Porquê permanecemos monogâmicos

e como cultivar relações genuínas

Miriam Algarra
Jul 20, 2017 · 4 min read

Cinco pequenas reflexões para examinarmos nossas relações.

#1 — Nós objetificamos pessoas

Nosso mundo oferece absolutamente tudo a quase qualquer pessoa, em quase todo lugar. Consumir se tornou tão natural quanto respirar.

Temos fácil acesso a conteúdo, comida, experiência, paisagens e produtos de tal maneira que o tempo que levamos para atender aos nossos desejos e necessidades é muito curto. Bastam alguns segundos pra se ter o que se quer nas mãos.

Essa facilidade transformou nosso modo de se relacionar com nossos próprios desejos e necessidades, diminuindo drasticamente nossa tolerância em relação a eles serem ou não atendidos. Com pouca consciência desse processo, queremos tudo pra ontem. Um texto de 3 parágrafos no Facebook é um "textão". Um vídeo de 5 minutos no Youtube é considerado longo.

Essa relação de consumo desenfreado ultrapassa os limites do inanimado e se reproduz em nossas relações humanas com muita facilidade.

Esperamos que o outro atenda nossas necessidades, de atenção, conforto, carinho, contato físico, prazer, descontração, profundidade.

E queremos pra ontem. É assim, pela lente de nossas próprias necessidades que julgamos o outro.

Você é frio ou carente, chato ou intenso, ignorante ou prepotente, lento ou precipitado exatamente na medida em que a necessidade de quem te observa permite.

Ou seja, se seu parceiro quer mais atenção ele te chama de ausente. Se quer mais carinho, de frio. Se quer mais espaço e autonomia, de carente. Se quer que você tome alguma iniciativa, de lento.

Isso não serve somente para relações amorosas. Reproduzimos esses modelos entre família, amigos e desconhecidos. Pegamos o que nos serve e negamos o que não nos convém através de julgamentos.

O que isso tem a ver com monogamia?

#2 — Nós esperamos tudo de uma só pessoa

Para alguns papéis específicos como os de mãe e pai, ou o de parceiro de vida ,— este costuma ser bastante claro — essa exigência se torna plena. Esperamos, para que permaneçam em nossas vida, que cada um deles atenda à todas as nossas necessidades.

Um parceiro deve dar carinho e atenção na medida certa e também deve nos manter entretidos. É extremamente necessário que nos proporcione momentos de descontração, mas também de profundidade e reflexão. É preciso que nos dê prazer, e que não nos cobre mais do que queremos ser cobrados.

E a lista continua.

Parece que aí jaz a ruína da maioria dos relacionamentos monogâmicos:

Faltava algo. Aquela única pessoa não foi capaz de te proporcionar tudo.

Vivemos em uma sociedade tão convictamente monogâmica que não é só a relação puramente sexual que se torna limitada à uma só pessoa, mas praticamente qualquer relação.

Entre namorados ou amigos, procurar conforto, diversão ou confidência em outra pessoa é considerado um tipo de traição. Aprendemos que devemos concentrar todas as nossas demandas em uma só pessoa de acordo com o papel que ela tem. Nossos pais, nossos parceiros e nossos amigos trazem juntamente com seus rótulos uma lista de tarefas a cumprir.

#3 — Onde só há espaço de exigência, não há amor

Quem se relaciona com o outro a partir da exigência de que sejam cumpridas as próprias necessidades não abre espaço para que o outro possa emergir.

Não há espaço para os conflitos, as dores, os desejos, os amores do outro. Só há espaço para o que ele não é. Não é carinhoso o suficiente, independente suficiente, feliz o suficiente, ativo o suficiente, bonito o suficiente.

Onde só há exigência, não há espaço para a autenticidade do outro. Não há espaço para conhecermos quem o outro realmente é.

Como podemos amar alguém que não conhecemos?

#4 — Você se relaciona somente com você mesmo

Nessa espaço de exigência no qual o outro não pode emergir enquanto legítimo outro, só há você.

Só há espaço para suas próprias necessidades, desejos e conflitos.

É a monogamia levada ao extremo enquanto nos relacionamos com uma só pessoa: nós mesmos.

Mas quem é esse "eu" que emerge nessa relação? Há espaço de reflexão nesta relação pautada pelo consumo?

Pela velocidade com que as coisas ocorrem, não estamos acostumados a refletir sobre o que realmente queremos, sentimos ou somos.

O resultado é que acabamos nos relacionando com as partes mais superficiais de nós mesmos, mesmo porque também estamos empenhados em atender às expectativas de alguém.

Estamos incumbidos na tarefa de sermos bons filhos, bons amantes, bons alunos, bons cidadãos. Estamos nós mesmos imersos em um grande espaço de exigência e de negação de si próprio, um grande espaço de "dever ser".

#5 — Não temos espaço de aceitação de nós mesmos

Sem espaço de aceitação, seguimos nos relacionando com versões frustradas de nós mesmos que sentem a rejeição que vem da nossa incapacidade de atender às expectativas de todos à nossa volta.

Se livrar dessa solidão significa cultivar relações de amor em que o outro possa surgir como realmente é, e que ambos estejam livres de atender às necessidades um do outro para poder florescer enquanto pessoas diversas e autênticas.

Fomos levados a crer que encontraremos um príncipe encantado que nos fornecerá tudo que precisarmos, mas não nos contam que podemos ter relações diversas que nos proporcionam experiências e sensações distintas, sem que isso seja uma ofensa ao seu parceiro ou uma traição.

Ao contrário, é libertador para todos os envolvidos que possamos florescer como quem realmente somos e nos conhecermos profundamente em espaços de respeito e aceitação mútua.

Continuamos monogâmicos, portanto, enquanto nos relacionamos com nossas próprias necessidades e não abrimos espaço para que surja qualquer outro que não seja um reflexo de nossos desejos mais vãos.

E enquanto continuarmos imersos nesta monogamia, estaremos sozinhos e frustrados: distantes do outro e distantes de nós mesmos.

)
Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade