Sobre os Desejos; ou Anseios; ou Quero; ou Espero Encontrar

M.
M.
Sep 6, 2018 · 9 min read

Podemos desejar sobre muito. É importante então colocar uma diretriz sobre o que escrever ou posso perder-me. Do que quero falar aqui é sobre o que espero em alguém que quero compartilhar minha vida. É complicado escrever sobre isso pois tendemos a idealizar essa pessoa. Alguém perfeito. Quando ouvimos as histórias sobre os príncipes e princesas e queremos aquilo. Não digo que é ruim sonhar e sobre quem desejamos, mas é necessário também ter um pé na realidade. Ninguém é livre de cicatrizes, e é o primeiro passo que tomei para poder pensar sobre isso de forma que, ao menos eu considero, melhor. Não apenas para mim, mas para as pessoas ao meu redor e, especialmente, a quem eu quero compartilhar minha vida.

Primeiro é preciso ver nossas prioridades. O que queremos para nós. E parte da minha felicidade vem com relações humanas que considero significativas. Isso é diferente para cada um de nós. O que não quer dizer que pessoas com prioridades diferentes não possam combinar de tal forma. E também não quer dizer que minhas prioridades não mudem conforme minha vida. Mas é verdade que algumas estarão sempre presentes, pois são anseios que às vezes até mesmo nascemos com eles. Não sei de onde aparecem. Mas nas conversas vejo que assim o é.

Tendo-as, ao menos as que tenho hoje e as que sei que são constantes, posso começar a pensar no que quero no meu par ideal. Por exemplo, o fato de alguém não querer ter filhos de forma alguma seria um impedimento para mim. É algo que tenho consciência de querer já há muito tempo, mesmo com a crise, mesmo vendo as crianças berrando na padaria (como vi hoje). Nada disso me faz desejar menos ter, pelo menos, dois altofalantes ambulantes. Sinto que são parte de minha vida, mesmo que ainda não tenham nascido. Não me imagino pronto para ser pai, e talvez nunca me imaginarei pronto para isso. Mas em parte sei que isso é minha apreensão em ser o melhor para meus filhos, e de sentir que posso sempre melhorar em relação a mim mesmo.

Combinar é uma palavra muito utilizada quando trata-se desse tema. O que ela significa exatamente, creio muda de pessoa pra pessoa; já que todos nos combinamos de formas diferentes. Ter interesses em comum é de verdade algo que pode unir pessoas. A maioria das pessoas com quem convivemos são desse meio, seja escola ou faculdade, seja um curso de línguas, seja um bar que gostam em comum. Entretanto, ter tudo em comum com alguém não faz querer mais esta pessoa. Pode até se tornar aversão. Alguém que não tem diferenças, que não possui opiniões diferentes para poder gerar uma conversa, parece-me mais um espelho de mim mesmo. Não há evolução se convivemos com pessoas que nos são iguais, e isso pra mim é como estar sempre no mesmo ponto. Algo que está sempre no mesmo ponto me é algo morto.

Conectar-se é diferente de combinar. É algo mais profundo. Certo que combinar pode ser utilizado para isso também, cada um de nóis possui um vocabulário distinto, mas uma conexão me parece algo muito mais forte que uma combinação. Combinar eu combino com amigos, com colegas. Conectar-se… acredito que só quem viveu esse sentimento para saber realmente o que é. Sente-se diferente. Que aquela pessoa com quem você está conversando irá fazer tudo possível para entender-lo melhor. E que você não sentirá a presença dela como a presença de qualquer outra pessoa, mas algo que se encaixa em si mesmo, e que é parte de você tanto quanto você mesmo. —

Desses tempos, creio que o que mais observei de meus anseios é o fato de querer alguém que interesse-se por meus interesses e que eu me interesse por seus interesses sem parecer algo forçado. É difícil explicar isso, pois pode parecer que seria o caso de você se interessar por algo que não gosta pois quem você ama gosta disso, mas não é isso. Isso não traria prazer às atividades e mataria cada um de pouco em pouco. Digo, seria interessar-se em algo não por quem se ama gostar deste algo, mas por esta pessoa ter despertado esse interesse em si, algo que provavelmente não seria despertado se não estivesse com ela. E a recíproca também se aplica. Veja, digo que anseio por alguém que não finja gostar de algo para me agradar, e também não quero mentir a este ponto a alguém que amo. Amor baseado em mentiras não é amor.

