Quando eu comecei a ter medo?

Estava assistindo um filme do Bob Esponja com o meu primo quando, em uma cena com o Patrick, ele questiona o fato da casa dele ser subterrânea, mas estar coberta de areia, sem lugar de entrada. “será que teve uma tempestade de areia no mar?”, ele questiona. Disso eu me lembrei do mar e de como hoje eu tenho medo dele, coisa que antes eu não tinha. Eu entro no mar atualmente, pensem bem, mas não consigo nadar até longe — ou quase nada, para ser sincera — e eu não era assim. Quando mais nova, se deixassem, penetrava toda aquela água até perder o fôlego e voltaria somente se alguém estivesse me oferecendo sorvete ou me ordenando. E o pior é que isso não acontece só no mar: eu comecei a ter medo de quase tudo na vida, sobretudo em práticas externas. Não tenho síndrome do pânico ou algo do tipo, eu simplesmente não me arrisco mais, e acho que não é porque eu cresci (a vida adulta não me absorveu ainda, onde a “responsabilidade” — vulgo uma desculpa para não viver novas experiências — é o guia para aturar tudo).

Eu curso Psicologia e, mesmo sem querer, a gente começa a entender (ou achar que entende) todas as raízes dos nossos problemas, desde lá do início até as situações atuais. Autopsicanálise mixuruca. Hoje eu entendo o porquê de não ser mais proativa, ou ser mais tímida, ter uns complexos ou outros, mas eu não consigo achar o ponto de partida do meu medo. Claro que, como a maioria dos problemas, há formação de uma panela de pressão cheia de pequenos acontecimentos, e em algum momento essa panela, de tão saturada, perde seus mecanismos de defesa e causa o estrago. Mas o meu medo…. penso, penso, penso, “porra, letícia, onde foi?” nada. vazio. escuro. branco. vertigem.

Minha família (painho, mainha: freud explica?) colaborou nessa falsa-armadura-de-segurança impregnada na minha mente, que trava meu corpo quando eu estou no mar. Sim, eu tenho essa questão com o mar. Eu quase não o vejo e eu o romantizo tanto que chega a doer estar no mesmo e não conseguir me emaranhar naquele sal de verde/azul eterno. Primeiro eu espero a brisa bater no meu rosto, porque eu sinto que aquela infinidade serve para me mostrar o quão pequena eu sou perante toda essa grandeza do mundo e que as coisas são bem melhores do que parecem — existem momentos em nossa vida que realmente precisamos ter essa certeza. Eu dou um mergulho e sinto meus olhos arderem e o resultado final é o mesmo após o choro de minutos seguidos, no meu quarto. O cabelo embaraçado em meu rosto, empapado de água até o ultimo fio que não deixa eu enxergar nada. lavei. pronto. olha o infinito azul/verde/marrom, dependendo. as coisas já mudaram de espectro. tento ir mais a frente, quebrar ondas, aventurar o meu corpo, mas minha mente é mais traiçoeira e me puxa mais forte que as mais poderosas ondas do Hawaii. E é essa dualidade que o mar me traz com o medo e a sensação de liberdade que me dói e que me faz repensar nas minhas pendências, porque é como se minha opinião mudasse em velocidades astronômicas e a confusão entra dentro de mim mais rápido que o sal faz arder meus olhos.

Eu não sei quando eu comecei a ter medo, mas quem sabe até o final do curso eu descubra. Navegar é preciso, sofrer também é.


Entrei no mar semana passada lembrando de Amyr Klink, Shackleton e de um livro do Daniel Galera, onde o protagonista nadava. Eles não têm medo. Eu não remarei sozinha da África até o Brasil, não vou ser uma exploradora que acabará com o navio encalhado em caminho à Antártica e não nadarei até à beira da morte, mas eu vou perder meu medo do mar — e de outras coisas.