GOD COUNTRY — HQ de Donny Cates, Geoff Shaw, Jason Wordie e John H. Hill

Um quadrinho de God Country… que basicamente serve bem pra abir a HQ e também esse texto.

Tem um lance que sempre botei na culpa do meu italianismo, mas que na real acho que veio mesmo é da forma como fui criado — ou melhor ainda, como as coisas eram e são lá em casa. Esse lance é bem simples, na real:

Histórias do amor entre famílias e amigos tem uma boa chance de me prender lendo. Ou assistindo. Claro, quando é bem feito. Não, não quando é piegas. Emotivo, sim. Piegas, não.

“Up”, da Pixar? Me seguro pra não chorar de novo feito um demente toda vez que assisto aquele começo. Essa é a linha, ok?

Aliás, aí tem outro tipo de história que também me pega: personagens mais velhos em situações que discutem o envelhecer, o lutar contra o novo mundo que segue evoluindo mesmo em torno dos já cansados.

Aí, claro, estamos falando de coisas como Os Imperdoáveis do Clint e um punhado de filmes do Peckinpah.

E de God Country, HQ de Donny Cates, Geoff Shaw, Jason Wordie e John H. Hill que acaba de sair em tpb pela Image Comics.

Porra, mano… Que lindeza.

A trama: numa casa isolada do Texas, um filho cuida do pai embrutecido e enloquecido pelo Alzheimer. É quando surge um demônio e uma espada capaz de matar universos e deuses que escolhe o guerreiro que irá usá-la desse dia em diante…

(não vou mentir que talvez essa cena seja um dos dois ou três momentos da HQ em que pensei o véio “hum… eu faria diferente…”. Sei lá, meio over demais pra marcar rápido a doença do pai, mas por outro lado talvez seja um dos momentos que achei mais fortes da arte, então fica o registro.

O pai. Que reencontra sua sanidade enquanto portar a espada e arrisca sua vida contra outros deuses e demônios que querem recuperar sua lâmina assassina por uma razão:

Não quer perder novamente as memórias das pessoas e momentos em que amou.

É uma mistura de aventura e fantasia até razoavelmente padrão. Mesmo o conceito básico, apesar da sacada do Alzheimer e tal, convenhamos que é algo bem normal, só lendo isso aí em cima já dá pra pensar várias outras histórias próximas.

Uma página-dupla de God Country.

E por que essa aqui vale a pena?

Como eu falei, talvez seja meu italianismos, talvez seja minha relação com minha família. Mas esse é o lance que guia e faz funcionar a coisa toda.
God Country não é distante, por exemplo, de Starlight — uma das HQs que eu achei mais bacanas de todas as coisas que o Mark Millar churna mirando em Hollywood. A trama dela é um senhorzinho que descobre que foi o maior guerreiro de um universo distante. E ganha uma chance de voltar e reencontrar sua glória.

É outra forma de explorar esse mesmo tema. Mas Starlight tem aquele lance meio de filme mirando no véio Clint Eastwood, em fazer um filme de alguém idoso que descobre que foi um grande guerreiro e seguir nessa frente. É divertida, é bacana e inclusive vai valer cada centavo do seu dinheiro quando a Panini FINALMENTE cumprir a promessa de meses (anos?) atrás e lançar essa por aqui. É tudo isso, mas no fundo é só uma grande aventura.

God Country não deixa de ser uma grande aventura, mas ao mexer com família, afeto e memória, obtém sua grande força. Começa normalzinha, assumo, divertida, engraçada com aqueles momentos que roteiristas adoram criar pra dizer que tem coisas que só acontencem assim no Texas, saca?
Aí segue, aí vai amarrando… A trama vai evoluindo junto com a apresentação dos personagens…

Duas páginas de momentos diferentes da HQ. Falo mais da arte daqui a pouco no texto mas, spoiler, não fiquei tão fã assim…

Enfim, impressionou.

Em resumo: conforme você vai ficando velho e vai lendo e lendo e lendo, cada vez mais vai criando calo, deixa de se emocionar e admira a cena pelo jeito que foi construída, mais do que pela história. Fica cada vez mais raro se levar pela história.