Dando um exemplo, trago meu interesse por museu: artísticos ou históricos. Gosto de visitá-los e sinto prazer nisso, prazer em aprender e em analizar tanto a história quanto a mente humana. Talvez esse último descoberto mais recentemente. Ou mesmo o prazer que tenho na escrita, e para escrever textos como este mesmo preciso de outras mentes pensando comigo, dando-me ideias. Sinto que seria muito difícil estar com alguém que não possui nenhum interesse em ler o que escrevo, ou que não possui interesse em tirar uma tarde para visitar uma galeria de arte, caminhar pelas ruas e ver prédios antigos, ler as placas de estátuas. Se essas atividades causam aversão à pessoa, ou se passam a causar dita aversão depois de certo tempo, é claro que nada é mais como era antes.

Não posso dar exemplos do que seria o contrário, pois isso vai da outra pessoa. Como escrevo aqui sobre mim, está fora de minha alçada. Mas creio que como o fato é ser recíproco no relacionamento, amando-se e sendo amado. É difícil quando se sente a fazer isso e não sente que o outro faz o mesmo por você. Sentir como se seus interesses não valessem de nada. Abrir uma via de comunicação nesse caso é importante, mesmo que difícil. E, se a outra pessoa insistir que ela não deve se interessar pelo que você gosta apenas por você gostar, perceba que isso é escolha dela, mas que a escolha dela é não ter assunto com você, e de que seus interesses são coisas em segundo plano na vida dela. Não é prioridade.

Conversar e comunicar-se são duas coisas bem diferentes. Quero poder conversar sobre tudo, e que ela também possa conversar sobre tudo comigo. Desde os assuntos mais banais até os assuntos mais profundos de nossa alma. Poder abrir-me. Não é algo que sente-se com todo mundo, e muitas vezes sentimos que podemos nos abrir com outras pessoas também, e isso é ótimo, construimos amizades assim. Por isso, devemos ser amigos de quem amamos, sempre. Não há como ser tão próximo de alguém e não querer ter também uma amizade, pois é uma base firme onde se contrói um relacionamento. Amizade, confiança, confidencialidade.

Química. Ter um estalo com alguém é algo que pode ser a faísca, mas é necessário cuidar-se desta brasa. É algo que acontece apenas à primeira vista. Não digo que não seja possível ter todo o resto sem ter-se essa eletricidade que corre por todo o corpo, para o coração. E dessa química, nasça um tesão de ter o outro sempre, incontrolável. Imensurável. De ter-se mutuamente em todos os momentos. Não digo que é estar sempre fazendo sexo, e aqui digo que não quero fazer sexo. Há uma diferença entre satisfazer as vontades carnais e fazer amor. Muitas fezes são termos intercambiáveis, mas se fossem iguais, não teria necessidade de criar-se dois termos para isso. Quero fazer amor, puramente, e nada menos que isso; de forma passional, romântica, paciente. De sentir que somos parte de só um ser naquele momento.

Encontrar alguém que não seja tanto faz. Para quem signifiquemos tanto e que signifique tanto a nós, que não existe isso. Que queiram estar comigo, que o coração grite e implore para me ver, me abraçar. Que acalme-se com o cheiro do meu corpo. Que seja realmente importante, que seja tudo, signifique tudo. Que desperte todos os sentimentos. Não vejo razão para estar com alguém que não me faz querer correr atrás, e também não vejo razão para estar com alguém que não corra atrás de mim. Tenho consciência de que não sou pessoa fácil, e que tento afastar os outros de mim. E muitas vezes, quando isso faço, eu só quero que alguém venha, mesmo eu tentando afasta-la, e me diga que não vai embora, que me abrace e acalme meu choro. Alguém que eu sinta que se importe tanto comigo, e que eu me importe tanto assim também com ela.

Os risos devem ser fáceis. Assim como os choros. Alguém para poder confessar tudo que nunca dissemos a ninguém, sem segredos. Que chora comigo, mas que também consegue arrancar meu riso nessas horas. Que mesmo nos dias nublados, seja raio de Sol. Claro que podemos ter isso também com amigos. Amigos nos alegram. Mas, não sei se consegue entender a diferença, mas existe. Também não conseguiria explicar.

E, creio que seja óbvio mas ainda não citei, respeito. De todas as formas possíveis, de todas as maneiras. Ter sempre em consciência meus sentimentos, que são bastante complicados, não vou negar. Às vezes queria ser mais simples. Às vezes as coisas seriam mais fáceis assim. E por respeito também posso incluir a sinceridade, considero que são complementares. Não somos sinceros com quem não respeitamos.

