UM CARGO, UMA EMPRESA, UM TWEET

(Um olhar ético sobre uma demissão)

No dia 28 de março de 2010, o executivo Alex Glikas, diretor comercial da Locaweb, uma empresa de hospedagem de sites e serviços para internet, utilizou o Twitter para expressar sua opinião sobre um jogo de futebol que acontecia na ocasião. Os times envolvidos eram os arquirrivais São Paulo e Corinthians. Até aí nenhum problema, não fosse o tipo de linguagem utilizada por Glikas. E, para agravar o fato, a empresa para quem ele trabalhava era a patrocinadora do time do São Paulo.

No calor da partida, Glikas publicou tweets como “Sou fã do Rogério, se continuar assim está ótimo! Chupa bambizada! Isso aqui é Locaweb“. Dois dias depois acabou demitido da empresa, o que gerou grande discussão entre usuários de redes sociais sobre o ocorrido. Outros exemplos de suas publicações podem ser conferidos na imagem abaixo, extraída de matéria da revista Exame na internet.

Imagem 1 — Screenshot da conta de Alex Glikas no Twitter

Ao analisar o comportamento dos usuários nas redes sociais atuais, é preciso levar em consideração o que leva o sujeito a ter determinada atitude ali. Além disso, é necessário voltar o olhar para questões como a identidade do indivíduo, sua privacidade e uma nova configuração entre espaço público e privado.

Ao participar das redes sociais, os indivíduos buscam sempre o pertencimento a um grupo de pessoas que possuem algum tipo de interesse em comum. O fato de a comunicação nestas plataformas ser mediada por dispositivos eletrônicos não significa que ali não existam normas e regras de conduta, tal como na sociedade fora delas. Desta forma, é necessário cuidado ao publicar pensamentos ou qualquer tipo de informação, já que seu perfil dentro da rede corresponde à sua identidade como pessoa. Seu comportamento ali vai também refletir o exatamente quem você é fora dali,

Por não compreender isso, um muitas vezes observamos comportamentos que não seriam vistos facilmente fora do Twitter ou do Facebook. Ou seja, muitas pessoas apresentam formas de se comunicar nas redes sociais muito diferentes de outros ambientes. Ao nos questionar os motivos de tal diferença, podemos observar que aqui surge um grande questionamento sobre a identidade do homem dentro da rede, uma vez que ele pode assumir qualquer identidade, já que a sua presença física não é necessária para a interação. Desta forma, pode-se afirmar que a tecnologia acelera o processo para que o homem usufrua do duplo, do falso, do virtual, daquilo que lhe satisfaz.

Apesar de não usufruir do duplo, utilizando um perfil fake (o que teria poupado sua demissão), Alex Glikas apresentou um comportamento que não é adequado para a rede. Ele simplesmente se esqueceu de que todas as normas, regras de conduta e valores da sociedade na qual está inserido são aplicáveis e estão válidas dentro das redes. Todas as normas de comportamento corporativo valem ali também, já que o Alex diretor é também o @alexglikas (e consequentemente pode sofrer punições por isso).

Segundo Kant (2003), as ações de qualquer ser humano são fundamentadas a partir de princípios gerais, como o imperativo categórico, com a lei universal, segundo o qual um indivíduo “Age de tal modo que a máxima da tua vontade possa valer sempre ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal”, ou seja, deve-se agir de acordo com o que se espera do próximo. Tal princípio está diretamente ligado à razão, em sua forma mais abrangente — todo homem é racional, e, consequentemente, é um sujeito com uma moral, subordinado a uma série de normas ou regras. A decisão de romper com elas pode ser encarada como um absurdo.

Quebrar as regras no ambiente digital, como fez o diretor da Locaweb, pode ser muito mais perigoso que fora dele, já que ali o registro é permanente. Em minutos as cópias de tela de @alexgliks com suas publicações começaram a aparecer e ser distribuídas em retuítes pela rede. Posteriormente blogs esportivos e veículos de imprensa se apropriaram de tais imagens para ilustrar suas matérias sobre o caso. Estes conteúdos ainda podem ser facilmente encontrados em sistemas de busca como o Google, Bing ou Yahoo, e serviram como fonte para este artigo. Ou seja, a atitude que Alex tomou durante um breve momento está eternizada na internet.

Há alguns anos talvez ninguém tomasse conhecimento do fato, a não ser pessoas próximas a ele ou ligadas à empresa, mas atualmente qualquer um pode ter acesso ao que aconteceu em sua vida (e sua carreira) naquele momento.

Este é um fato muito delicado e deve ser analisado com muita calma. Alex pode ter tomado uma atitude num momento de variação de humor ou descontentamento, mas que não reflete quem ele realmente é. Mas, nos dias de hoje, os prints de suas publicações com ofensas a torcedores de outro time já estão indexados e acessíveis para todos. Em países da Europa alguns cidadãos ganharam judicialmente processos para terem seus nomes desvinculados de sistemas de buscas, mostrando exatamente que aquilo era uma parte de sua história do passado, mas que já não reflete o comportamento atual daquela pessoa. Certamente é uma decisão justa. Apesar de dependermos de toda a liberdade de expressão necessária, é de direito de qualquer cidadão consertar erros cometidos no passado e escolher se ele gostaria ou não que todo o mundo tivesse acesso ao ocorrido.

