O Valor do Tempo

Quando a complexidade da vida adulta me cansa, paro o meu mundo, só para lembrar de quando eu era criança. E quando lembro de como era ser criança, eu vejo uma menina adulta que cresceu com o tempo, mas que ainda cultiva alguns valores de uma criança.
Quando eu era criança, e me deparava com algo que eu não sabia lidar, eu simplesmente inventava uma ilusão para sentir menos a dor, e ir me acostumando com ela, até ser madura o suficiente e enfrentar, o que eu não sabia lidar. Como quando, me disseram que meu pai tinha ido morar no céu e nunca mais ia voltar, na minha cabeça ele não tinha ido. E durante muito tempo, acreditei na ilusão de que meu pai ele não tinha ido não. E a minha mente inocente vivia das minhas histórias inventadas. Ele saia todos os dias bem cedo para trabalhar, passava na minha cama antes de sair só pra me dar um beijo, e chegava muito tarde, quando eu já tinha dormido. Ele entrava, e saia todos os dias da minha casa, o problema era a nossa falta de sorte!, eu sempre estava dormindo, de manhã quando ele saia e de noite quando ele chegava. Dorminhoca eu né?!
E foi assim até eu crescer, e entender que na vida todos os dias alguns nascem e outros se vão. Mesmo sendo difícil abrir mão do que amamos, a vida tem dessas coisas.
Cedo eu já arrumava a casa, _passava pano igual minha cara_, e estudava para passar nas provas do colégio. Aos 15 anos a vida de responsabilidades começou pra valer, o trabalho foi se chegando no meu corpo, e o número de provas foi aumentando também, com o passar do tempo. Já não eram só provas teóricas, ou de como se passa um pano com água e ajax de flores no chão. O mundo de quem é adulto nos põe a prova o tempo todo, e a mente já não aceita qualquer ilusão. Os problemas precisam ser enfrentados de imediato, e as vezes falta tempo para o momento do beijo.
Hoje eu tenho um mundo de coisas para conquistar, mas antes já tenho na bagagem um mundo que conquistei. Quando era criança minhas orelhas ainda não tinham rasgos dos brincos pesados, joanete e tendinite não me pertenciam. Eu acreditava na evolução de um mundo melhor.
…Já hoje, o tempo fez de mim, alguém mais forte, que consegue se defender das crueldades com coragem e teimosia. Já não tenho mais aquela inocência de quem acreditava em tudo por tempo indeterminado. Ainda acredito em um bocado de coisas, mas com prazo limitado.
A vida é feita de divisores de águas, de fases que passam, e níveis que alcançamos. Eu continuo acreditando na evolução de um mundo melhor, porque se eu não tiver esperança, eu morro. O “quando casar passa”, já não faz mais efeito, mas o colo de mãe faz sim. O tempo tem muito valor, agrega valor, e tem dias que tudo que preciso, é só de alguns minutos das lembranças da criança que eu fui, para tentar ser melhor na pessoa que o tempo me tornou.
O tempo nunca é perdido. Em todo tempo tem muito valor, agrega valor. Ser um pouco criança é ter riso sincero e gostoso de ouvir, onde melhor do que ter independência, que é ser dono do próprio nariz, boca, coração, e escolhas. Tem dias que eu só queria ser criança outra vez. Tenho saudades de quando a minha mãe escolhia a roupa, o reboco do rosto era secundário e eu recebia da vida mais sim do que não.
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