As pequenas coisas da vida

Aos poucos, a gente vai aprendendo que o importante não é falar, mas sim ouvir. Mas ouvir de verdade, prestar atenção e sugar o máximo possível das palavras dos outros.

Ontem a tarde, um senhor, sentado ao meu lado no ônibus, me contou sobre como era a vida dele quando tinha a minha idade. Pelo que me disse, isso fazia mais de 50 anos. Eles não tinham luz elétrica, ele trabalhava na roça com o pai é o seu divertimento no final de cada dia era ficar sentado na rua tocando violão.

Pelo que entendi, ele nunca casou, e ficou cuidando dos pais até que ambos viessem a falecer. Seus irmãos haviam ido morar na “cidade grande” jovens e de início até iam ver os pais, mas quando a mãe ficou enferma, pararam de ir. A desculpa é que “não conseguiam ver ela sofrer”.

Logo, somente com mais de 40 anos foi que ele saiu do interior. Vendeu a chacrinha da família e foi morar na capital. Trabalhou em fruteiras, padarias e locais do estilo, pois conhecia muito bem de frutas, verduras e era quem acaba fazendo os alimentos em casa, logo, aprendeu a fazer pães, bolos e bolachas.

De acordo com ele, quando seu corpo se sentiu cansado demais para continuar trabalhando, parou. Tinha um dinheirinho guardado, a casinha na qual vivia era própria, e não precisava de nada além do que tinha pra viver.

Nesse momento, perguntei sobre os irmãos, e ele me contou que faz mais de 30 anos que não vê nenhum deles. Não foram nem ao enterro da mãe, nem do pai. Ele não conhece o paradeiro de nenhum, não sabe se estão vivos ou mortos.

Antes de eu falar qualquer outra coisa, ele viu que eu tinha junto a mim um livro, e mudando totalmente a conversa, perguntou se eu gostava de ler. Falei que sim, que é uma das minhas paixões, e então ele contou que nunca aprendeu a ler ou escrever. Que entende os números, mas que as letras são um enigma para ele. Então, na maior simplicidade e como se fosse a coisa mais comum do mundo, pediu que eu lesse um trecho do livro que tinha em mãos. Não tive como negar e li. Li em voz alta durante meia-hora mais ou menos, até chegarmos a rodoviária. Quando descemos, ele me agradeceu por ter lido pra ele, e como sou curiosa, acabei perguntando o que ele iria fazer com a casa que tem quando falecesse, já que visivelmente não tinha família. Ele contou então que, todo o mês, compra 20 livros do estilo daquele que eu li, e está colocando em prateleiras na casa. É que, quando falecer, doará para a cidade a casa com tudo o que há dentro, com a condição de que a mesma se torne uma biblioteca com uma lanchonete comunitária, onde as pessoas possam ficar lendo ou levarem para casa os livros emprestados. As condições que ele colocará é que todo o valor que for ganho na lanchonete seja revertido para a manutenção da casa e compra de mais livros novo e que o espaço não tenha o nome dele, mas sim de um senhor que ele sempre atendia quando trabalhava numa cafeteria no centro da capital: Mario Quintana.

)
Mirtô Beatriz Vilanova Gonçalves

Written by

Redatora, diagramadora é amante da leitura. Nem sempre o que escrevo é mentira, mas muitas vezes utilizo de floreios para deixar meu texto mais atrativo.