Descentramentos do olhar: performance desde as dissidências

Miro Spinelli
Dec 17, 2017 · 10 min read

(texto publicado originalmente na versão online da Revista Cult, n. 226, agosto de 2017)

0.

Este texto é dividido em duas partes escritas, respectivamente, por Miro Spinelli¹ e Stéfano Belo². Escolhemos esta estrutura de modo a dar espaço para que as diferentes textualidades propostas por cada uma de nós encontrassem lugar. Cada uma delas, no entanto, se abasteceu de leituras da outra, criando uma complementariedade que, apesar de inconclusa, convoca o leitor a traçar suas próprias pontes, numa operação bastante similar às experiências performativas sobre as quais nos debruçamos.

1.

Em fevereiro deste ano estive em Cuiabá para o evento Políticas Culturais: Diversidades e Direitos, no SESC Arsenal, onde performei gordura trans #13 / gordura localizada #5³. Em um debate que aconteceu no dia seguinte à performance, uma mulher tomou a palavra e disse o seguinte, que cito de memória

Peço desculpas pela forma simples como vou falar, mas eu queria te parabenizar e dizer que fiquei muito impressionada com a performance. E não foi por você estar nu, pela forma como seu corpo é ou por você ter se coberto de óleo. O que me impressionou foi que você nos olhava nos olhos. Eu ficava me perguntando o que você estava pensando sobre nós quando nos olhava, e o que você sentia.

O programa⁴ de ação de Gordura Trans é muito simples: nu, me cubro com algum material gorduroso e experimento a corporalidade que o material, o espaço, o chão e, sobretudo, o outro incitam em mim. Há, no entanto, uma segunda ação, talvez mais importante que o programa em primeiro plano: a de olhar diretamente para as pessoas presentes, uma a uma, quando possível para todas elas, mais de uma vez. Deixo-me penetrar pelo o olhar do outro e, ao fazê-lo, divido com ele a responsabilidade pelo acontecimento performativo e pelo meu corpo, por como ele é percebido e pelos discursos em grande parte violentos que recaem sobre ele enquanto corpo gordo transmasculino.

Na ocasião desta ação, utilizei sete garrafas de óleo de soja e uma de óleo de babaçu⁵. O material, em contato com o linóleo do chão, criou uma superfície extremamente escorregadia, de modo que, ao me movimentar, quase caí muitas vezes. Uma outra mulher me abordou depois da performance para dizer que isso havia causado nela muita aflição e que o seu grande desejo era me segurar para que eu não caísse, ao que eu respondi “Mas eu não caí, você me segurou.” E era verdade, sem metáfora alguma. Ela me segurou porque um olhar de cuidado afeta o corpo, contribuindo na sua capacidade de transitar por terrenos escorregadios.

gordura trans #13 / gordura localizada #5, de Miro Spinelli. Foto: Latitude Filmes

O que fica evidente com estes diferentes retornos do público é a capacidade que tem a performance de criar arenas de responsabilidade ética⁶, onde a presença do corpo do performer é renegociada junto ao corpo do público. No caso desta ação — cujo programa destaca os atributos físicos do meu corpo, tidos como abjetos pela normalidade — é revelada a construção relacional e micropolítica deste estatuto de abjeção, isto é, os presentes se tornam responsáveis por sua própria percepção daquele corpo e, consequentemente, por como o corpo é afetado por tal percepção. Quando a primeira mulher ressalta a reciprocidade do olhar, ela sugere ter sido surpreendida pela necessidade de repensar como o olhar dela fazia com que eu me sentisse, chamando para si a responsabilidade do potencial afetivo da sua própria presença. Já o diálogo com a segunda mulher traz uma positivação desta responsabilidade compartilhada, que só é possível porque o corpo é “inacabado, ou ainda, inacabável, provisório, parcial, participante — está, incessantemente, não apenas se transformando, mas sendo gerado”⁷ por todos os presentes.

Esta geração constante e compartilhada do corpo no contexto da performance prescinde de uma vulnerabilidade própria ao estado performativo que pode ser acessada por diferentes mecanismos. No caso de artistas que carregam a marca da abjeção (seja por seu gênero, sexualidade, racialização, classe, porte, etc), tal vulnerabilidade ganha camadas sócio-políticas, pois seus corpos experienciam diariamente estados de vulnerabilidade e violência, fazendo com que o evento performativo se dê como uma intensificação das situações cotidianas que, ali, podem ser reinventadas.

Neste sentido, a ação performativa opera como desestabilizadora do corpo que performa e do meio onde atua, revelando os mecanismos normatizadores que insistem em se passar por naturais ou, para ser mais preciso, por produzirem aquilo que é entendido por natureza. Ela se configura como uma potente ferramenta política capaz não apenas de apontar como estes mecanismos funcionam, mas de efetivamente criar alternativas a eles.

