Porradaria adrenada e dramalhão com espionagem: a​ competente salada que é “A Vilã

O cartaz nacional.

Filme coreano de Byung-gil Jung, que chega às telas brasileiras nesse 23 de novembro, faz uma misturêra danada de elementos do cinema de ação contemporâneo ocidental e oriental para contar sua trama de vingança, ação e espionagem, alternando entre o velho melodrama e cenas de pancadaria na última octanagem.

Parece um rebosteio danado? Pois é incrível, mas funciona. Desde que você aceite assistir um novo pacote para uma série de ideias que você viu em outros lugares.

Mas vamos pelo começo, a história:

Sook-hee é uma assassina treinada desde criança nas artes de dropar inimigos violentamente. Após a morte de seu mentor e ex-marido (sim, foi um longo treinamento) ela é presa e conduzida a um estranho centro de treinamento de uma misteriosa — mas talvez levemente genérica — agência de segurança.

E esse é o grande e cornudo boi na sala. Se você pensou em “Nikita”, bingo, é bem essa praia mesmo. Já vi mais de um comentário sobre não assistir filme porque é cópia do o já quase-trintão filme de Luc Besson. Se você é desses que tem um incomodo com esse tipo de coisa, foge daqui.

Quem acha que “Nikita” é só uma música piegas do Elton John, Vai com fé.

Se você viu e não lembra direito ou não se incomoda tanto assim? Aí acho que vale, viu?

Ó, não vou mentir que quem viu chega a se distrair nesse trecho de treinamento, com a velha sequência mulher-difícil-cede-ao-governo-fica-pronta-é-solta-na-sociedade-começa-a-agir-pelo-governo-mas-se apaixona. É fácil ficar entretido procurando as semelhanças entre um filme e acabar se distraindo nuns pontos do filme.

Mas, na real, as diferenças aqui — uma filha, um relacionamento amoroso muito mais interligado à tal agência do que ela suspeitaria — são importantes para as próximas fases da história. Porque de repente essas peças, junto com as do começo, começam a cair furiosamente uma em cima das outras e depois de mais umas reviravoltas e embaralhadas, pumba, a salada toda já pende prume meio termo entre “Kill Bill” e a Trilogia de Vingança de Chan-wook Park (você sabe, né? “Mr. Vingança”, “Oldman” e “Lady Vingança”?)

“A Vilã” também tem a sua noiva.

Curiosamente, ao encampar essa discussão de família e vingança, a história ganha sua força. Não se engane no entanto ao esperar a virulência estilizada de qualquer um dos filmes de Chan-wook Park. Aqui a coisa é mais suave. A conversa de “A Vilã” é mais com o cinema de ação de Hong Kong. Sabe aquele tom de melodrama que permeia os filmes de ação de todos os filmes daquele estilinho kung-fu MAS com armas na mão de todos os filhotes de John Woo?

Essa praia.

É curioso como o cinema coreano conversa com outras escolas da Ásia ao mesmo tempo que luta pela sua própria personalidade.

Se “O Hospedeiro” conversava com os Kaiju — os filmes japoneses de monstrolões destruindo cidades de isopor — e os filmes de Vingança de Park conversam muito com a escola japonesa — inclusive mangá, com a semelhança temática de “Lady Vingança” e “Lady Snowblood” assim como “Oldboy” é uma adaptação de outra série de quadrinhos — “A Vilã” tem sim no seu DNA a alma de Hong Kong, mesmo devendo sua trama ao ocidental “Nikita”.

Mas eu falei lá em cima sobre personalidade… Então vamos lá, de onde “A Vilã” tira a sua?

Em primeiro lugar, do trabalho de Ok-bin Kim, que interpreta Sook-hee. Você pode lembrar dela de “Sede de Sangue”, filme vampírico de Chan-wook Park. Um filme como “A Vilã”, que mantém esse equilíbrio entre Drama e Ação, depende que seu protagonista responda tanto na parte da emoção quanto na física.

A variação de emoções expressa no comportamento de Ok-bin Kim é de impressionar. Sutilezas como velocidade de movimento e expressões em momentos de pausa passam as diferenças em sua psique em cada momento da história. Ela “vende” as diferentes fases psicológicas de Sook-hee.

E ela nas cenas de ação é, basicamente, uma força da natureza. Ok, ela sofre com a tradição do cinema oriental de machucar ao máximo o seu protagonista, mas mesmo assim sempre impressiona. Cenas de tiro s pancadaria extremamente físicas e sujas.

Ah, falei das cenas de ação? Hora então de entrar em outro ponto fundamental d’ “A Vilã”.

