Despertar à Janela

O despertador rotineiramente me fez perceber que já eram horas para me levantar. Negocio com ele mais alguns minutos, porém continuava a tilintar, como se não quisesse fazer acordo nenhum.

Percebi também que não há café na mesa.

“Oh, é mesmo. Não estou mais morando com ela.”

A separação, apesar de libertadora, levou algumas mordomias das quais eu realmente apreciava. Neste dia decidi começar o dia com água, que irrigava meu corpo e senti uma estranha sensação de tranquilidade e, ao mesmo tempo, agitação.

Na vez que a água gelada passava pela garganta, uma imagem de tranquilidade ecoava em minha mente. No momento que ela descia ao estômago, me senti aflito. Há alguma coisa para ser feita. Mas o que seria?
Me acomodei em minha escrivaninha e, acompanhado pelo copo d’ água, me pus a escrever, porém nenhuma das coisas que chamamos de “grandes ideias” aconteceram. Estive por um tempo muito longo sentado, olhando fixamente para o espaço em branco em minha frente, enquanto a garrafa gelada se esvaziava aos poucos.

Me recordava, naquele momento de total bloqueio criativo, das memórias da minha antiga vida, ou melhor, de quando eu era vivo. As coisas davam muito certo. Éramos felizes… Eu era feliz.

Enquanto entrava num túnel de memórias, perdia a sensação do meu corpo. Mãos, braços, pernas, pés… Havia apenas um eu interior viajando pelo espaço-tempo.

“Não posso mais ser feliz… mesmo?”

Num fio de desespero, assustado, levantei. Minhas mãos, suadas, apoiadas totalmente na mesa, estavam cada vez mais energéticas. Senti que a vida de repente mudou seu sentido.

Andei em todo perímetro possível do meu apartamento, em busca de alguma coisa que não fazia ideia do que era. Não sabia exatamente o que eu estava buscando, mas meu sangue fervia como nunca. Essa agitação terminou quando vi, talvez pela primeira vez, um quadro. Antes de analisá-lo, me perguntei umas três vezes se aquilo estava ali durante todos esses anos que ali residi.

Imediatamente depois de perceber que realmente há um quadro pendurado na parede da minha sala, perdi, novamente, a sensação do meu corpo. Novamente, um eu interior estava num túnel, dessa vez não de memórias, mas de figuras abstratas de todo tipo de cor e formato.

Por mais estranho que seja, não senti náusea. As figuras faziam nenhum sentido, apenas traziam a ideia de passagem de espaço. Não me recordo realmente se elas traziam algum tipo de informação, talvez traziam e eu não pude lembrar, afinal esse tipo de viagem não se faz todo dia.

Uma luz muito clara estava me aguardando. Senti a luz me acolhendo, ouço um recital masculino com uma orquestra, os metais estavam se sobressaindo nesta frase.

Tudo ficou escuro. Meu corpo não pertencia mais a mim, eu não pertencia mais ao meu corpo. Apenas o nada e o nada estava diante de mim. Honestamente, devo ter imaginado se morri ou se estou sonhando, confesso que até hoje penso nisso.

Um círculo azul brilhante apareceu na escuridão e o que estava escuro se tornava branco novamente. Senti que estava conversando com a figura azulada. Me disse, de alguma maneira, que eu preciso de uma nova chance, que preciso descobrir as verdades do mundo.

Logo minha consciência voltou para o meu corpo de frente com o quadro. Minhas pernas, trêmulas de tanto ficar de pé, agradeciam pela minha volta e voluntariamente ficaram ao chão, meus braços acompanharam o movimento, e me encontrei deitado diante ao quadro.

Não tenho certeza se a figura sorriu.