Dentro da tela

Ontem eu finalmente assiti Boyhood, depois de adiar por quase metade de uma eternidade. O filme aborda coisa pra caramba, mas com uma sutileza de dar inveja. Também é acompanhado com um roteiro bem original e alguns diálogos que nos tiram o fôlego e fazem a gente pensar sobre as porras que andamos fazendo (ou vivendo) por aí.

Quero começar com um diálogo do Mason e da Sheena, onde o Mason falava mais ou menos algo sobre o fato de que atualmente as pessoas vivem dentro de uma tela, sem interações reais. Eu vivo dentro de uma tela. Tenho a impressão que a internet pensa por mim, às vezes. Meu excesso de tempo inútil nas redes sociais me faz deduzir que o meu senso crítico está descendo pelo ralo e eu não tenho controle nenhum sobre isso. Mas eu acho que não é só eu. Acho mesmo.

Você consegue sair várias vezes seguidas sem seu celular nos dias de hoje, por exemplo? Por precaução, muitas vezes não levo celular para algumas saídas, afim de evitar roubos, contudo, ainda penso nele toda hora; em como seria massa gravar um áudio disso, tirar uma foto daquilo, fazer um boomerang com ou de fulano etc.. Normalmente eu não costumo refletir muito sobre essa questão, mas agora esse lance todo me parece assustador. Eu vivo dentro de uma tela. Chacrinha!!!

Se eu não fosse do interior, queria ter nascido na década de 1980 — eu tenho o complexo da Era de Ouro, caso os roteiros do Woody Allen estejam certos. Por muitos motivos, mas quiçá também eu não ligasse tanto para esse grilo todo de ter/querer estar conectado várias horas por dia. É um show total de bizarrices, onde eu sou a principal expectadora. O conceito de tecnologia como extensão do corpo nunca foi tão palpável e estarrecedor. Chacrinha!!

Outra parte do filme é a cena na qual o Mason está se mudando devido à faculdade e sua mãe tem um tipo de surto porque percebeu que sua vida toda praticamente já passou. A fugacidade do teu corpo e mente é sagaz demais. 1/4 da vida de um ator rendeu um filme. Eu me imagino no lugar dele quando assistiu o longa já pronto. Talvez eu tivesse leve crises de surto também; eu vejo fotos de 4 anos atrás e já me sinto vítima da famigerada efemeridade das coisas, quem dirá o que aconteceria se eu assistisse um filme que me acompanhou durante “toda” a minha passagem na Terra (vulgo Coité). Chacrinha!!!

“O auto da compadecida” foi gravado há 17 anos. Há 15, me mudei pra o meu atual bairro, no qual era preenchido somente por mato e uns punhados de casas, mas hoje ele é habitado por casas e um punhado de mato. Já fazem 6 anos que a Amy Winehouse se foi. Eu já estou na faculdade. “Umbrella”, da Rihanna, foi lançada há 10 fucking anos. Há 6, tive minha primeira paixonite aguda. “Os Simpsons” já têm mais de 600 episódios!! Chacrinha!!

Eu vivo dentro de uma tela. Eu deixo o tempo passar. O timing da vida é foda. E Boyhood também é.