Entendo que cada pessoa também possui sua individualidade, mas gostaria de alguém que fizesse planos comigo, e me inclua em suas atividades. Apresente-me. Que tenha uma visão de futuro comigo. Alguém que pense como seria bom estar comigo todos os dias, poder acordar ao meu lado e, como falado anteriormente, ter filhos comigo. Mas não digo apenas que seja aquele futuro que temos pra nossa vida, mas também o futuro próximo. Um jantar, um filme, uma ida à praia, uma viagem que ela queira fazer. Alguém que saiba que pode se divertir sozinha, mas que também saiba que seria muito melhor se eu estiver presente. Que a vida seria melhor se eu estivesse nela.

E das escolhas que faz-se na vida, que escolhamos um ao outro. Escolher compartilhar, escolher ficar, escolher tentar. Seguir juntos. Neste quesito é necessário a escolhe do outro, e então é um tanto difícil. Querendo ou não, estamos à mercê dessa escolha, mesmo de nossos amigos. Se as pessoas escolher não ser nossas amigas, nada podemos fazer. Se não nos escolhem, mesmo que nos amem de todo o coração, que também os amemos, não há como continuar. O sentimento irá sempre existir, bem como o amor, mas definhado.

Vejo também que as surpresas, presentes, que damos a outros, apesar de provavelmente nunca passar em totalidade o sentimento que sentimos, é importante. E que não são apenas os presentes materiais que importam. Por isso, quero poder surpreender essa pessoa: uma visita, mesmo que curta. Um sorvete. Uma flor. Tenho que reprimi esse romanticismo que habitava em mim depois de desilusões. Sei que antes eu pensava essas coisas, pensava em ser um príncipe para alguém; e quero reacender isso em mim mesmo, e fazer o mesmo. Mais uma vez, retorno à reciprocidade. É uma palavra que diz tanto a mim, diz tanto ao que quero fazer, mesmo que tenha pecado nesse quesito muitas e muitas vezes. Não retiro parcela minha de culpa em nada da minha vida, e sei que o que sou hoje é totalmente o caminho que trilhei. Ninguém me obrigou a fazer o que fiz, a não ser eu mesmo e minhas neuras, normalmente sem fundamento.

Viver as novidades e aventuras, conhecer novos lugares, novos climas, novas paisagens. Realizar novas experiências diferentes, que nunca realizaria só, ou que ela nunca realizaria só. E ainda assim, fazer tudo que eu faria só, mas em conjunto. Não diria que isso inclui apresentar às pessoas, ou essas coisas, apesar de saber que são bem parecidas. Seria mais algo de novo. Explorar o mundo exterior, bem como abrir as portas do nosso mundo interior a alguém, e explorar também esse mundo interior dessa outra pessoa.

Construir um relacionamento onde não precisemos estar bem para compartilharmos-nos. Quando estamos bem, sei, muitos acercam-se de nós. E alguns acercam-se mesmo quando estamos mal, e essas são pessoas importantes. Mas ainda assim, sei que não é a mesma coisa. Não é a mesma coisa alguém que está lá para nós, independente de qualquer coisa. Sem desejos além do de que fiquemos bem. Sem anseios além do de que possamos seguir, mesmo sozinhos. É complicado desvincular esse pensamento da frase “na saúde e na doença”. Mas ela resume praticamente tudo. É difícil ver o tanto que ela significa, e eu mesmo tenho certeza que ainda não sei.

Tempo é a única coisa que não podemos nunca parar. O tempo passa, e só. Mas com essa pessoa, não importa o tempo que passe, eu quero sentir a mesma coisa. Quero que ela sinta sempre a mesma coisa por mim. Sinta que estamos ligados pelo destino para sempre. Que não importa quanto tempo passar, estaremos juntos. Nas dificuldades, nos momentos felizes. Que o tempo não seja um vendaval e destrua tudo, mas que seja como uma prova de que nada em nossos sentimentos entre um e o outro muda, que amamos-nos e amaremos-nos.

Poderia acrescentar muitos e muitos pontos para o que consideraria meu relacionamento ideal, em ima idealidade dentro da realidade. Não espero um super humano. Alguém que queira entender a mim, e que eu queira entendê-la. E se continuasse, se nunca viesse a terminar, com certeza os motivos seriam retirados ou acrescidos de acordo com meu estado mental na hora, ou na semana, ou no mês.

E magicamente, nada disso importa se não for com ela.