Este me parece ser um dos principais motivos pelo qual tem crescido o número de artistas dissidentes de gênero e sexualidade interessadas na performance. A presença destas artistas na cena da arte contemporânea brasileira é crescente, fomentando discussões e ações que refletem a falência do binarismo de gênero, da heteronormatividade e a violência pela qual estes sistemas se sustentam. Considerando que a produção dos saberes hegemônicos se dá através de um “olhar que inscreve miticamente todos os corpos marcados” e “possibilita à categoria não marcada alegar ter o poder de ver sem ser vista, de representar, escapando à representação”⁸, estas artistas têm utilizado a performance como uma ferramenta de deslocamento deste campo de visão, produzindo situações onde corpos marcados olham de volta, transbordando, assim, a posição de objeto e criando outras perspectivas de olhar onde as hierarquias de subalternidade se balançam ao terem sua pretensa invisibilidade ferida.

2.

Começo pensando sobre como NÃO gostaria de escrever sobre performance: me desvio de qualquer tentativa de etnografar artistas, não quero tentar capturar em algumas linhas a sua essência, ou a de sua obra. Nessa escrita desejo falar sobre atravessamentos, sobre o que se fundiu e transubstanciou, do que se desmantelou, do desejo que desperta, do vírus que se instaura ao dividir espaço com os corpos desses artistas em performance. Falarei do corpo, ou melhor, da CORPA dissidente: da monstra negra que cola próteses com superbonder na cara; da putinha; da viada afeminada nerd; da translésbicha sapatânica pansexual e sua avalanche hormonal; da corpa gorda dx artista pobre, pululante e ensandecida de desejo; da corpa transexual — cartografia inegociável. Essas corpas, mesmo atravessadas por infinitas nuances de silenciamento todos os dias, gritam afetos durante o acontecimento performativo e transformam a realidade conservando a potência do vivo.

Que tipo de efeito vivo o mundo está produzindo em meu corpo vivo? […] Os efeitos do mundo como campo de forças em meu corpo, fazem com que o mundo como vivo seja uma presença viva em meu corpo, não é metáfora, é real, é uma presença viva, é um tipo de experiência que está no meu corpo, que faz parte da minha experiência subjetiva, mas não da experiência do ego e do sujeito, é a experiência de um fora do sujeito, é uma experiência que poderíamos dizer extrapessoal[…] Isso que já está aí pedindo passagem convoca o desejo para dar a isso uma forma que vai transformar a cartografia do presente.⁹

Durante essa escrita me interesso pelos descentramentos gerados pelo corpo subalternizado em estado desejante, ou seja, em estado de criação. Que ressonâncias na subjetividade são convocadas pelo corpo performativo?

Seja pelas ruas, praças e monumentos das cidades de um Brasil esbagaçado, num museu ou em ambientes de cabaré, loucura e depravação — as corpas destes artistas performam para não serem massacradas e insistentemente resistem e re-existem agindo ao revés de um inconsciente colonial capitalístico, que opera através de uma micropolítica reativa e direciona a subjetividade à normatividade e ao apagamento das existências e discursos dissidentes.

Nas linhas seguintes, três performances que propõem novas políticas de subjetivação a partir de uma perspectiva das dissidências sexuais e de gênero em prol de uma reativação dos saberes do corpo.

  • Em Estudos TransRitmia, durante uma festa na Casa Selvática, a performer transexual Leonarda Glück amordaçada em couro preto, deita na pista de dança e após um tempo executa o programa de ações a seguir: aplica em si mesma o conteúdo de uma ampola do hormônio Perlutan através de injeção intramuscular nos glúteos; lambuza de lubrificante íntimo um dildo que segura na altura da pélvis; deita de bruços em meio às pessoas, que já não dançam; lubrifica o ânus e penetra-o com o dildo e ao som da música que está sendo tocada na festa, performa uma dança com os músculos anais que faz com que o objeto entre e saia repetidas vezes de dentro de si; levanta-se; olha o público e sai da sala.
Estudos TransRitimia, de Leonarda Glück. Foto: Alessandra Haro
  • Ricardx Nolascx, ao dar continuidade à sua pesquisa em performance, numa das principais ruas boêmias do centro curitibano, invoca o espírito de Gilda — ícone travesti barbada da cidade, (espancada no carnaval e após algum tempo encontrada morta, na década de 80) e propõe a seu corpo gordo, barbado, travestido e bêbado, performar a principal tática de terrorismo usada no passado pela mitológica figura, um luxurioso e ousado pedido: “Um trocado ou um beijo?”. Ricardx apanha de um homofóbico na rua ao realizar a ação. Menos de três pessoas mobilizam-se para ajudá-lo.
Gilda, de Ricardo Nolasco. Foto: Marcelo Almeida
  • Com Francisco Mallmann em Eu não dou a outra face, sou um corpo bicha que fala muitas coisas. Fala e dança. Falo que a cisheteronormatividade e a arquitetura silenciadora das casas de família, vem segurando o meu rebolado desde criança e naturalizou a violência ao meu corpo infantil que ainda sabe que é vibrátil. A homofobia roubou minha infância e suprimiu o meu desejo de ser eu: “Segura essa bundinha se não vai apanhar, segura essa mãozinha se não vai apanhar, segura o sorrisinho se não vai apanhar, segura o rebolado se não vai apanhar, segura o pintinho se não vai apanhar, segura o cuzinho…” se não vou te matar e fazer com que sua morte esteja justificada e naturalizada. Agora estou realmente dentro e fora de uma salinha à la pépinière, coberta de jornais que, de uns tempos pra cá é cada vez mais comum anunciar a morte de bichas, sapatonas e pessoas trans*, principalmente negras e pobres. Os jornais que piso através do corpo do performer, são as provas inequívocas de um verdadeiro genocídio sexual que se materializa diante dos olhos do mundo. Estou lá e danço uma dança de afeminadinha de boate — ora, se até dentro de nossos guetos eles adentram com suas armas, nos arrombam e nos assassinam — eu estilhaçada pelo corpo de Mallmann numa dança marcada pelo tambor da necropolítica, escorro as lágrimas que finalmente dão movência à agressão por homofobia que sofri há mais ou menos um mês dessa escrita. Vingada, continuo dançando sem choro, com riso no canto da boca, pois sei que enquanto Mallmann dança, danço eu, a menina dança e somos uma multidão de dançantes que resistem a cada passo que dão em liberdade, somos muitas e somos fortes, não temos medo,“nós as compulsivas, gargalhada sonora, pele preta suburbana, macumbeiras futuristas vanguardistas, nós as indecorosas, famintas, vaidosas, máquina tupiniquim mortífera de amor… nós as espaçosas, cavando buraco, unhas pintadas, cachaça, camarim, monstro, alfinetadas, nós as selváticas, coração garganta, pulso: avenida aberta, província em chamas, rua descoberta. Nós não vamos sair daqui”¹⁰ , nem parar de dançar.
Eu não dou a outra face, de Francisco Mallmann. Foto: Lidia Ueta

