O LUGAR DAS MÍDIAS SOCIAIS NA CONTEMPORANEIDADE DA VIDA SOCIAL, POLÍTICA E CULTURAL.

1. INTRODUÇÃO

Ao analisar as mídias sociais e seus impactos na vida social, política e cultural das pessoas, não podemos deixar de acompanhar as transformações ocorridas no mundo durante os últimos 200 anos, principalmente as que impactaram as formas de produção e os meios de comunicação. Para isso, é necessário voltar o olhar para as mudanças que marcaram a transição da modernidade para a pós-modernidade, acompanhando o domínio da técnica pelo homem e seu poder de transformação.

Atualmente, vivemos um momento de nova transição, que ainda parece de futuro indefinido. Com o aperfeiçoamento das tecnologias e o avanço dos meios de comunicação de massa, o homem passa finalmente a ter o poder de se comunicar em redes, por meio de sistemas de computadores interligados. Isso traz também a oportunidade da libertação do emissor do modelo clássico da teoria de comunicação, já que agora o homem, que até então era somente o receptor, pode agora ser também emissor.

Veremos que as redes sociais virtuais apresentam uma nova forma de se sociabilizar, novas formas de criar comunidades e encontrar outras pessoas com os mesmos interesses sociais e políticos. Assim, podemos observar novas formas de mobilizações e interações. O homem vive uma nova forma de individualismo numa nova configuração das cidades, e, através da conexão, insere-se no coletivo.

Dentro deste coletivo virtual experimentamos a publicização extrema e voluntária, que levanta questionamentos sobre temas como o público, o privado, a privacidade e a identidade.

2. DESENVOLVIMENTO

Para entender as mídias sociais e seus impactos na vida social, política e cultural das pessoas, é necessário analisar como se deram as mudanças na forma de comunicação ao longo dos últimos anos. Quando o homem saiu do campo e foi para a cidade, ele acabou criando novas formas de se relacionar e de se socializar. Com a sociedade industrial moderna (também chamada por Marx de sociedade capitalista), a migração de pessoas para as cidades transformou, principalmente, as famílias em “unidades de consumo, e não de produção”. Além da mudança na vida diária das pessoas, notam-se mudanças profundas na arquitetura das cidades. Foi nesta época que ele começou a ter o domínio da técnica (LYON, 1998) e a transformar o mundo a sua volta.

Na cidade, as distâncias eram maiores e as pessoas já não ficavam mais tão próximas, em virtude dos lugares de trabalho. Percebe-se então que a modernidade traz consigo uma sensação de liberdade, de conquista do novo e ruptura com o velho, as pessoas agora são livres para trabalharem em fábricas, receberem salários e gastarem como quiser. Neste período, o mundo observou uma explosão dos meios de comunicação de massa, como jornais, revistas e emissoras de televisão, razão pela qual o período também ficou conhecido como pós-industrial ou sociedade da informação, que ocasionou também, posteriormente, uma economia da informação. Nunca o homem havia tido tanto acesso a informação anteriormente.

O domínio de técnicas de eletricidade e eletrônica permitiu a criação da telefonia e, posteriormente, de computadores e redes interligadas a eles. Na pós-modernidade, a técnica e a ciência se unem para resolver problemas dos indivíduos e aliviar as pressões que a própria técnica impõe ao mundo, numa espécie de ciclo. Ou seja, o homem, ao ter o domínio da técnica, passa a criar e modificar o mundo à sua volta. Cria novas configurações de cidade, novas relações de trabalho e interpessoais, novos meios de comunicação, e acaba sempre criando algo novo para saciar um desejo ou simplesmente aliviar o stress criado pela própria técnica.

As tecnologias digitais permitiram uma mudança significativa no processo da leitura e da escrita, em seu sentido mais amplo. Se antes éramos meros leitores e espectadores, agora somos também os escritores. Assim, podemos afirmar que, comparado ao processo comunicativo clássico, demonstrado na figura abaixo, temos a liberação do emissor, já que neste novo cenário o receptor é também emissor e vice-versa. O receptor torna-se também produtor da própria mensagem.

