Pessegueiro

M.
M.
Sep 7, 2018 · 3 min read

Crianças eram quando se encontraram pela primeira vez debaixo da frumentosa copa. Não haviam nunca provado do gosto do pêssego que florava a meio caminho entre seus lares. Curiosos, aventureiros, escalaram juntos em busca do novo sabor, e colheram-no: doce. Riram. Crianças não possuem os filtros que os adultos criam para tentar se proteger, em vão. Assim, uma amizade nasceu. E o pessegueiro tornou-se o ponto de encontro para ambos.

O tempo de colheita surge apenas uma vez ao ano. Suas flores nascem na primavera, após a friagem do inverno. Entretanto, com o passar do tempo, o pêssego era a última coisa que procuravam quando saíam de casa, depois do almoço. Não era mais pela sobremesa fornecida que eles estavam. Não havia mais necessidade nem mesmo de ser tempo de pêssegos. Verão, Outono, e mesmo no frio do Inverno: lá estavam.

A adolescência chega em tempos diferentes. Os problemas começam a abarrotar as cabeças, compromissos. Ela começou a falhar algumas vezes, ele outras. Então, um dia, pararam de sair de casa para conversar. O pessegueiro viu-se mais uma vez só. Testemunha do puro amor que os dois tinham, entristeceu-se. E ano após ano seus frutos diminuíam em doçura, em quantidade. Sua copa não era mais tão volumosa. Definhou.

E os anos passaram, acumularam-se. Cinco. Oito…

Doze.


Inverno havia chegado mais uma vez. O vento frio castigando a fraca casca do pessegueiro. Portando um casaco preto como abrigo à intempérie, aproximou-se uma mulher. Admirou a árvore, tocou-lhe. Fechou os olhos e ali ficou por algumas horas. Saudade era a única descrição que poderia ser feita daquele momento.

Noutra semana, retornou. Dessa vez não veio à pé como da última, mas de carro. Retirou dele pá, cavou com cuidado para não afetar as raízes já frágeis. Regou-a. Sua visita tornou-se algo comum. Conversava com o pessegueiro. A primavera veio, e pela primeira vez em anos as flores vieram novamente. Os frutos ainda não eram como os quando ela comera quando criança, não eram tão doces, mas isso não importava. O gosto a transportava.

Confessava à arvore que queria voltar no tempo. Que queria dizer tantas coisas, que tinha um discurso no qual trabalhou durante meses enquanto trabalhava pelo bem estar dela. Mas essas palavras não eram para a árvore. Eram para outros ouvidos. Ouvidos de alguém que há muito havia ido.


Verão chegou. Uma visita à casa dos pais já estava há muito devendo. Sua vida o havia levado para longe, muito longe. Das outras vezes que voltou, sentiu-se feliz em ver os pais, mas também sentia-se a procurar. E dessa vez, da janela, enquanto almoçava com sua mãe, viu de longe o pessegueiro. Não era mais o mesmo de quando o havia visto anos atrás pela última vez.

Saiu. Caminhou até a árvore e viu nela outra. Estava diferente, o solo estava cuidado, flores; um jardim agora estava naquele lugar que há tantos anos era apenas terra. Haviam caminhos de cascalho por onde andar, placas sinalizando cada espécie que ali vivia. E não pôde conter as memórias que vinham aos seus olhos. Sentou-se e abraçou a árvore.

E ao longe, através da maré em seus olhos, viu-a.

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