On the road
Era pouco mais de 13h quando eu tive uma ideia ótima na qual eu desejava escrever sobre. Depois de passar uns 15 minutos sem pausa (acho um tempo absurdamente grande) pensando sobre as coisas que me amendontraram quando mais nova e que moldam as coisas que me amendontram atualmente, surgiu-me um texto quase por completo; início, meio e meio-fim. Como estava em um automóvel e tenho enjoos frequentes, fazer qualquer coisa que não seja ficar imóvel escutando música pode ser muito difícil, ainda mais quando não tomo alguns comprimidos — que espero ansiosamente para me deixarem sonolenta posteriormente — , como foi hoje. Claro que, quando eu acabei a viajem, não lembrei do maldito texto, o que é meio bizarro, visto que eu havia planejado este há minutos antes. Agora, me recordo que eu falaria sobre caminhões e minha relação com eles, tentando fazer um paralelo com a solidão. Talvez agora o texto não saia certo. Talvez tenha que ser assim.
Frequentemente, eu pego caronas em caminhões. Acho muito agradável não pagar passagens, ter mais espaço e me sentir mais alta que a maioria dos carros que me ultrapassam durante a viagem. Mas também acho que eu tenho sorte; quase nunca pego um caminhão com carga muito volumosa e/ou frágil — se você não entende o que eu disse, experimente um dia viajar em um caminhão grande lotado de telhas em uma estrada esburacada e entenderá o que eu quero dizer.
Durante as viagens, eu permaneço constantemente calada até ser abordada com alguma pergunta ou comentário. Contudo, caminhoneiros falam muito. Quase sempre. Muito mesmo. Também sempre deixam o rádio ligado e eu presumo que seja pra deixar o clima menos constrangedor (Jorge e Mateus já melhoraram muitos ambientes). Provavelmente eles estão sempre puxando conversa porque, na maioria das vezes, estão sozinhos, presos consigo mesmos por horas e horas, em basicamente uma única posição, sempre alertas, sempre com dores de coluna e sempre entediados, com as mesmas perspectivas, ainda que tudo seja diferente. Um dia, após me falar quem eram os donos milionários de alguns terrenos perto da estrada — tem muita estrada em 2h de viagem — , um dos caminhoneiros começou a falar da mecânica dos caminhões — aparentemente o ramo de amortecedores parece estar indo bem.
Apesar de tudo isso, hoje foi um dia muito incomum. Houve somente rádio na viagem toda, praticamente. Depois do senhor que me deu carona hoje se surpreender com meu tamanho e falar que mora no mesmo bairro que eu, não houve mais assunto entre nós e o caminho se seguiu. Tocava alguma dupla sertaneja fazendo uma parceria com MC Kevinho quando eu comecei a lembrar de coisas. Coisas que provavelmente eu lembraria quase o tempo todo se vivesse dentro de um caminhão me aturando e aturando buracos e ultrapassagens perigosas. Fazia tempo que eu não lembrava dessas coisas. Coisas que aconteceram nos últimos 8 anos (Caralho, o tempo voa!). Coisas que apesar de eu tentar negar, definiram quem eu sou. Coisas ruins. Coisas. Coisas.
Nesse período, se eu não me engano, uma dupla de mulheres sertanejas cantou. As outras músicas eu não me lembro mais.
Aleatoriamente, umas três horas após esse fluxo de pensamentos (risos), quando nem ligava mais para a existência e escrita desse texto, lembrei de uma coisa que não aconteceu há 8 anos, mas me moldou de maneira significativa: um abraço que um amigo me deu um dia, depois de uma situação horrível. Foi um abraçaço. O abraço não mudou tudo, nem de longe, mas o peso das coisas diminuiu. Saber que tem alguém pra relaxar teus músculos quando o peso estiver grande melhora muita coisa.
(sinto no fundo do meu coração que não é essa música, mas foi a única que eu achei de MC Kevinho com dupla sertaneja)
Obs: eu não sou aquele tipo de garota que pega carona aleatória com estranhos na estrada (embora admiro as manas que são corajosas). os caminhoneiros com quem viajo são todos conhecidos do meu pai (isso é para minhas amigas, que me repreenderam por eu não colocar essa informação na última vez que falei sobre).

Foto encontrada aleatoriamente na internet.
Eu nunca perguntei o nome de nenhum caminhoneiro e, por incrível que pareça, eles nunca me falaram também.
