QUEM MEDITA!

por Mirna Grzich
 
 — A meditação de Gilberto Gil
 
 Há um tempo atrás, numa conversa gostosa e profunda, rindo às gargalhadas, Gilberto Gil abriu as portas de sua casa para mim ao anoitecer no Rio de Janeiro, em São Conrado, para falar de meditação, relaxamento, morte.
 
Mirna — Gil, o que é meditação?
 Gil — Acho que meditação é estar relaxado, descontraído. Um estado de presença, uma liberdade. 
 Essa iluminação. O passar do tempo, cronológico, desaparece, deixa de ter importância, o espaço também — onde estou, como estou, como me sinto, se estou magro, se estou gordo, se estou fraco, se estou feliz. Essas coisas todas são afastadas, e o que se encontra ali é a totalidade, no sentido mais profundo. 
 Quando uma pessoa diz: “Estava há muitos anos buscando, e de repente, tóin…” Esse tóin, esse acontecer, essa iluminação, fico pensando — é porque houve uma procura todos esse anos, é uma conquista, ou veio como uma graça, como um acaso? 
 
 Mirna- Como você falaria do teu processo? Na sua vida, você foi atingindo a excelência, falando em termos de trabalho, criação, e cada vez mais dissolvido, falando em termos de ego…
 Gil- Meu ego ainda ocupa muito espaço…consegue uma imantação muito grande, atrai, consegue trazer para a sua órbita todo esse mundo na periferia do ser em mim…às vezes eu acho que só a morte descerra esse véu, que talvez todos esses estágios anteriores de aproximação com a divindade, esses avanços e esses recuos, somente sejam definidos na hora da morte…Enquanto estamos viventes, enquanto temos que agir no mundo, temos que nos dedicar ao corpo e ao intelecto, viver neste mundo, viver nessa dualidade…
 
 Mirna — Mas você não tem medo da morte, não é?
 Gil- Imagino que esse último alento, esse último suspiro, será para dentro de alguma coisa, para dentro do fundo azul…A onda seria a vida, a morte seria o oceano. 
 
 Mirna — Você acredita em reencarnação?Essa coisa de uma essência do Gil que continua…que volta e reencarna?
 Gil — Desconfio que isso aí é um artifício do ego, eu não quero precisar da reencarnação. Quando eu penso nesses homens fantásticos, nesses Einsteins, Newtons, Heisenbergs, Bohrs, todos esses grandes cientistas que foram para dentro da ínfima partícula da matéria, ou para a última fronteira do espaço, esses homens que lidam com prótons e galáxias, que nos dão a idéia de que a matéria de que somos feitos — ossos, nervos, músculos, e a matéria psíquica, sutil, tudo isso vai desembocar nesse grande oceano do todo universal, quando reflito sobre isso, não vejo espaço para a reencarnação…Penso mais como na canção “Se eu quiser falar com Deus” — uma estrada que vai dar em nada, nada, nada, do que eu pensava encontrar…
 
 Mirna — Mas então, como você acha que é essa passagem?
 Gil — Tudo que você acumula de sentimento, de julgamento, de discriminação entre o bem e o mal, se não for para no último instante aquilo te jogar para dentro da morte, com a sua vida inteira, dentro dela — se você não passar inteiro para dentro da morte, você só terá… morrido! (gargalhadas) As pessoas às vezes estranham, mas de uns 20 anos pra cá, as minhas conversas não dispensam essa coisa da morte, como o grande clímax. Por que deve ser mesmo, porque senão for, aí mesmo só uma reencarnaçãozinha, para que na próxima seja! (gargalhadas)
 
 Mirna — Você fala muito da palavra relaxamento. O que é relaxar?O que é meditar?
 Gil — Toda vez em que eu relaxo mesmo, toda vez que eu percebo que estou relaxado, percebo que estou presente. Toda vez em que eu percebo que estou presente, na hora em que deixo de estar presente, percebo que ali, quando estava presente, estava tudo completo. Vejo isso pelas coisas do meu corpo. Às vezes, num exercício que quero fazer, uma yoga, uma cabeça que quero encostar numa perna, uma elasticidade que quero alcançar, esse relaxamento acontece quando eu me dissolvo naquilo. Esse dissolver-se, para mim, é meditar.

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