Especial

Autismo no Ensino Superior


Por Luiza Kons e Miriam Amorim

Desde muito novo A. decidira que gostaria de cursar história.
No geral, era muito mais interessado por essa matéria e chegava a ter uma fixação que soava obsessiva. Ao prestar o vestibular, passou em primeiro lugar e teve pontuação suficiente para cursar qualquer outra graduação da Universidade Estadual que escolhera. A. é diagnosticado com Síndrome de Asperger ou autismo leve (de acordo com a denominação do DSM V), e teve de passar por uma série de desafios até chegar ao ambiente acadêmico.

Quando A. tinha seus quatro ou cinco anos, já não se saciava mais apenas com as histórias infantis feitas pela mãe.

-O que você escreveu no livro filho?
-É que eu não tinha gostado muito da história, aí fiz algumas interferências.

A partir daquele momento a mãe teve o estalo: existia alguma coisa diferente com o filho. Apesar de o ter ensinado a formular algumas sílabas, era surpreendente que tenha aprendido a escrever e pensar sozinho em frases complexas para sua idade. Para a sorte de A., a mãe trabalhava com educação e seu diagnóstico veio cedo: ele fazia parte dos 10% de autistas superdotados. Mesmo assim, na fase de alfabetização escolar, era colocado de castigo pela professora por não querer prestar atenção no método silábico da aula.

Autistas podem se destacar em diferentes áreas de conhecimento

Outro problema enfrentado por A. na escola, era seguir rigidamente as regras nos jogos da aula de Educação Física e ficar irritado com os outros colegas que não conseguiam fazer o mesmo, acabando por ser nomeado pela professora como juiz das partidas. Apitar os jogos acabava por camuflar as dificuldades motoras de A. comuns no espectro autista: com 10 meses caiu e quebrou os dentes de leite, e com 10 anos tropeçou e quebrou vários dentes que precisaram ser reconstruídos.

Os autistas podem passar horas contemplando objetos

Os desafios se tornaram maiores no Ensino Superior, em que os métodos avaliativos e a rotina são mais sujeitas a variação. Por levar um tempo maior que os outros colegas para realizar os trabalhos acadêmicos, A. ficava bastante desgastado. Ele também não conseguia dormir, e por isso, precisou tomar um ansiolítico para dar sequência na agenda que tinha as páginas dobradas a cada tarefa cumprida. Depois de formado, A. ainda fez mestrado em história e recentemente tornou-se professor na rede Estadual de Ensino do Paraná.

Apesar da história de superação A. é uma exceção: cerca de 70% dos autistas possuem retardo mental dificultando o acesso ao ensino superior.

“A inclusão do deficiente no ensino superior com retardo mental não é obrigatória” explica Ivonete Arienti, Pedagoga Educacional Especialista em Ed. Especial de Superdotados.

“Geralmente são os autistas de grau leve que chegam a Universidade”
- Marcos
Eduardo Rocha Lima, professor de psicologia da UFSC -

De acordo com o professor “ o autista vê micromundos” que em casos mais severos pode ficar durante horas olhando os objetos e fluxos de água de maneira quase microscópica sendo extremamente sensível a interferências de ruídos e movimentações do meio.

“O autista vê micromundos”

É necessário que as universidades acolham essas diferenças e sejam mais condescendente com comportamentos específicos do espectro.

A diferença também precisa ser acolhida e instigada por quem, a autista considerada a mais bem sucedida do mundo, Temple Grandin chama de “bons mentores”, pessoas que inspirem o portador do espectro a desenvolver suas habilidades mostrando-o a relevância dos estudos para que isso ocorra.

