Ivo Machado

“O vento dentro dos cavalos”


Já me tinha chegado às mãos o belíssimo livro de poesia A Cidade Desgovernada, de um poeta que li recentemente, Ivo Machado. O modo como a nossa crítica é cega e surda relativamente ao que vai aparecendo é desconcertante. Em contrapartida, a negligência com que aceita a novidade, mesmo quando isso não é merecido, é uma atitude que pertence aos mais secretos desígnios.

Depois há poemas como “Uma Porta para Qualquer Lugar”, onde se lê:

“Amo o desconhecido e a chuva de ontem; amo

a música na voz dos vendedores de castanhas

de Sarajevo e o relâmpago das horas em trânsito

nos aeroportos; amo as raparigas dos quiosques;

os cafés; as línguas que me cruzam e com elas

embarco na adivinhação de sua origem. Amo

o desconhecido; o meu corpo e as vozes que nele

me tornam excesso. Amo as horas em trânsito

nos aeroportos, agitam e lhes concedo errância.

Amo o que perdi; amo esta recusa à contradição

que censuras mas nunca percorrerás em cafés,

quiosques e portas de embarque para o tempo.

Amo o desconhecido, porém, regresso a casa -

por silêncio e por vertigem e por tua ausência.”

Oscilando entre o canto — e como a ternura ecoa ressuma nesta poética — e ao poema breve, vigiado e atento à forma, Ivo Machado é uma voz, reconhecível e singular, que vai fazendo o seu percurso poético e a sua obra é reconhecida e traduzida em espanhol, italiano, bósnio, alemão, inglês, húngaro e letão, constando a sua obra de vários títulos, entre poesia, novela e teatro.

Ainda no seu livro publicado em 2015, O Monólogo do Merceeiro, o poeta abre-o assim:

“O Vento abandona as sombras

na mercearia e o mundo estremece

quando os navios apitam

assim o Tempo

na cicatriz amarga

dos velhos

O vento dentro dos cavalos

ou no esquecimento

arrumando as sombras

assim exactamente

dentro da luz

nas prateleiras das mercearias.”

Estas deambulações constituem apontamentos de leitura e não pretendem aspirar ao estatuto de crítica, apenas dar a conhecer autores e obras que merecem a nossa leitura. Por isso são oblíquas e não verticais.

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