Habitam-me Dois

M.
M.
Sep 1, 2018 · 2 min read

Não sei se isso ocorre com outros, mas há uma voz em mim que não vejo como minha. Mas também não considero que seja outra pessoa. Realmente não entendo o que pode ser, e não é sempre que ela está presente, portanto preciso explicar um pouco mais sobre o que acontece.

De verdade, noto que ela está presente em muitos momentos de dúvida. Em momentos onde noto uma quebra de mim mesmo. Não considero que seja algo ruim, mas imagino que seja eu mesmo tentando compreender-me. Compreender dos sentimentos, da vida, das minhas ações, de meus erros. E noto que atualmente o Bloco de Notas tem sido um meio de comunicar-me com essa parte de mim.

Conversas que tenho em minha própria mente. Às vezes imagino ser algo normal, afinal todos ponderamos, todos trabalhamos nossas dúvidas. Mas em alguns momentos, sinto que algumas dúvidas são tão estranhas de surgirem dentro de mim. É claro que isso pode ser apenas uma válvula de escape, tentando dizer que sou diferente dos outros. Sim, sou, mas duvido que não haja ninguém na história da humanidade que não passou ou passará por isso.

Assim como existem diversas pessoas que atravessaram ou estão a atravessas as mesmas dificuldades, no mesmo momento que nós mesmos. Não são sempre as mesmas duas pessoas que habitam o meu ser, uma muda a outra constantemente, e as pessoas de fora também mudam as pessoas de dentro.

De forma que não há um dia em que as pessoas sejam completamente as mesmas. Minhas ideias mudam. Meus gostos mudam. Algumas coisas são constantes. Posso ter medo de perdê-las, e assim perder algo que acredite me caracterizar. Até então tenho visto que a mudança é parte de minha característica pessoal.

Há essa voz em minha cabeça, que aconselha-me. Diz-me “é errado”, “sabes o que deve fazer”, “porque te demoras em coisas resolvidas”, “persista”. Talvez o fato de ficar tanto tempo sem ter com quem conversar e contar possa ter ocasionado tal presença. Ou posso ser doido varrido, mas quem é que pode dizer-se normal?

Mostre-me alguém normal, mostrarei-te um mentiroso.

Pois, se habitam-me, noto agora que às vezes posso ser três. O simples fato de tentar me distanciar desta situação psicológica para tentar escrever sobre já me faz outra pessoa, e os dois sobre quem escrevo já estão mortos há muito, pois assim que tive a ideia para escrever sobre isso, foram-se. Mutável.

Quantas vezes conversei comigo mesmo. Quantas vezes perguntou-me “o que há de errado com você?”. Respondo: tudo, e nada. Tudo em mim pode parecer errado a alguém, enquanto a outros, nada o será. E se sou mutável, um dia posso ver nada de errado em mim, enquanto em outro, tudo. Nos vales e cristas do relacionamento do mim com o eu, que não são aqui a mesma pessoa, vivo.

Amanhã, quem aqui escreve não estará mais presente neste mundo. Apesar de estar presente em quem serei no futuro. Serei outro. Melhor? Pior? Depende de quem olha.

M.

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