.

Agora uma nova fase começa, como chefe de redação da Revista Corner. Com certo atraso, obrigada, Ricardinho, por ter feito o gol que mudou minha vida.