¹ Performer e pesquisador. É mestrando no Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena da UFRJ e integrante do Água Viva Concentrado Artístico.

² Artista residente da Casa Selvática em Curitiba/PR e integrante do CuS — Grupo de Pesquisa em Cultura e Sexualidade da UFBA. Bacharel em Artes Cênicas pela Universidade Estadual do Paraná.

³ A performance integra o projeto performativo continuado e seriado Gordura Trans, que tem eixo central na performance e desdobramentos em diversas mídias. Até então foram realizadas dezessete peças, entre ações ao vivo, fotografias, texto e instalação. Neste percurso o projeto explorou a materialidade e a subjetividade do corpo gordo e suas intersecções com gênero através da pesquisa com diferentes materiais gordurosos e sua potência de transformação de presença da performer.

⁴ Utilizo-me aqui da noção de “programa performativo”, desenvolvida por Eleonora Fabião. “o programa é o enunciado da performance: um conjunto de ações previamente estipuladas, claramente articuladas e conceitualmente polidas”. Ver mais em FABIÃO, Eleonora. Programa Performativo: o corpo em experiência. Revista do LUME, n. 4, 2013.

⁵ Esta ação integra uma segunda contagem dentro da série maior Gordura Trans, as “gorduras localizadas”, onde a escolha do material é feita em diálogo com o contexto geopolítico local. Neste programa levei em consideração que o Mato Grosso é o maior produtor de soja do Brasil, e que o óleo de babaçu, segundo a vendedora do mercado público, é extraído artesanalmente por povos indígenas.

⁶ Ana Bernstein usa esta expressão para descrever a situação criada na performance Ritmo 0, de Marina Abramovic, onde a artista dispôs uma série de objetos para que o público usasse em seu corpo como bem entendesse. Ver BERNSTEIN, Ana. Marina Abramovic: do corpo do artista ao corpo do público. In: AZEVEDO, Carlito, SUSSEKIND, Flora e DIAS, Tania (Org.) Vozes Femininas: gêneros, mediações e práticas da escrita. Rio de Janeiro: 7 letras, 2001, p. 378–402.

⁷ Neste trecho, Eleonora Fabião discorre sobre a noção de corpo em Espinosa. FABIÃO. Performance e Teatro: poéticas e políticas da cena contemporânea. Sala Preta, Revista de Artes Cênicas, São Paulo, n. 8, 2008. p. 238

⁸ HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu (5) Campinas-SP, Núcleo de Estudos de Gênero-Pagu/Unicamp, 1995, p. 18.

⁹ Trecho da conferência “Micropolíticas del pensamiento sugerencias a quienes intentan burlar el inconsciente colonial”, proferida por Suely Rolnik dentro do encontro “Descolonizar el museo”, coordenado por Paul B. Preciado de 27 a 29 de novembro de 2014 no MACBA (Museu de Arte Contemporânea de Barcelona). Para ver a conferência na íntegra: https://www.youtube.com/watch?v=V73MNOob_BU (último acesso em 20/03/2017)

¹⁰ Trecho do “Nós, as arrombadas” de Francisco Mallmann, disponível em https://issuu.com/franciscomallmann/docs/n__s__as_arrombadas (último acesso em 23/04/2017).

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