Ao analisar esta perpetuação dos dados na internet, é inevitável não pensarmos na privacidade dos indivíduos. Os sistemas de computadores estão tão avançados atualmente, que a cada website que visitamos são instalados alguns arquivos em nossos computadores sem a necessidade de nosso consentimento. Os cookies, como são chamados, enviam informações dos computadores para os servidores. Quando entramos no Facebook, informamos voluntariamente dados como idade, sexo, local de nascimento, e muito mais, sem saber ao certo para que aquilo será utilizado. No caso de Glikas, ele poderia ter colocado seu perfil na rede social como “privado”, para que somente amigos tivessem acesso a suas publicações, mas aparentemente todo seu conteúdo estava configurado como público.

Atualmente diversas empresas estão monitorando de perto seus funcionários, inclusive publicando normas internas com manuais de comportamento para as redes sociais. Em casos mais extremos, as corporações chegam a colocar regras de não ter amizade na rede com indivíduos de cunho político ou religioso. Desta forma, é inevitável uma comparação com o Panóptico idealizado por Michel Foucault, em seu livro Vigiar e Punir, no qual um modelo ideal de presídio é colocado como um círculo com uma torre central, onde os presos nunca enxergavam se havia ali um vigia, mas este tinha visão de todas as celas e de todos os presos. Este é basicamente o sentimento dos usuários da internet hoje. Visibilidade e controle. Não se sabe se qualquer conteúdo produzido (ou reproduzido) ali pode ser capturado por alguém e utilizado contra a própria pessoa, como foi o caso do diretor da Locaweb.

Como vimos, as redes sociais propiciam a possibilidade do indivíduo se inserir no coletivo, a fim de se juntar a um grupo de pessoas com interesses comuns e se comunicar com eles. Observamos também que normas e regras sociais também são perfeitamente aplicáveis ali. Atualmente, com o crescente número de dispositivos com acesso às redes e de aplicativos móveis, o nível de publicização das pessoas é tão alto, que se perdeu o parâmetro do que é o público e do que é o privado, desde seu sentido mais amplo.

Mesmo apresentando todas as características de um espaço público para discussões, as redes sociais hoje estão tomadas por publicações que são tipicamente do espaço privado, do íntimo, do individual. O tipo de mensagem emitida por Alex Glikas pode até ser natural em rodas de bares ou encontros entre amigos, que teriam caráter mais privado, mas numa rede social ele se mistura ao público. O comportamento das pessoas ali já não apresenta mais esta divisão. Entretanto, apesar de a comunicação ali ter perdido esta barreira, todas as normas e regras impostas pela sociedade estão também na internet e dentro das redes. Glikas teve sua reputação prejudicada, e suas ações do passado ficaram marcadas porque a barreira entre o público e o privado foi ignorada. Ali ele se comportou como se realmente elas não existissem.

Para sintetizar, tudo isso ocorreu por que Alex teve um comportamento que desviou da ética, do conjunto de regras e normas às quais estamos subordinados ao viver numa sociedade. E é muito importante destacar que todas elas valem nos ambientes digitais nos quais nos comunicamos atualmente, já que nosso comportamento pode estar sendo observado o tempo todo. É preciso que o homem se mantenha dentro dos padrões sociais estabelecidos para ser aceito não sofrer nenhum tipo de punição e para que sua reputação não seja prejudicada.

Vale lembrar que diversos pontos discutidos neste texto podem sofrer grandes alterações ao longo dos próximos anos, já que novas gerações que cresceram no digital não percebem ou não se preocupam com fatos como a perpetuação de informações pessoais nas redes ou privacidade, eles nunca conheceram o mundo diferente deste para ter um parâmetro de comparação. Veremos outros tipos de discussões, que devem ser novos questionamentos interessantes para a sociedade resolver.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LÉVY, Pierre. Cibercultura. (Trad. Carlos Irineu da Costa). São Paulo: Editora 34, 2009.

KANT, I. Crítica da Razão Prática. São Paulo: Martin Claret, 2003. (Original

publicado em 1788).

FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão; tradução Raquel Ramalhete. 23a ed. Petrópolis, Vozes, 1987.

Mensagem no Twitter causa demissão de executivo da Locaweb. Disponível em <http://epocanegocios.globo.com/Revista/Common/0,,EMI130181-16349,00-MENSAGEM+NO+TWITTER+CAUSA+DEMISSAO+DE+EXECUTIVO+DA+LOCAWEB.html>. Acesso em 10/01/2015 às 15h31.

Diretor da Locaweb é recontratado após polêmica no Twitter. Disponível em <http://exame.abril.com.br/blogs/zeros-e-uns/2012/02/24/diretor-da-locaweb-e-recontratado-apos-polemica-no-twitter/>. Acesso em 10/01/2015 às 15h31.