Covardia nas entranhas ou desespero poético

Letícia Miranda
Sep 1, 2018 · 2 min read

Covardia nas entranhas mais profundas do corpo e da alma que perseguem até o último resquício de sanidade e imposição que restavam no ser que vos escreve isso. A covardia que faz os ossos estremecerem e os órgãos chacoalharem a cada aparição da decisão que deve ser tomada. A covardia que se converteu no medo tão singular quanto o medo de entregar-se, dar seu corpo a quem menos ansiava e, com os mesmos sintomas de terremotos que se espalham como uma corrente elétrica por todos os ossos que compõem o corpo e que, por fim, ao excesso de carga, explodem, dilacerando o coração, que leva consigo toda a vitalidade do corpo. Sobrando a alma –ou a consciência, se você é uma pessoa cética– que tem o papel principal baseado no tormento, no qual o indivíduo encontrava paz somente em poucas horas onde a profundeza do sono vem com seu pelotão para tentar destruir com toda força a barreira da alma a fim de proporcionar momentos solenes transformados em filme entre as memórias de uma vida sem covardia, envolvida por nostalgia de um passado reluzente e acariciada pelas esperanças de um futuro brilhante. Mas o sol se ascende novamente do lado de fora da janela e os soldados do sono não mais conseguem segurar a persistência da alma que luta bravamente para recomeçar a tortura ao mais novo amanhecer. Durante o dia, em alguns momentos de cansaço, a alma se deixa cochilar por uns instantes, e é quando os filmes felizes entram em aparição novamente e acalentam o corpo atribulado. Mas, nos momentos diurnos, além das sessões repetidas dos melhores filmes da vida, estão as memórias reais construídas no então presente, levantadas por gestos de amor e carinho vindos do mundo externo, no qual a alma não tem soberania. O pôr do sol alaranjado no horizonte acompanhado da ventania do final da tarde que bate no nosso rosto e deixa um recado de que tudo vai dar certo, porque o vento que leva é também o vento que traz. Ou o abraço apertado e caloroso das crianças ao chegar em casa que faz o coração tentar se reconstruir novamente porque aquela agitação é um indício de que o mundo ainda tem jeito. Porque ainda há lugar no mundo para aqueles que tiveram a solidão marcada em todas as suas gerações, com o único requisito de que a próxima solidão não pode ser aceitada, como as anteriores foram. Que ainda há amor e que isso purificará a alma que, de tantas coronhadas, tinha se tornado imbatível às coisas boas e convencido a si mesma que passaria o resto da eternidade atormentando o corpo daquele que tanto tinha a maltratado. E que, no final de tudo, a melhor forma de saber do seu destino, é o inventando.

    Letícia Miranda

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    Um reflexo distorcido do que eu queria ser.

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