Beyoncé e a manifestação da negritude

Novo single da cantora celebra a beleza negra e demanda igualdade racial

A cantora Beyoncé divulgou no último sábado, 05, o videoclipe do single “Formation”. A música é a primeira faixa inédita liberada desde que ela encerrou a promoção do álbum “Beyoncé”, lançado de surpresa em 2014. Se no último trabalho, a texana flertou forte com o movimento feminista e usou os discursos da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie para educar os ouvintes, em “Formation”, Beyoncé retorna ainda mais política e revela preocupação com os debates sobre igualdade racial.

Assista o vídeo legendado aqui.

Assim como o último disco, a nova faixa chegou a internet sem grandes anúncios. No dia seguinte ao lançamento, uma performance ao vivo da canção aconteceu durante o intervalo da 50ª edição do Super Bowl, o maior evento esportivo e a maior audiência televisiva dos Estados Unidos. Ao lado de Bruno Mars e dos integrantes do Coldplay, Beyoncé levou uma multidão de dançarinas a campo e não perdeu o fôlego enquanto debochava daqueles que a acusam de fazer parte de uma sociedade secreta, “Vocês estão malucos com essa história de Iluminatti”.

No vídeo, Beyoncé aparece em cima de um carro de polícia que afunda lentamente na enchente — Divulgação

Formation” inicia com um questionamento, “O que houve em New Orleans?”. A pergunta faz referência ao descaso com a população negra do município do estado da Louisiana, nos Estados Unidos, durante o horror causado pela passagem do Furacão Katrina.

A tempestade tropical atingiu a região no dia 29 de agosto de 2005 com ventos que chegaram a mais de 280 quilômetros por hora. Os prejuízos materiais passaram a casa de dois bilhões de dólares e cerca de 1840 mortes diretas e indiretas foram registradas. Durante e após as evacuações, o mundo assistiu a uma verdadeira aula de racismo e higienização de classes.

A comunidade negra e pobre de New Orleans se viu impedida de retornar para casa porque não possuía dinheiro para reconstruir o que foi perdido durante a catástrofe. Os conselhos estabelecidos para a recuperação da infraestrutura local contavam majoritariamente com pessoas brancas, o que resultou no desaparecimento de diversos bairros pobres e na redução significativa da presença de pessoas negras na cidade.

Se antes do desastre os negros representavam 67% da população, agora, a etnia soma menos de 60% dos habitantes. A renda das famílias negras de New Orleans também é mais baixa que a de famílias brancas e a classe média e negra da cidade encolheu.

Essa é a primeira vez que Beyoncé ataca abertamente posturas racistas e preconceituosas. A cantora, acusada constantemente de embranquecimento, utiliza a voz e batidas intensas para mandar um recado: ela é negra, o marido dela, Jay-Z, é negro e, pasmem, a filha dela, Blue Ivy, é negra também. A constatação pode parecer óbvia, mas não é. A indústria do entretenimento ainda demonstra resistência em reconhecer e consagrar artistas negros.

Nenhum negro entre os 20 candidatos indicados nas categorias de atuação — G1

A divulgação das indicações ao Oscar 2016 reacendeu o debate sobre igualdade racial no cinema. A hashtag “Oscars So White” (Oscar Tão Branco) populou as redes sociais e denunciou a ausência de pessoas negras, pelo segundo ano consecutivo, entre os concorrentes aos prêmios de atuação. O BRIT Awards de 2016, a entrega anual de prêmios da música do Reino Unido, também recebeu duras críticas por não incluir artistas negros na maioria das indicações.

Beyoncé retoma em “Formation” o orgulho e o valor da beleza negra, principalmente das mulheres. Os cabelos crespos são a principais estrelas do vídeo. No verso “Gosto dos cabelos da minha filha como os das crianças afros”, a cantora responde diretamente aos mais de 5 mil preconceituosos que assinaram uma petição online exigindo que ela penteasse os cabelos de Blue Ivy, numa alusão ao sentimento de rejeição pelo cabelo negro em seu estado natural.

Negritude (em inglês, blackness) é sentimento de orgulho racial e conscientização do valor e da riqueza cultural dos negros. É nessa convicção que Beyoncé apoia seu novo trabalho e entoa, por exemplo, o amor que sente pelo formato do nariz de seu marido, que se assemelha as narinas dos integrantes do Jackson 5, grupo formado por Michael Jackson e família. A ostentação da beleza negra é vista ao longo de todo o vídeo que conta com uma infinidade de tons de pele e tipos de corpos.

Karol Conka: de Curitiba para o mundo — Daniel Caron

O rapper paulistano Criolo é mestre outro em reivindicar a estética negra como positiva e digna de respeito. Em “Sucrilhos”, ele rima, “Eu tenho orgulho da minha cor, do meu cabelo e do meu nariz. Sou assim e sou feliz”. A curitibana Karol Conka, destaque musical do Brasil nos últimos anos, é ainda mais enfática ao defender a causa. “A mulher negra, jovem, precisa desligar um pouco a televisão, de verdade, e deixar de assistir novela e viver essa vida, que nem é real, para procurar se entender”, declarou em entrevista para a Skol Music.

Formation” é a primeira declaração pública de Beyoncé e sua equipe criativa mencionando as tensões raciais nos Estados Unidos, mas essa não é a primeira demonstração de apoio aos movimentos que defendem a igualdade racial. Em 2015, ela é o marido, Jay-Z, pagaram secretamente a fiança de manifestantes envolvidos nos protestos das cidades estadunidenses de Baltimore e Ferguson. As manifestações foram uma resposta à violência policial contra a juventude negra do país.

No vídeo, um garoto rende policiais com passos de dança — Divulgação

Recentemente, a plataforma musical Tidal, comandada por Jay-Z e Beyoncé, anunciou a doação de 1,5 milhão de dólares para o movimento “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam) e outras instituições que lutam pelos direitos civis. Beyoncé, que preferia ficar de fora dos holofotes na luta por igualdade racial, decidiu vestir a camisa do movimento abertamente. Em uma das cenas do vídeo, um menino negro aparece dançando em frente a um pelotão de policiais brancos enquanto uma pichação no muro implora, “Parem de atirar na gente”.

No último álbum, a texana decidiu levar palavras de empoderamento feminino e sororidade para donas de casa que talvez nunca tivessem ouvido falar em feminismo. Em “Formation” ela opta por explorar uma temática cada vez mais urgente. Beyoncé está do lado das mulheres e da comunidade negra, quer você queira ou não, e ninguém pode lhe tirar a negritude.

Seja questionando a política racista que se instalou durante a reconstrução de New Orleans, retomando o orgulho da beleza de homens e mulheres de cor ou exigindo que a polícia cesse a violência contra jovens negros, Beyoncé não parece interessada em agradar aqueles que temem discutir o assunto.

Um dos maiores sonhos da cantora, compositora e ativista pelos direitos civis norte-americanos, Nina Simone, era que a comunidade negra se orgulhasse das raízes. Beyoncé também aspira apresentar esse contexto histórico para as novas gerações e a lição parece ter começado dentro de casa.