Vira um leitor mesmo, não um passageiro.

Enfim, se me perdoam a cena mental dantesca, mas God Country há pouco fez esse palerma cético de mais de 100 quilos chorar feito um menininho sentado no vaso.

Cara, que final…

A razão porque escrevo ficção é porque gosto de personagens. O personagem que mais funciona pra mim não é só o que te diverte, é o que faz você sentir que aquela história só existe por causa dele, que tudo que está acontecendo só acontece daquela forma porque ali existe uma pessoa (fictícia, ok, mas uma pessoa) tomando decisões e pensando e agindo daquela forma, que te faz entender porque aquilo tudo está acontecendo.

E quando você consegue misturar e fazer funcionar Família e Amizade com personagens assim?

O mundano e o fantástico oscilando entre o conflito e a acomodação. Um tema caro à God Country.

É lindo demais.

E a arte, vocês perguntam? É uma maldita HQ, Adriano, fale da arte!

É uma HQ difícil pra se desenhar… Você deve ser capaz de subir da mais mundana expressão humana para um combate de Deuses vindo de outras dimensões em instantes e esses são atributos difíceis de se conseguir juntos, na dose certa.

E é isso que constroi uma HQ desse tipo. Pra você entrar no drama familiar é fundamental as imagens desaparecerem, te passar o que precisam na energia correta.

É o que Geoff Shaw, Jason Wordie e John H. Hill entregam. Uma bela arte, competente. Conversa muito bem com o trabalho de gente como Sean Gordon Murphy (de Punk Rock Jesus e Tokyo Ghost — e que está desenhando o primeiro Batman que eu lerei em, sei lá, 15 anos) e Matteo Scalera (de Black Science). E pode não parecer, mas nisso aí em cima talvez esteja meu problema com a arte…

Aqui na sequência, só de zua, três artes dos caras citados aqui na matéria. Primeiro uma página do Sean Gordon Murphy…

É linda, é competente, mas conversa DEMAIS com esse tipo de arte que está ficando tão comum em quadrinhos de gênero meio mainstream, meio alternativos sem, no entanto, conseguir atingir a personalidade presente no trabalho de outras pessoas — como os próprios Murphy e Scalera citados acima, ou mesmo o Parlov de Starlight.

… aí uma dupla do Scalera — que, aliás, tá com um trampo bem bonito coloridão no Black Science e…

O Parlov em Starlight entrega uma aula de como fazer uma arte nostálgica e, ao mesmo tempo, contemporânea, em como criar um universo para o leitor sem no entanto ficar esfregando bobagens na sua cara e ficar te distraindo da história. É uma das artes mais bonitas dos últimos tempos e pega um roteiro bom do Millar e transforma em algo muito mais especial.

… pra fechar, duas páginas soltas do Parlov. BD véia, Flash Gordon e HQ contemporânea tudo junto e misturado num lance que soa simplesmente dele.

HQ é um tipo de narrativa em que história e arte trabalham juntos. Grandes HQs acontecem quando uma história e uma arte que, se examinadas sozinhas, já seria fantásticas, juntam-se em algo ainda maior.

A arte de God Country, olhada sozinha, é bonita, contemporânea e conta perfeitamente sua história. Mas não mais que isso.

Isso vindo de mim, que tenho o Sean Gordon Murphy como o ilustrador que mais gosto hoje. Mas justamente porque ele tem personalidade, porque cada página dele você sente que saiu da caneta dele. Essa equipe de God Country?

Não.

O que brilha em God Country é o roteiro.

Precisa mais que isso? Nem sempre, nem sempre…

Talvez pudesse ser ainda mais especial? Talvez.

Mas, pra God Country, saiu perfeito. A arte cumpre seu papel.

E o roteiro, cara? Porra, o roteiro…

É simples, mas redondo. E lindo.

Meu italianismo agradece.

A capa do encadernado é éssaí.

(God Country é uma história fechada, originalmente lançada em 6 edições. O Encadernado acaba de sair nos EUA por US$16,99)

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