Disruptiva é a mãe!

Ontem, dia 3 de fevereiro, foi aniversário da minha mãe e não pude estar com ela. Sim, aí fiquei meio sentimental e resolvi escrever.

Um dia desses falaram sobre eu ser disruptiva por ter crescido na “roça” e ainda assim ter feito computação. Mas disruptiva mesmo foi minha mãe.

Minha mãe, nascida em Quirinópolis-GO, filha mais velha de pais divorciados. De família bem humilde (pobre mesmo, como dizemos por lá), trabalhou desde criança, conheceu meu pai no colegial, casou-se aos 18 anos, teve 3 filhos. Até aí tudo certo: padrão “interiorrrr”. No entanto, minha mãe quebrou tantos paradigmas que eu jamais conseguiria listar todos aqui.

O primeiro foi meu pai. Não sei detalhes aqui, até porque eu era muito pequena na época. Meu pai matuto lá da roça, aquela boa dose de machismo… sei que eles demoraram um bom tempo para alinhar as expectativas entre si.

Em algum momento, meus pais combinaram que não discordariam das decisões um do outro na frente dos filhos, exatamente para não tirar a autoridade um do outro. Ainda sobre a questão da autoridade, uma coisa bem clara para meus irmãos e para mim era que eles pagavam as contas, eles mandavam, fim de papo. Como o dinheiro era pouco, só gastávamos com as coisas essenciais.

Eles também não brigavam conosco por perto. Certa vez, quando eu tinha uns 7 anos, flagrei-os discutindo no carro. Não vou dizer que foi traumático, mas foi suficiente para eu pedir chorando para que eles jamais fizessem aquilo de novo (tento imaginar como fica a cabeça de crianças que são expostas a isso constantemente).

Minha mãe é uma pessoa religiosa, de uma religião protestante bastante tradicional (Congregação Cristã, popularmente “a igreja do véu”). Mesmo assim, minha mãe não nos obrigava a ir a igreja com ela, para que pudéssemos escolher nossa própria religião. Meus pais nos ensinaram com ações que empatia, amor, respeito por outras pessoas (e animais!), caráter depende só de você, nada tem a ver com religião. Por isso que sempre que alguém simplifica “…é porque não tem Deus no coração” tenho vontade de levar minha mãe lá para explicar.

Apesar dos afazeres domésticos serem “responsabilidade” da minha mãe, com a nova geração, as tarefas eram divididas por 3 (mesmo sendo dois meninos e uma menina). Por isso, meus irmãos não têm dificuldades para fazer nenhum trabalho quando é preciso, seja lavar, passar, cozinhar ou qualquer outra coisa. Disclaimer: nenhum de nós 3 gostamos, no entanto.

Claro que minha mãe foi chamada de louca várias vezes por amigos e parentes, e que meu pai não concordou com muita coisa a princípio. Ela continuou mesmo assim e aos poucos, meu pai entendeu o que estava acontecendo ali: uma mini-revolução. :)

Aí eu completei 14 anos e resolvi pedir meu pai para namorar. Sim, com muito medo de levar uma boa surra (ainda que meu pai nunca tivesse dado nem um tapinha de leve), ou de que ele ficasse “puto” e falasse que estava decepcionado comigo e que não queria mais que eu fosse filha dele (ah, a adolescência!). Para minha grande surpresa, a resposta do meu foi exatamente assim:

“Olha Mirella, eu acho que você está muito jovem para essas coisas. Mas essa decisão é sua. Só vou interferir se perceber que está atrapalhando seus estudos.”

Que fique claro: para os pais da região que eu morava em 2004 isso era um absurdo, dar permissão para uma moça de 14 anos namorar (claro que elas namoravam de qualquer jeito, por baixo dos panos… literalmente). Tinha sempre os murmurinhos sobre “a filha do Arcely que ficaria grávida logo logo”. Era mesmo cedo, mas eu tinha certeza da minha decisão e estudar para mim era um objetivo claro, era a minha chance de mudar de vida.

Para minha felicidade, minha mãe falou conosco sobre DST’s e métodos contraceptivos desde o começo da adolescência, e de uma forma assustadora o suficiente a garantir que nós 3 usaríamos camisinha COM CERTEZA (ainda que fosse “expressamente proibido fazer sexo antes dos 18 anos”).

O voto de confiança do meu pai fez com que eu quisesse mais ainda não decepcioná-lo. Olhando para trás, imagino quão difícil foi para ele aceitar isso, e tenho um orgulho do tamanho do universo. Por isso eu digo que sou “feminista de pai e de mãe”. ❤


Bom, tem mais um monte de pontos faltantes nesta lista. Só queria mesmo que vocês soubessem que a disruptiva mesmo é minha mãe, que garantiu que eu crescesse num ambiente com as condições para que eu pudesse querer, ser e fazer qualquer coisa, ainda que com consciência de que nada seria fácil nem de graça.

Parabéns, mãe.

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