“Não se trata de curar o autismo, mas sim de aprender a respeitar as diferenças” Marcos Eduardo Lima, professor de psicologia da UFSC

Entrada e permanência no Ensino Superior

Em 2014 aproximadamente 6 mil alunos foram aprovados no vestibular da Universidade Federal de Santa Catarina, e desses apenas um declarou-se portador do espectro autista. Os candidatos que possuem algum tipo de deficiência ou necessidade especial podem solicitar a aplicação diferenciada do teste, conforme suas características. No geral, os vestibulandos da UFSC, com laudo de espectro autista solicitam apenas uma sala separada, de acordo com dados do Núcleo de Acessibilidade Educacional.

“O candidato, com deficiência ou não, que necessitar de condições especiais para a realização das provas deverá solicitá-las no Requerimento de Inscrição e comprovar a necessidade de tais condições através de laudo médico” Edital do Vestibular UFSC 2014

Diferente de concursos públicos, o programa de ações afirmativas da Universidade e da Lei 12.711/2012 instituída pelo Governo Federal não prevê vagas específicas para alunos com deficiências, por isso autistas e portadores de outras deficiências concorrem as mesmas vagas ofertadas aos demais vestibulandos.

Desde 2013, o Núcleo de Acessibilidade Educacional vinculado a
Pró-Reitoria de Graduação oferece acompanhamento pedagógico e psicológico aos estudantes com necessidades especiais.

Em cada curso são realizadas adaptações específicas, de acordo com a necessidade do estudante

Atualmente são acompanhados cinco autistas pelo programa, que cursam diferentes áreas do conhecimento. As decepções, os medos, os trabalhos e as conquistas existem em todos os cursos. “Não é porque o aluno tem algum grau de autismo que ele vai ser um herói ou não vai se destacar. Ele é um estudante” comenta Vivian Ferreira Dias, Fonoaudióloga do Núcleo de Acessibilidade Educacional.

A intenção do acompanhamento é proporcionar igualdade. O aluno autista por vezes necessita apenas de alguém que lhe apresente os espaços da universidade, enquanto que um aluno com deficiência visual pode precisar de um leitor. As mediações do programa ocorrem com os coordenadores e professores dos cursos, que devem procurar formas diferenciadas de explicação e realização das disciplinas. Além disso, o estudante recebe orientações pessoalmente a cada início de semestre.

O Decreto Federal nº7.611 delega como função do Estado a garantia de um sistema educacional inclusivo e igualitário em todos os níveis, prevendo a modificação e adaptação de espaços e metodologias de ensino.

Desde 2013, o Núcleo de Acessibilidade da UFSC participa do Projeto de Pesquisa Acessibilidade em Rede (da Capes) que vem realizando o mapeamento nacional em universidades federais de questões como acesso e permanência de estudantes com deficiência. O projeto prevê a discussão das atuais condições de ensino e políticas públicas brasileiras.

No primeiro semestre de 2013 foram enviados e-mails aos alunos da UFSC que declaravam possuir algum tipo de deficiência. Dos 431 alunos contatados apenas 43 responderam, porém há confirmação de 114 alunos com deficiência.

Estima-se que existam muitos outros casos que podem não ter se identificado por algum tipo de tabu ou até mesmo por desconhecimento de distúrbios como o autismo.

Autistas inspiradores

Temple Grandin: A autista norte-americana mais famosa, citada como uma das pessoas mais influentes do mundo pela revista Time em 2013, é PH.D em Zootecnia. Seus estudos revolucionaram o tratamento de animais vivos em fazendas e abatedouros. Sua história é contada no filme “Temple Grandin” de 2009.

Nataly Pessoa: Acadêmica do curso de Direito do Centro Universitário do Rio Grande do Norte (UNI-RN), possui autismo leve e é defensora dos direitos do autista. No blog Espaço Autista, Nataly divulga suas experiências e informações sobre o tema.

Albert Einstein e Issac Newton: Dois do mais famosos cientistas do mundo foram considerados autistas por seus comportamentos peculiares e genialidade que deram origem a Teoria da Relatividade e o Princípio de Gravitação do Universo. Além de ações repetitivas, ambos buscavam momentos de solidão.



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