Este novo modelo, no qual o receptor é também emissor, é característico das redes e da comunicação mediada por computadores. A emergência da internet como um novo meio de comunicação esteve associada a afirmações conflitantes sobre a ascensão de novos padrões de interação social. Por um lado, a formação de comunidades virtuais, baseadas, sobretudo em comunicação on-line, foi interpretada como a culminação de um processo histórico de desvinculação entre localidade e sociabilidade na formação da comunidade: novos padrões, seletivos, de relações sociais substituem as formas de interação humana territorialmente limitadas. Por outro lado, críticos da Internet, e reportagens da mídia, por vezes baseando-se em estudos de pesquisadores acadêmicos, sustentam que a difusão da Internet está conduzindo ao isolamento social, a um colapso da comunicação social e da vida familiar, na medida em que os indivíduos sem face praticam uma sociabilidade aleatória, abandonando ao mesmo tempo interações face a face em ambientes reais. Além disso, dedicou-se grande atenção a intercâmbios sociais baseados em identidades falsas e representações de papéis. Assim, a Internet foi acusada de induzir gradualmente as pessoas a viver suas fantasias on-line, fugindo do mundo real, numa cultura cada vez mais dominada pela realidade virtual. (CASTELLS, 2003, p.98)

Acima notamos que o surgimento das redes de computadores ocasionou basicamente dois tipos de questionamentos sobre o comportamento do homem moderno: o primeiro preocupado na substituição de interações humanas presenciais pelas mediadas por máquinas, a quebra do elemento físico enquanto relação, e a segunda mais voltada ao isolamento do indivíduo com os novos meios de comunicações, que o permite assumir qualquer identidade. Ao mesmo tempo em que o homem consegue se comunicar e estabelecer contato com outras pessoas distantes fisicamente, ele o faz sozinho, somente por intermédio da máquina. Podemos ainda observar que o autor se refere ao que também está chamando mais recentemente de “Mass Self Communication” (CASTELLS, 2006).

A comunicação de massa passa a ser individualizada a partir de ferramentas de intercomunicação que levam a uma prática social coletiva. Vivemos hoje um ambiente comunicacional rico, já que podemos buscar informações em qualquer língua a qualquer momento. Percebemos então uma reconfiguração cultural generalizada por meio das redes e das tecnologias que permitem a contribuição. Como característica da comunicação em rede, o receptor que faz também o papel de emissor acaba publicizando opiniões e modos de pensar, bem como imagens de seu dia a dia, opiniões sobre determinado local da cidade em que está e mais. Neste ponto, chama a atenção o fato de que o sujeito está agora totalmente exposto para todos os outros conectados na rede. Se por um lado a interação só existe hoje com a conexão, por outro a conexão expõe o homem à publicidade, em seu sentido mais amplo.

O domínio da técnica e da tecnologia permitiu ao homem a construção de máquinas de altíssimo poder de processamento, que alguns autores vêm frequentemente comparando ao cérebro humano. Assim, com os meios de comunicação de massa individualizados, o homem está exposto não somente a outros sujeitos conectados, mas a máquinas potentes que possuem basicamente a capacidade de um humano. Elas são capazes de reter informações, processá-las e interagir novamente com o homem. Desta maneira, pode-se afirmar que o homem não possui mais controle sobre quais os tipos de informação a seu respeito são compartilhadas nas redes. Surge aí um grande questionamento sobre a privacidade. Alguns dos mais modernos sistemas atuais podem ser comparados ao Panóptico idealizado por Michel Foucault em seu livro Vigiar e Punir. O homem, hoje, já não sabe mais se existem outros homens o vigiando dentro da rede, ou ainda se existem máquinas que o vigiam. Paralelo a isso, podemos afirmar que houve um grande questionamento sobre a identidade do homem dentro das redes, uma vez que ele pode assumir qualquer identidade que queira, já que a presença física não existe neste processo de comunicação. O homem acaba assumindo diversos papéis, e, algumas vezes, mais de um ao mesmo tempo.

