Prólogo

Preparei um café e sentei-me ao parapeito da janela, até ali, aquele era o único lugar onde eu conseguia não pensar em nada, ou talvez pensar em tudo. Tomei um pequeno gole da xícara em minhas mãos e afaguei Luna, que já tinha encontrado meu colo e se aninhado no seu lugar favorito, entre minhas coxas. Aquele era o único lugar da casa onde ele não havia estado, não havia enchido de lembranças e daquele perfume forte de marca comum que ele sempre usava e que eu amava, por Dalí, como eu amava. Talvez eu nunca mais consiga usar aquela camisa do Deep Purple ou ouvir blues sem pensar na noite do jantar desastroso que terminou com batatas fritas e pizza na cama, talvez eu nunca mais abra aquele diário, ou termine aquela tela que começou inspirada em seus olhos. Parece que tudo está tóxico, intocável, despedaçado, e ele? Ele se foi, se perdeu na tradução, como costumava dizer. Coréia, Rússia, França, fora da órbita terrestre, dentro do peito, em todo lugar… Menos comigo. Só não comigo.

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