Uma cena de luta de espadas em cima de motos em um túnel interminável. Nem quero imaginar o pesadelo que foi filmar issaê.

Tem uma velha brincadeira que eu e Carlos Bêla (irmão da vida e designer fodão) fazemos desde moleques sobre o Yngwie Malmsteen — guitarrista sueco que faz músicas ruins pra provar como debulha rápido seu instrumento — sobre como ele só tem duas velocidades em seu solo: ultra-lento e ultra-rápido. Devo dizer que lembrei dessa piada assistindo a Vilã.

As cenas de condução da trama, as de drama, são conduzidas de forma mais suave, mais lenta. Dá pra chamar até de classuda. Pra isso, aliás, ajuda muito a fotografia. Bonita, tanto na iluminação quanto nos quadros. Com uma bela construção de climas variando proximidade, tipo de lente e afins de acordo com a necessidade dramática:

É um filme bonito em suas cenas de mais intensidade. As cômicas tem um tom, obviamente, mais leve mas não caem no exagero que, não raro, os filmes de Hong Kong caem.

Agora, o bicho pega, PEGA MESMO, é nas cenas de ação. Aqui sai da valsa pro grindcore num corte de cena.

Já tem um tempo que estamos nessa pegada de filmes em que parte do apelo, parte da divulgação, é em cima do ritmo de suas cenas de ação, da forma como a pancadaria come solta. São vários exemplos como “The Raid” — filme da Indonésia de 2011 que basicamente mostra polícia e bandidos se pegando na porrada dentro de um prédio, “Hardcore Henry” — tiroteios e porradaria em primeira pessoa do começo ao fim feito na Rússia em dois anos atrás — e, claro, “Crank”, uma bobagem adorável de 2006 em que usam aquela velha canastrice simpática de Statham para te segurar durante o equivalente cinematográfico de uma partida de GTA.

Esses exemplos acima são alguns em que a narrativa acaba sendo mais forte como gancho de público do que a trama. “A Vilã” não chega no extremo desses filmes. Nesse sentido, conversa mais com “Oldboy” que, ao mesmo tempo que entrega uma cena como a do corredor, conduz outras de forma mais contida, centrada no drama.

Sim, “A Vilã” tem também sua cena de corredor. E em primeira pessoa, ainda por cima.

Aqui é a parte que “A Vilã” mais perde. Porque não tem a explosão de adrenalina e carisma de um “Crank”, mas também não tem a genialidade de “Oldboy”.

Não dá pra esperar que todo filme dessa leva de cinema coreano seja do naipe de um Chan-wook Park. Isso seria a mesma coisa que esperar que todo faroeste-spaghetti fosse da mesma estirpe de um Sergio Leone. Já disse e repito, toda escola de cinema tem um gênio que mesmo trabalhando com as mesmas bases dos outros, coloca sua personalidade e sai com algo genial.

Byung-gil Jung não tem essa fagulha. E assistindo seu filme, não parece ter essa ambição de fazer uma obra-prima. O que se propõe, sim, é fazer um filme correto — no bom sentido da expressão — que conta seu drama com competência e usa suas cenas de ação para ofecerer uma experiência visceral ao público. Nâo é um filme simplório, bem longe disso, nem mesmo um filme que quer apenas divertir os olhos do público.

O que temos é um filme com uma trama razoavelmente conhecida, com explosões sensoriais. Não te surpreende na história, mas te conduz pela mão na tocada desejada. Se “A Vilã” pode ser sim condenado por ser excessivamente derivativo, pode ser defendido pela solidez do espetáculo que constroi.

A força de “A Vilã” está em saber o que é e o que quer fazer. Seguro na parte que pede mais simplicidade. Ousado e forte na parte de impacto visual. Algumas cenas vão ficar na sua mente por um bom tempo.

E é no fim, em sua última cena, que Byung-gil Jung junta suas duas ferramentas. É quando amarra sua trama e o destino do personagem que mostra sua grande força, seu domínio do filme.

E quer saber?

No final das contas, Cinema também envolve momento. Ainda estou muito com um filme na cabeça e outros menos. Mas, mesmo assim, no frigir dos ovos, se aplaudo “Nikita” pelo que criou, respeito “A Vilã” como experiência. No mínimo, as cenas de pancadaria são lindonas na telona.

Veja o trailer aqui embaixo. Depois de ter estreiado em Terra Brasilis no Festival do Rio, “A Vilã” será lançando em algumas salas de SP nessa sexta-feira, 24 de novembro.

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