Ao meu Outro OutroEuDoPassado

Resposta à carta que escrevi a mim mesma no primeiro dia de 2017.

Ouvindo “The Magician”, por Andy Shauf.

Meu outro outro eu do futuro,
chovia no fim de 2016, não chovia? Chovia lá fora. Também chovia no seu rosto. Lembro perfeitamente do ódio e da confusão que rodeavam seu coração doído. Lembro do contraponto — os amores abraçados no banco de trás do carro. Lembro do medo de voltar pra casa, do ódio defensivo que você não achou que fosse capaz de sentir — mas sentiu –, e do medo que lhe provocava aquele ódio.
Não sinta tanto medo de odiar. Odeie. Odeie tanto que não lhe restará nada para odiar. Só não fuja do ódio. Não o mascare. Não tente enganá-lo. É a si mesma que você pensa, agora, que engana. Mas não engana.

Foi um comprimido que resolveu sua cabeça. Não por completo — jamais por completo –, mas de forma radical o suficiente para lhe abrir os olhos para dentro. Para conhecer uma personalidade da qual você não tinha a mínima consciência sobre. Para sentir-se livre para falar, expressar, gritar no meio de um ponto de ônibus lotado na saída da faculdade.
E se esse for o mais próximo de ti que você já se enxergou chegando? E se você amar essa divindade?
É assim que acontece. É assim que se mergulha no abismo.

As festas foram fantásticas enquanto duraram. Foram prova de amor, de lealdade. Foram produtoras da independência, de amizades fantásticas, de memórias surreais e da sensação de ser dona do mundo. Não foi real — mas o que é real, afinal?

Você saiu com louvor do caos universitário. Foi uma despedida extremamente graciosa, majestosa, individual. A sensação de observar o produto final, suspirar e dizer que tudo era seu… validou os quatro anos, ou mais. Foi esse produto, aliás, que lhe fez adentrar a fundo a maior paixão de sua vida até então — a própria paixão, ou o amor, como preferir. Você conversou com pessoas que jamais imaginaria existirem no âmago de indivíduos já conhecidos, mas não tão conhecidos assim. Foi extremamente belo. Foi gratificante observar o molde que você criou com suas próprias mãos, aquele que duvidaram que você conseguiria criar. Continue moldando o seu próprio mundo, ao invés de tentar moldar a si mesma para adequar-se ao mundo alheiro.

Houve o medo da perda de seu pai. O mais próximo que chegamos do sumiço eterno daquele que você mais ama no mundo. Você nunca mais disse que estava sozinha. Ele está sempre lá. Foi só aquele susto — talvez o maior susto de sua vida até então — que foi capaz de lhe fazer sentir na pele a solidão real. E ela não se aproxima da sensação de ser sozinho. Ela não chega nem perto.

Houve o término. Observando de fora, talvez ele tenha ocorrido contra a sua vontade. Vocês choraram em sua cama durante toda uma tarde, até as cabeças doerem e os olhos incharem. Vocês dormiram juntos, andaram juntos. Foi dessa dor — que você obviamente não desejava –, que veio a constatação. Não se aprende quase nada quando não chove. Talvez nem baste chover: precisa trovoar, ventar, arrancar algumas árvores pela raiz. Você só sente quando o chicote rasga a carne do cavalo. Ver a sombra do chicote se aproximando não provoca efeito. Não lhe faz correr. Não lhe mata e, portanto, não lhe faz nova.

Seria uma droga se você pudesse escolher o seu lugar. Porque você nunca estaria no mar agitado. E são essas ondas que lhe transformam. Você se auto sabota estendendo os braços sempre na direção daquilo que não pode alcançar. Não é porque você precisa. É porque você é um pouco caprichosa.

Estava quase amanhecendo quando você observou aquele grupo de pessoas bêbadas dançando no quintal. Você as amava. E você sabia que devia estar ali, e que não estaria se o pudesse ter evitado. Foi o conflito que lhe deu, como consequência, a glória. Talvez fosse o que você quisesse — mas não era o que você precisa. Confie no que ocorre. Você vai entender um dia. Mesmo que doa. Mesmo que dilacere seu coração. Mesmo que lhe mate. Você vai entender um dia. Mesmo que demore.

Teve a paixão, também. Foi puro, extremamente belo, no momento exato. Lembro sempre daquele quarto. Lembro das sobrancelhas que franziam enquanto o anjo citava Nietzsche. Lembro-me da paixão por Cobain, do corpo mais perfeito que já beijei — do topo da testa até os ossos salientes da bacia. Houve os cigarros, as drogas, o sentimento de segurança mais rápido que já lhe aconteceu. Ele lhe salvou, você o salvou. Vocês viram seus filmes favoritos juntos. Ele gostava dos tons amarelados de Lars von Trier. Sua mente era caótica. Você aprendeu a amá-la. Você sente sua falta.

E os amigos. Muitos deles. Talvez as pessoas mais bonitas que você já conheceu num período temporal razoavelmente curto. A lealdade traz recompensas particulares mais valiosas do que qualquer outra coisa. Eu não trocaria todas as riquezas do mundo pela entonação relaxada da voz de quem me fala calmamente de seus sentimentos. Não trocaria cristais pela sensação de estar no lugar onde deveria, ouvindo quem deveria. Não trocaria. Eu sou assim, também.

A tempestade passou.
Você sabia que passaria, não sabia?
É aqui que você deveria, deve, deverá estar. Tudo que ocorreu serviu para lhe trazer — mesmo que violentamente, contra sua vontade egoísta — para esse lugarzinho iluminado. Esse lugarzinho exato, divino. Esse lugarzinho seu, maior do que qualquer lugar ao qual você já pertenceu antes.
Você sempre soube que só havia beleza verdadeira no vermelho violento do sangue.

Agora, sinta sangrar.

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