Chapecoense é a minha Seleção

Cléber Santana rouba a bola na linha do meio de campo, faz uma finta de corpo para cima do argentino, que cai no chão, e passa para Camilo, que já tabela com Túlio de Melo. COMO JOGA BONITO O TIME DE GUTO FERREIRA, O GORDIOLA. O atacante sente a movimentação de uma massa de ar à sua direita e toca no ponto futuro. APODI! APODI! APODI! É GOL DA CHAPECOENSE! É GOL DO BRASIL CALANDO O MONUMENTAL DE NÚÑEZ. Argentinos, me digam como se sentem agora!

CHAPECOENSE É A MINHA SELEÇÃO

Lembro-me da última vez que chorei pela Seleção Brasileira. Foi na Copa América de 2004, depois do gol da Argentina. Um safado moleque feio cismava em prender a bola na linha de fundo, não deixando o Brasil jogar. Desabei em prantos. Aqueles minutos finais de jogo iam escorrendo na mesma intensidade que as minhas lágrimas: na velocidade créu 92. Eu já tinha 13 anos, mas mesmo assim minha mãe me colocou no colo e disse: “Fica assim não, filha. É só um jogo. Não chora não, a mãe não aguenta ver você chorar…”

Ante ao sofrimento mais sincero de uma mãe zelosa, os cosmos agiram de imediato e mandaram forças para o Didico. “Pode até empatar, quem sabe agora… Capricha, Adriano. OLHA O EMPAAAAATEEEEEE!”

Não entendo como uma pessoa pode não gostar do Galvão Bueno. A narração dele é espetacular, mesmo com as suas abobrinhas (ou talvez por isso que ele seja tão magnífico).

Este momento histórico foi uma das minhas últimas alegrias genuínas com a seleção: depois de 2006, a ingenuidade morreu. Nem esperei o jogo contra a França acabar. Toda aquela algazarra fora do campo, antes mesmo do início do torneio, já tinha me azedado. Desde então a paixão pela Seleção Brasileira foi minguando. Nunca torci contra o Brasil e nem vou torcer, não é este o ponto. Na realidade, só passei a ver os jogos sob a lente da razão e não mais apenas com o coração. E, infelizmente, a razão é própria antítese do futebol. Por isso, neste final de ano, adotei provisoriamente outra seleção brasileira: a Chapecoense.

MAIOR VERDÃO DO BRASIL

Se você acha que a Copa do Mundo foi o melhor acontecimento do Brasil no ano passado, enganou-se. O que abalou as estruturas nacionais foi a estreia de fato da Associação Chapecoense de Futebol na elite do Brasileirão.

Estreia de fato porque a Chapecoense chegou a disputar duas edições do Campeonato Brasileiro, que era organizado de uma forma bem diferente do atual. Entre 1978 e 1979, época em que os estaduais até tinham mais relevância e mística que o próprio torneio nacional, o clube de Chapecó disputou a primeira divisão.

O maior verdão do Brasil nasceu em 1973 após a união entre dois times locais — Atlético Chapecó e Independente — visando a ser uma nova força representativa do futebol de Santa Catarina. Exatamente por ser um clube novo, não era esperado que fizesse boas campanhas no Brasileirão, mesmo após ter conquistado pela primeira vez o Catarinense em 1977 (fato que se repetiria em 1996, 2007 e 2011, este último já comemorado na Arena Condá, inaugurada em 2009, com capacidade para 22 mil pessoas.)

Foram convidados 74 times para participar do Campeonato Brasileiro de 1978, divididos em diversos grupos regionais, à priori. Havia 13 times no grupo da Chapecoense, em que os 6 primeiros avançavam de fase. Porém, o maior verdão acabou em nono lugar, sendo considerado o 51º melhor time do país.

Já a edição de 1979 contou com mais participantes ainda: 94. E aí sim, infelizmente, a Chapecoense fez feio ao ser o lanterna de seu grupo de 10 times, encerrando o torneio sem nenhuma vitória sequer, fazendo a segunda pior campanha de todos os times.

TRINTA ANOS DEPOIS

Onde você estava em 2009? Com 18 anos, eu estava estudando para entrar na universidade enquanto a Chapecoense conseguia uma vaga na série D por meio da Copa do Brasil. Subiu logo de cara para a Série C. Após três temporadas, o time conseguiu o acesso à segunda divisão. Mas o que causou mais comoção foi o fato de que conquistou o direito de competir entre os melhores times do Brasil já na temporada de estreia na série B, em 2013. Embora a mídia já acreditasse de antemão que inevitavelmente a Chapecoense ia ser rebaixada, o time conseguiu terminar a temporada na 15º posição. Mas, claro, o ponto ápice da campanha foi a goleada por 5x0 ante o Internacional.

Rafael Moura: o goleiro menos vazado do campeonato

Este ano a campanha não é muito diferente, o time encontra-se na 14º posição. Até mesmo a goleada com zoeira foi garantida, só mudando a vítima — 5x1 no Palmeiras:

SI, NOSOTROS PODEMOS

Os critérios para a definição final dos representantes brasileiros na Sul-americana são estranhos. Por dependerem de quem foi eliminado na Copa do Brasil e do Ranking da CBF, os times não conseguem se planejar com antecedência para a disputa deste torneio.

Com a Chapecoense não foi diferente: com o avanço de Flamengo e Figueirense na Copa do Brasil, entrou na segunda fase da competição e fez o duelo nacional com a Ponte Preta. Após arrancar um empate de 1x1 em Campinas, goleou a Macaca por 3x0 em casa.

Assim, pela primeira vez em 42 anos de história a Chapecoense disputaria um confronto com um time internacional. As oitavas de finais reservaram o Libertad como adversário e quase que o maior verdão aprontou no Paraguai, mas tomou o empate nos acréscimos.

Só que nada poderia deter a euforia do time, nem mesmo o gol paraguaio logo aos cinco minutos em terras brasileiras. A Chapecoense não apenas empatou o jogo, como aguentou a pressão mesmo com um jogador a menos por praticamente metade do jogo e mesmo com o juiz não colaborando. Dessa forma, a partida foi para as penalidades. Com o chute para fora do Libertad, o time caçula da série A estava classificado para as quartas de finais da competição, indo enfrentar nada mais nada menos que o tradicional River Plate.

Campeão Argentino. Campeão da Sul-Americana. Campeão da Recopa Sul-Americana. Campeão da Libertadores. Nossa, o torcedor do Los Millonarios cansou de comemorar títulos nos últimos dois anos. Enquanto a Chape ainda briga para não ser rebaixada, o River volta toda a sua atenção à conquista do bicampeonato, já que desde que venceu a Libertadores demonstrou um desinteresse pelo campeonato argentino (por exemplo, venceu somente um dos últimos cinco jogos). Em um duelo típico de Davi e Golias, a Chapecoense visitará o River Plate amanhã em busca de um resultado satisfatório para quem sabe fazer história na Arena Condá, uma semana depois.

Se a Seleção Brasileira já não consegue mais me cativar com suas exibições, estarei grudada na tela da televisão para acompanhar a minha nova seleção: dedicação, paixão, raça, vontade, coragem e tesão não vão faltar aos jogadores. Que coisa linda é uma partida de futebol…