A tecnologia permite, aqui, que o homem deixe de ser ele mesmo crie uma (ou mais de uma) nova identidade, que não é mais o seu eu, mas muitas vezes o duplo, o virtual, aquilo que o complementa ou que o satisfaz. É verdade que o simulacro sempre existiu, que mesmo escritores famosos tiveram seus heterônimos, que o falso sempre esteve presente na sociedade, porém é preciso notar que a tecnologia acelerou este processo. O falso é agora cada vez mais verdadeiro, cada vez mais aceito socialmente. Vemos então uma nova moral, novos valores que estão em construção pela sociedade atual. É verdade também que as mídias sociais trouxeram um novo espaço de discussão para as pessoas. Há uma grande mistura entre o público e o privado, que acaba gerando muita confusão, principalmente com gerações de pessoas anteriores ao computador. As novas tecnologias estão quebrando a intimidade, o íntimo, ao publicizar o indivíduo nas redes. Para as novas gerações, que sempre conheceram estes dispositivos, talvez não exista mais a separação entre o que sempre foi conhecido como público, como espaço de discussões, e o que até então era o privado, como algo íntimo. Atualmente os homens aproveitam também seus perfis nas redes para discutir assuntos que antes não tinham espaço nas rodas de amigos e pessoas mais próximas. Nas redes as pessoas acharam a oportunidade de encontrar outros sujeitos com os mesmos interesses. Assim nascem também as comunidades virtuais, como micro redes de pessoas com um mesmo ideal. É uma nova forma de estar junto, de construir diálogos e conversas, de sociabilizar. Vemos atualmente a quebra total de um tipo de relacionamento (físico) em função de outro (virtual), mas que de certa forma tende a manter sua raiz, no sentido de que apesar de se construir muito por meio da tecnologia, o homem ainda sente a necessidade de estar no mundo físico.

Observamos no Brasil, em junho de 2013, movimentos nacionais iniciados a partir das redes, especificamente plataformas como Facebook e Twitter (a primeira apresenta mais de um bilhão de usuários ao redor do mundo). Pessoas de todas as idades, classes sociais, raças e gêneros se uniram em favor de uma ideia em comum e o fizeram graças à intermediação da tecnologia no processo comunicativo. A ocasião, uma luta pela redução da passagem de ônibus na cidade de São Paulo, seguida de uma repressão policial exaustivamente compartilhada nas redes, deu lugar a um movimento que saiu das redes e ganhou as ruas do País, exigindo melhoras por parte do Estado, que também já não consegue mais cumprir com o papel utópico de progresso da pós-modernidade.

Notamos então que um movimento que começou com discussões nas redes sociais acabou extrapolando os limites do virtual e se atualizando, uma potência que existia acabou vindo para o real para efetivamente ganhar mais notoriedade. Assim, é possível afirmar que este fato somente foi possível graças a diversos fatores que podemos identificar ao longo do texto, desde o domínio da técnica, da tecnologia e da ciência, uma nova configuração das cidades, a quebra do modelo clássico de comunicação, com a liberação do polo do emissor, a quebra do elemento físico enquanto relação, a mistura entre espaço público e privado, e uma nova forma de individualismo, que não cria a massificação, mas sim coletividade.

3. CONCLUSÃO

As mudanças ocasionadas na transição da modernidade para a pós-modernidade transformaram profundamente os meios de comunicação e, consequentemente, o modo de interação entre os homens. O modelo clássico de emissor e receptor foi quebrado, dando origem a um novo modelo, no qual o receptor é também autor, criador, escritor, emissor, a partir de ferramentas de intercomunicação individuais.

O aperfeiçoamento da tecnologia fez surgir as telecomunicações e, posteriormente, os computadores e as redes interligadas. Com elas, o homem se viu livre para buscar informações em qualquer parte e compartilhá-las com outros sujeitos. Entretanto, as redes podem ser encaradas como um isolamento do homem, já que ele não precisa mais da presença física para a interação. Além disso, outra questão importante é o poder atual do processamento dos computadores, que permite a eles guardar informações sem que o usuário saiba que está provendo tais dados. Nas redes, o homem acaba publicizando informações preciosas e, assim, surge também um questionamento sobre a privacidade, o que é realmente seu, como e com quem isto está sendo compartilhado.

Apesar da tentativa constante do homem continuar criando novidades a partir da técnica, em combinação com a ciência, o resultado acaba sendo parecido com o momento da modernidade, no qual se tentava criar um controle sobre tudo (“o homem pode”). Com conhecimento científico e técnico o homem pode recriar praticamente tudo no mundo, tomando o lugar do criador. Analisando o momento atual da civilização, com todas as redes de computadores, máquinas automáticas e processos automatizados, percebemos que o homem está se tornando refém, dependente de todas as suas criações. Se antes o homem utilizava as técnicas para controlar tudo que podia, a partir dela e da ciência, suas criações agora o controlam.

É preciso uma reflexão mais profunda para que o homem possa decidir de que maneira as redes devem continuar crescendo e como tirar o melhor proveito dela, sem que o próprio sujeito deixe de existir.

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