Você ajudou a apertar o gatilho

Maior tiroteio da história dos EUA também foi causado por pequenas violências praticadas todos os dias

Domingo, 12 de junho de 2016. Dia dos Namorados.

Em uma data onde se espera a celebração do amor, do carinho e do afeto somos perturbados com notícias que evidenciam a intolerância, o ódio e o desprezo pela vida humana.

Cerca 50 pessoas foram mortas e outras 53 ficaram feridas em um tiroteio que aconteceu nessa madrugada em Orlando, Flórida, nos Estados Unidos.

A magia de Orlando, com seus incontáveis parques temáticos e, o mais famosos deles, a Disney, deu lugar ao pânico e ao terror quando um homem decidiu entrar armado em uma boate da cidade.

Quem frequentava a casa noturna Pulse, que se denomina como “o bar gay mais quente de Orlando”, não esperava que ali dentro, irônica e tragicamente, mais de 50 pessoas morreriam vitimadas por armas de fogo.

Os disparos mataram gays, lésbicas, bissexuais e pessoas transgêneras. Mataram famílias, amigos, relacionamentos e sonhos. Mataram a mim e também mataram você.

O suspeito do atentado foi morto no local e o Estado Islâmico já reivindicou a autoria do ataque. Porém, os disparos efetuados dentro dessa boate, lugar que deveria ser sinônimo de alegria, comemoração e festa, também foram causados por outros motivos.

Para Obama, o ataque foi um ato de terror e ódio. Penso, contudo, que é preciso dar nome a esses sentimentos. O ataque foi causado por homofobia e xenofobia. Afinal, a escolha de uma boate voltada para o público LGBT em uma cidade famosa por acolher imigrantes latinos não foi por acaso.

Existe uma mensagem muito clara por trás desse tiroteio.

Peço desculpas caso pareça grosseiro, mas acredito que você, pessoa preconceituosa, também teve participação nesse ataque.

Você ajudou a apertar o gatilho quando fez pouco caso ao saber que o Brasil é um dos países que mais mata LGBTs no mundo.
Ajudou quando, naquele almoço de domingo, fez piada com o novo corte de cabelo do cunhado dizendo que ele estava com “cara de viadinho”.
Ajudou quando, na escola, tirou sarro daquele menino que se recusava a jogar bola e fazer o papel de machão como os outros.
Ajudou quando disse em alto e bom som que mulheres “se tornavam lésbicas” porque ainda não haviam sido “comidas” direito.
Ajudou quando avistou uma travesti na beira de uma estrada e concluiu que ela estava ali porque queria e porque gostava.
Ajudou quando comentou em uma notícia sobre violência contra gays, lésbicas, bissexuais e transexuais que essas pessoas deveriam mesmo morrer.
Ajudou quando você decidiu atingir um gay com uma lâmpada fluorescente.
Ajudou quando espancou um pai e um filho porque achou que eles eram um casal homossexual.
Ajudou quando juntou seus amigos para sequestrar e estuprar um jovem gay.
Ajudou quando utilizou seu poder como policial para espancar e matar uma mulher lésbica porque ela se parecia com um homem.
Ajudou quando perguntou para um casal homossexual quem era o homem e quem era a mulher da relação.
Ajudou quando jogou um rapaz homossexual de cima de um prédio.
Ajudou quando disse em uma rede de televisão que “aparelho excretor não reproduz”.
Ajudou quando disse que “filho gay é falta de porrada”.
Ajudou quando chamou a luta pela criminalização da violência contra pessoas LGBT de vitimismo.
Ajudou quando defendeu que o porte de armas deve ser facilitado no Brasil.

Você ajudou a apertar o gatilho quando, sem pesar palavras e atitudes, contribuiu para alimentar a intolerância e o discurso de ódio de uma sociedade que fecha os olhos para violências que acontecem todos os dias.

Palavras não são balas, mas podem ser mortais e o silêncio daqueles que não se colocam contra as injustiças também é fatal.

Há um ditado haitiano que diz “Tout moun se moun”, toda pessoa é uma pessoa. Aqui, em Orlando ou em qualquer lugar do mundo é preciso reconhecer que o outro é tão importante quanto eu e que sem ele, não existo.

Lembre-se: toda pessoa é uma pessoa.

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