24/08/2018

Alice sempre fora apaixonada pela cidade grande. Aquele movimento incessante, a pressa, o mar de edifícios cinzas, as imensas vidraças sempre a expor algo — ou esconder. A beleza e a tristeza que se escondem atrás de cada paletó preto, cada artista de rua, cada grafite colorido que destoa do universo monocromático que o cerca.

Num momento único de liberdade e independência, ela se viu solta no paraíso. Carregava consigo apenas uma certeza: dormiria na casa de um amigo. Como chegar lá? Não sabia. Mas sabia que, de alguma forma, chegaria.

Os primeiros minutos foram de uma agitação ansiosa e despreparada — apesar do seu amor pelo frenesi impaciente da metrópole, vivera a vida inteira no pacato interior do estado. Mas seu coração logo se aconchegou na efervescência da cidade e, juntos, pulsavam. Conectou-se à capital e, de uma forma especial, consigo mesma.

Seu relacionamento com a tecnologia permitiu que ela se apropriasse daquele novo mundo como se sempre tivesse sido seu. Andou por aquelas ruas como se os trajetos lhe fossem cotidianos, sentia tudo como se fosse apenas parte da sua rotina e, apesar dos desencontros, sentia que tinha se encontrado.

Tarde da noite, pensando encerrar seu expediente de felicidades, fora pra casa de seu amigo. Ele não estaria em casa e sequer sabia que horas chegaria, mas liberou sua entrada na portaria do condomínio e deixou o apartamento destrancado. A dicotomia entre medo e segurança parecia sorrir pra essa situação.

Entrou no apartamento e admirou-o por uns segundos, orientada apenas pela suave iluminação que entrava pelas grandes janelas que exibiam as luzes da cidade.

Ali, sozinha num apartamento desconhecido, cansada e com fome, ela viu no sofá sua única companhia e, mesmo com a luz já acesa, adormeceu ocupando apenas um assento, como se incomodasse os habitantes invisíveis que a observavam no seu constrangimento com aquela situação estranha.


— Boa noite!

Uma voz alta e animada a acordou. Ela reparou que estava numa posição incrivelmente desconfortável e, tentando lutar contra a luz para enxergar quem surgia, olhou pra cima. Ele tinha uma cerveja nas mãos, se apresentou mas ela não entendeu direito — seu cérebro ainda estava se adaptando à situação e não entendeu várias coisas que ele disse. Foi levantando e acompanhando-o enquanto ele dizia coisas sobre um colchão pra visitas e roupa de cama.

— Acho que o Café está saindo com alguém mas você pode dormir no meu quarto.

Café era o apelido do seu amigo e ela achou esse comentário muito invasivo, de diversas maneiras. Mas a espontaneidade com que ele fora feito, aquela suave alegria e animação no tom de voz daquele novo ser que havia surgido, contribuíram para que ela relaxasse.

Ele era muito ativo, simpático, prestativo e amigável. Observava aquele ser humano com atenção e interesse, aquela existência aguçava sua curiosidade. Falava com ela como se fosse normal uma completa desconhecida estar sozinha na sua casa, se aproveitando da madrugada para dormir no sofá com as luzes acesas.

— Vamos assistir alguma coisa. Você vê alguma série?

— Better Call Saul, conhece?

— Em qual episódio você parou?

— Não lembro direito, mas estou na segunda temporada.

Ele apagou as luzes, abriu o Netflix no seu celular, procurou a série e começou a ler o título e a sinopse de cada episódio até ela identificar em qual parou. Com a ajuda do Chromecast puderam assistir a série juntos, cada um em um sofá.

Alice se esquecera completamente do seu cansaço e do seu sono depois que sua atenção fora completamente roubada por aquela pessoa intrigante que, apesar de nunca ter assistido um episódio sequer, assistia série com ela. Tinha vontade de observá-lo na tentativa de encontrar um significado para aquela situação, mas se limitava a olhar para a televisão se esforçando para não ficar encarando o desconhecido dono da casa no escuro.

Conversaram sobre seus gatos. Ele comentou que algo na maneira de falar dela era diferente mas ela achou ser culpa do sono que, apesar de esquecido, ainda existia.

Ele acendeu um cigarro e se levantou para abrir a janela. Alice observava cada movimento dele, quase hipnotizada. Ele disse que logo iria dormir.

Não conseguia prestar atenção na série, mesmo enquanto olhava para a televisão. Tinha vontade de se aproximar daquela pessoa tão curiosa, checar se aquilo era real.

Ele foi pegar água pra ela. Ela o seguiu até a cozinha. Ele começou a guardar a louça seca, como se tivesse ido até lá exatamente para isso. Ela ficou observando o ambiente, a disposição dos móveis, os temperos na prateleira, o pacote de castanha de caju em cima da geladeira. Em algum momento ele falou sobre leite de amendoim e mostrou a garrafa na geladeira, dizendo que ele tinha preparado naquele dia mesmo. Ela se questionou se ele era vegano mas não verbalizou a dúvida.

Ao voltarem pra sala ela sentou no mesmo sofá que ele, motivada pelo frio e pela crescente vontade de proximidade com aquela pessoa peculiar.

Começaram a conversar intensamente. O primeiro episódio da série se encerrou, avisando-os de que já estavam ali há uma hora. O segundo começou e fora completamente ignorado.

Em um momento qualquer ele chamou ela de Rafa. Ela achou graça daquilo, sempre erraram seu nome mas nunca de maneira tão absurda. Riram. Ela percebeu que não sabia o nome dele.

— Qual seu nome?

— Gabriel.

Ele respondeu rápido, um tanto quanto ansioso. Olhava nos olhos dela de um jeito intrigante, parecia assustado mas com um ar inocentemente curioso.

