Café

M.
M.
Sep 7, 2018 · 3 min read

Há muito não saía de casa. Mas esta manhã de inverno seria diferente. Calçou sua bota, suas luvas vermelhas, seu sobretudo branco e o cachecol que sua melhor amiga havia dado-lhe de presente de aniversário. Vestiu-se, e com seu caderninho de capa dura rumou à nova cafeteria que havia aberto duas semanas atrás, há três quarteirões de sua casa.

Escolhera um caderno ao invés de um computador portátil para escrever. Não precisava de eletricidade, ou de ficar com a coleira da tomada. Mais simples de ser carregado. Uma virada de página e estava pronta para escrever. A cada passo tentava afastar os pesadelos que inundavam sua mente.

Capuccino médio. Sentou-se em uma poltrona e sentiu o aroma da sua bebida antes de apreciar seu gosto. Calor espalhando-se pelo seu corpo em uma fria manhã. Estava fazendo algo novo. Finalmente. Abriu então seu caderno, disposta a escrever, mas seu lápis não riscou a folha. Pegou-se observando pela janela, pessoas andando no final de semana pelo parque. Namorados de mãos dadas; Crianças acompanhadas dos pais.

Olhou para dentro da cafeteria e viu as pessoas que ali estavam. Nunca havia gostado da ideia de sentar-se em uma cafeteria, pegar o computador e escrever. Sentia que isso não era quem ela era, e que as pessoas mais faziam isso por convenção do que por gosto. Mas também não queria ficar em casa, e Às vezes eles eram mais parecidos com ela do que ela inicialmente acreditava. Talvez quisessem apenas ver rostos. Mas como ver coisas novas com a face enfiada em uma tela, era um mistério que ela não poderia responder.

O teto da cafeteria estava mais interessante do que a própria escrita. E assim ficou por um tempo incontável. Ouvindo as vozes fazerem seus pedidos; pessoas se cumprimentando; conversas. E sentiu que estava sendo observada. Olhou na direção que sentia e pôde ver um sorriso se abrir, intrigado. Desconcertada, sorriu.


Encontrou-se três dias depois realizando o mesmo pedido naquela cafeteria. Dessa vez estava determinada a escrever, e assim o fez. Continuou no que já havia trabalhado na noite anterior. Mas algo sempre levantava seus olhos a correr pela cafeteria. O horário era o mesmo que havia chegado há três dias atrás, mas também havia ficado algum tempo na cafeteria antes de vê-lo. Talvez ele chegasse mais tarde.

Seu celular tocou. Estava na hora de sair e ir ao encontro de sua irmã, haviam combinado isto já há algum tempo. Esperou mais cinco minutos e, não vendo mais necessidade em estar aguardando alguém que nem sequer se sabe o nome, rumou à porta. Mas não viu o olhar de alguém visivelmente apressado se virar quando passou com seu casaco vermelho pela esquina da cafeteria.


Combinou de encontrar-se com sua melhor amiga naquela cafeteria. O tempo havia passado para ambas, mas nesse final de semana planejava colocar as conversas em dia. Poderiam pegar um café e sair às compras. Ver roupas novas. Ela sabia que precisava de um novo guarda-roupa. A vida havia se tornado melhor depois que passou a sair de casa, a explorar novamente os cantos da cidade onde morava. As igrejas, as estátuas, as árvores.

O inverno ainda não tinha ido embora, mas ela já se sentia uma nova pessoa. Seu trabalho havia se tornado mais agradável. Não se sentia completamente bem, mas sentia-se bem o suficiente para não afogar-se em si. Assim, às oito da manhã, saiu de casa. Sentou-se e aguardou. Logo ela chegaria, afinal, não moravam assim tão longe e ela mesma havia saído de casa mais cedo. Mais uns vinte minutos provavelmente.

Dezoito minutos agora. Quinze. Doze minutos. Sua visão deslizou de seu relógio, passou pela mesa, subiu pela poltrona à sua frente, atravessou a janela e pousou nos olhos que há tanto havia visto. Sorriu e foi sorrida. Ele atravessou a rua, entrou na cafeteria e nem se importou em pedir um café. Pediu para sentar-se ao seu lado, concedido prontamente. E então, o tempo não mais importou.

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