Sobre a educação superior, apesar de entender que nas federais a coisa é melhor que nas privadas, eu discordo do que você fala. Não é tão digno assim não. Sem dúvida, acho o salário digno. Você está certo. Mas as condições, como eu disse, não são uniformes. Acredito que você deva trabalhar em uma universidade federal grande, numa capital, e essa seja sua vivência. Quem trabalha num centro de excelência, numa grande universidade com nota 6–7 nos programas de pós, isso pode mesmo ser verdade. É o que já me disse, por exemplo, um colega que hoje é professor no dept. de Estatística da UFMG: as condições são boas. Se, no entanto, você estiver numa universidade no interior, que está brigando por nota na CAPES, por recurso, ou por poder internamente, meu amigo, a coisa não é tão bonita. A pressão começa a ser imensa. Você começa a não ser liberado de carga horária por dar aula na pós, acumulando muitas horas aulas (16? 20?), e claro, isso significa que o tempo disponível para preparar essa quantidade de aulas cai; você começa a ter cobrança desmedida por “produtividade”, que se resume a publicação, e da-lhe publicar o mesmo paper com sutis modificações, o que é altamente questionável do ponto de vista do valor científico — a discussão é bem grande sobre esse tema; e claro, a preocupação com sala de aula de graduação diminui bastante. Dos meus amigos, de diversas áreas (conheço gente da letras, comunicação, física e psicologia) que atualmente estão trabalhando como docentes no ensino federal, espalhados no eixo sul-sudeste, a realidade é essa. Com algumas particularidades a mais, como as que eu contei sobre a universidade que meu marido dá aulas (e cada um desses colegas enumera as deles). E eu nem falei das universidade no norte (essas, sei que existem outros problemas, mas tenho pouco contato. Conheço apenas um físico no interior do Tocantins).
Ah! e nas privadas, não é que o MEC faça vista grossa. Já acompanhei avaliações, e não acho que é bem isso. O MEC me parece cuidadoso, para ser sincera. É que o instrumento de avaliação ainda é falho, e as instituições conseguem maquiar alguns problemas quando as avaliações são feitas. Algumas maquiagens são de má-fé (por exemplo, constituir uma comissão NDE às pressas, quando o MEC vem, mas que nunca se reuniu). Outras, são estratégias que me parecem equivocadas. Por exemplo, erámos os professores obrigados a “treinar” alunos em resolver o ENADE. Nossas provas tinham que seguir o modelo dessa avaliação, erámos obrigados a fazer cursos e treinamentos semestralmente para elaborar esse tipo de avaliação, como se fossemos professores de cursinho ensinando a passar no vestibular. E não 6 meses antes do MEC vir (as avaliações são de 3 em 3 anos), mas durante o curso todo. Isso era muito chato, e para mim prejudicava demais o andamento do conteúdo e da relação com o aluno. E o acúmulo de empregos ao qual você se referiu na educação básica, costuma ser comum nas faculdades privadas. +20h em sala é o mínimo (o que significa ao menos umas 40h de trabalho, via de regra até mais), para você tirar em torno de 3mil. Mas já falei sobre, e nem acho que o salário, tão discrepante do sistema federal, seja a pior parte.
Enfim, não sei porque resolvi falar sobre isso. No fundo, vim pro medium exatamente para falar de outras coisas. Devo ter me sentido muito provocada pelo texto do Thiago Rabello mesmo :)