Dessensibilizar
Baixar espada e escudo é mais difícil que erguê-los. Quando se está acostumado à autodefesa dos constantes ataques, é ainda mais difícil. Esquecemos que nossas ações são parte da vida de outros, e não apenas da nossas, e agimos sem pensar em consequências. Todos fazemos, algo tão comum quanto respirar. E por isso necessitamos de uma chamada de atenção de vez em quando. De alguém nos dizer que nós o machucamos, como machucamos. Acordar para o sentimento alheio e importar-se.
Leio muito a palavra “sensibilizar”, utilizada como uma forma de trazer as pessoas aos problemas que acontecem no mundo em seu entorno; de forma a tentar com que elas se importem, que mudem suas ações acerca desses e procurar assim soluções cabíveis. Trabalhar pelo bem. Entretanto, proponho algo mais difícil que apenas tentar ver os problemas alheios que nos cercam, problemas da nossa sociedade em geral, do descaso com o próximo; o que também pode ser ligado ao fato de não nos importarmos com o sentimento dos outros.
Proponho a dessensibilização. Sei que parece contrário quando lido assim, mas é que ainda não sabe do que estaríamos nos dessensibilizando, e isso pode ser a chave que falta para nos importar com as pessoas. Pela vida atravessamos e não somos donos do que sentimos. Muitas vezes andamos feridos por pessoas que pensávamos poder confiar, não percebendo que fazemos muitas vezes o mesmo com pessoas que nos importamos imensamente, mas somos incapazes de sermos sinceros. A vida arranca-nos de nós mesmos no dia a dia.
Fácil deveria ser poder confiar, mas seres humanos vivem com medo. Medo de se machucar novamente. Medo de tudo de ruim repetir-se em sua vida. Nunca sabendo se as pessoas que amamos nos são falsos, nos usam para seu bem. E quando irão cansar-se da gente? Será hoje? Será que amanhã ela ainda quererá conversar comigo, ouvir de meus problemas; beijar-me? Dessensibilizar-se ao mal por outrem realizado contra nossos sentimentos. Sabemos que cada pessoa é um mundo, mas espelhamos todo o mal que passamos em pessoas que possuem as melhores das intenções.
Confiança é algo difícil de se manter. O mínimo pode ser o suficiente para nunca mais sentir-se seguro ao lado de alguém. O que pode afetar nossa vida para sempre. Dependemos tanto dos outros, mas queremos ser independentes. Queremos ser uma imagem ideal de uma pessoa que faz tudo certo na vida, que todos amam, que todos confiam. E amar é difícil. Muitas vezes amamos a imagem que fazemos de uma pessoa, e não ela mesma. Apenas em nossos momentos de necessidade podemos saber se esta pessoa estará por nós. Se ao vermos a sua face, por detrás das máscaras que utilizamos para todos, detrás da espada e escudo, ainda amamos.
Dessensibilizar a isso, ao fato de que fomos machucados, de que fomos feridos. Mas manter a certeza de que somos capaz de machucar quem amamos. Tentar explicar nossa linha de pensamento, tentar ser e estar por quem amamos. Podemos apenas tentar, e tentar novamente, seres impotentes alheios ao próprio coração. É algo mais difícil voltar a confiar do que manter-se sempre na defensiva, sempre à espera do próximo golpe para atacar novamente. Somos capaz de muito mais do que estarmos sempre na defensiva. Somos muito mais do nossa fértil imaginação problemática nos faz crer.
Mais que nossos corpos. Conectar-se com outros de tal forma a poder conversar, confessar, sobre tudo. Sem escudo, espada, armadura. Sermos nós, e ninguém mais. Originais, únicos. Nossos problemas nos afetam, mas não faz quem somos. Encontrar alguém disposto a estar conosco tanto em nossos sorrisos quanto em nossas lágrimas. Disposto a abraçar, não importando em sujar-se. E nem todo o tempo do mundo, nem a imortalidade, paga encontrar alguém assim. Do que vale a imortalidade se não for com ela?