Ela comentou sobre o restaurante vegano que visitara naquele dia, encantada com as inúmeras possibilidades, com as pessoas no local, com as delícias que comeu. Ele, maravilhado com a felicidade dela, ponderou sobre como não apreciava detalhes simples do seu dia-a-dia.

— Eu devia me encantar mais com a minha vida. Vivo coisas tão incríveis que outras pessoas não têm e não valorizo isso.

Aquela reflexão tão sincera parecia doer nele.

— Quando é seu aniversário?

— Você quer saber meu signo?

Alice foi pega de surpresa. Ninguém nunca percebera suas intenções com essa pergunta tão desconexa — não tão rápido pelo menos.

Ele queria provar que astrologia é balela. Ela se preparava para as mesmas bobagens que sempre ouve. Eis que recebe uma proposta:

— Me prova que Astrologia é real ou me deve um beijo.

Alice travou por alguns instantes. Por mais que se sentisse extremamente atraída por aquela pessoa que mal sabia o nome, tinha paranoias demais para se entregar a uma situação dessas. Ela raramente beijava alguém, aquele beijo de verdade onde línguas interagem — a última vez que fez isso foi há uns anos atrás, talvez?

Ela parou para observar a situação. Eles estavam muito próximos um do outro, foram se aproximando naturalmente enquanto conversavam. Um ar de intimidade e familiaridade dominava o ambiente. O apartamento desconhecido se transformara num lugar cotidiano, o estranho se transformara num velho amigo.

— Me prova que Astrologia não é real que eu te dou um beijo.

Foi sua maneira de se esquivar já que é isso que ela faz nessas situações: se esquiva.

Ele começou a confabular com uma retórica quase impecável sobre a aleatoriedade das nossas existências, mostrando como somos frutos das construções sociais, culturais e históricas mais randômicas possíveis. Completou seu raciocínio questionando como a posição de determinados astros, e não todos, no momento do nosso nascimento, e não em outro como o da união dos gametas, é mais determinante do que todas as nossas vivências enquanto seres sociais e políticos, influenciados constantemente pelo contexto sócio-histórico em que nós e nossa família estão/foram inseridos.

Alice, apesar de ter coisas em mente para apontar, não conseguia construir muitas frases. Ouvira atentamente cada detalhe das ideias dele e, extasiada, refletia sobre.

— O tecido dessa sua calça é muito gostoso. Você já tocou num anfíbio?

— Não.

— É muito parecido.

Ele dizia isso alisando freneticamente o joelho dela. Alice observava aquele olhar quase infantil de tão inocente e amigável, pensava se aquilo era alguma artimanha masculina ou apenas uma pessoa simples.

Brincou com a testa dela, passava os dedos delicadamente falando sobre como é uma região tão sensível mas tão ignorada.

Aquariano com ascendente em Gêmeos, Lua em Câncer, Mercúrio e Vênus em Aquário, Marte em Touro.


Se beijaram.

Muitas coisas passavam na cabeça dela pra justificar essa transgressão com suas próprias paranoias mas nada servia.

Alice sempre fora muito crítica com tudo que envolve a sensualidade e a vivência da sexualidade, não se contentava com qualquer coisa, com pessoas desastradas, com movimentos indelicados ou desajeitados, com excesso de agressividade ou de passividade.

Mas ele a surpreendia cada vez mais a cada instante. Delicado sem ser passivo, mãos firmes sem brutalidade, tomava atitudes sem ser invasivo. Ela parecia reparar em cada movimento daquele ser, apreciando a harmonia com que se encaixavam.

— Vamos para o meu quarto?

Mais um momento em que ela confronta suas paranoias: não conseguia se entregar a ninguém se não tivesse acabado de tomar banho, há anos que essa era a realidade da sua vida — sempre admirava as transas espontâneas, imaginando quão libertador devia ser.

— Vamos.

O quarto era apenas um armário embutido, um colchão de casal em cima de pallets e uma escrivaninha com poucas coisas em cima. Um ar minimalista que ela muito apreciava.

Ele acendeu duas velas que estavam encaixadas no bocal de garrafas de licor em cima da escrivaninha. Ficaram de pé no colchão e, como num golpe suave, ele a deitou.

Aqueles momentos pareciam complementar o paraíso que ela visitara durante o dia. A sensualidade do ambiente e daquele ser eram inebriantes: ele a tratava com extremo respeito sem deixar de ser firme — até a maneira dele segurar o cabelo dela era incrivelmente perfeita.

Alice conhecera um número considerável de homens em sua vida, mas nunca encontrara todos as características que mais valoriza em um. Agressivo demais, delicado demais, egoísta demais, orgulhoso demais, desajeitado demais, preocupado demais, apressado demais, irresponsável demais: sempre havia algo que não permitia que ela transcendesse enquanto se entregava.

Ele apreciava cada centímetro do corpo dela, se doava de uma maneira carinhosamente única.

Deitados lado a lado, nus, ele sorria. Um sorriso delicado e espontâneo. Passava sutilmente a ponta dos dedos nas costas dela. Disse que não imaginava que aquilo aconteceria.

Conversavam sobre si mesmos, ele disse sentir uma grande intimidade com ela e que estava feliz. Ela apreciava extasiada o quão recíproca era aquela sensação.

Aquele sorriso suave não saía do rosto dele, mesmo quando fechava os olhos. Ela tentava entender o que isso significava.

O silêncio não era constrangedor.

Adormeceram abraçados.


O despertador tocou e ela precisava ir. Ele demorou uns minutos para acordar.

Levantaram-se.

Ele acompanhou ela até o elevador.

Abraçaram-se demoradamente.

Ela entrou no elevador, ele entrou no apartamento.

A cidade grande a conquistou um pouco mais.

Marte em Touro.