Memória Corporal

Me perguntaram uma vez se, mesmo depois de tanto tempo, eu não me esquecia dos passos de ballet.

Respondi que não, ora, é impossível esquecer algo que marca teu corpo e tua alma por tanto tempo.

Afinal, como eu iria esquecer de posicionar sempre meus pés abertos em um lindo en deors, ou de procurar sempre por um ponto de equilíbrio quando quisesse desfrutar da graça de girar uma pirueta completa? Pois é, eu não iria esquecer e nem me esqueci, e o nome disso é memória corporal.

A memória corporal que não me deixa apagar de mim anos de palco é a mesma que não me deixa apagar de mim tudo de você. A memória corporal me dói, me constrói, e reconstrói em mim os dias em que você me marcou, me beijou, me tocou. Mal sabia eu que teus dedos pressionados contra os meus mais tarde me pressionariam tanto a voltar para ti. Mal sabia eu que minhas pernas esguias juntas das suas ainda saberiam o caminho de volta a ti. Mal sabia eu que meus braços, os mesmos braços que ainda lembram todas as posições de ballet: primeira, segunda, terceira, seriam aqueles que se abririam novamente para te envolver também uma, duas, três vezes.

Maldita memória corporal que não me esquece, não me apaga, não me larga, só me cega, só te enxerga, só me alimenta de lembranças suas, de sorrisos teus.

É como na dança.

Queria que meus pés cumprissem a ordem que lhes dou de seguir na direção oposta a ti, mas eles já se acostumaram tanto a correr ao teu encontro que não precisam mais que ninguém lhes lembre do caminho.