imagine comigo.

imagine comigo a seguinte situação: você, jovem, vivo, respirando, fazendo besteira, tentando entender como funciona o imposto de renda e trabalhando com o objetivo de tirar a carteira de motorista um dia — um dia, mas não tão logo pois custa muito caro. imagine que você faz vinte e três anos e a maioria dos seus amigos já está formada ou se formando e você já entrou e saiu de cursos e ainda não tem muita certeza daquilo que você quer fazer. imagine que nesse meio-tempo você trabalha e não sobra muito tempo pra ir atrás dos seus sonhos de ser artista — de ser poeta-músico-escritor-astrólogo-cientista-milionário — porque quando você finalmente chega em casa do trabalho você só se vê preso nas mesmas coisas e nas mesmas ideias que são tão mais fáceis de manter do que pensar em algo que além de ocupar o pouco tempo que resta ainda seja produtivo — útil — proveitoso — e outros sinônimos.

imagine que você até tenta de vez em quando — escreve um poema, uma música, pensa numa teoria incrível e descobre que, obviamente, ela já existe. imagine que você finalmente percebe que ter vinte e três anos e ainda morar com a mãe é um pouco triste — seria menos triste se você pelo menos soubesse dirigir para escapar da prisão que uma casa compartilhada com toda a família às vezes tende a se tornar. imagine, sei lá, que de vez em quando você só queria poder beber sozinho ouvindo a mesma música vinte e sete vezes seguidas e chorar sem ter que se justificar para os que entram e saem do seu quarto-que-não-é-bem-um-quarto-mas-é-difícil-de-explicar-então-você-chama-de-quarto-mesmo-assim toda santa vez. imagine que você só queria paz e é mais fácil achar agulha no meio de um palheiro em chamas do que achar paz.

imagine que toda sua falta de vontade não é e nunca será culpa sua. imagine que a vida minha e tua são… parecidas. imagine que nem sempre o que a gente tenta fazer parecer pros outros é o que a gente realmente é. imagine que precisa ter coragem de escrever um texto feio e postar na internet pra todo mundo ver. imagine tudo isso. é difícil, mas tenta. não custa tentar, vai por mim. eu tento todo dia. eu imagino todo dia. eu já cansei de imaginar. cansei de simular, pensar, desejar, querer, ouvir dizer, assistir.

quero fazer, ter, participar, atuar, filmar, editar, gravar, guardar, resumir, contar, aumentar, diminuir, explicar, prestar atenção, guardar, respirar, controlar, deixar levar, entender, expandir, emagrecer, desfazer, jogar fora e comprar um novo, ser. quero ser, entende? imagine ser — imagine poder fazer o que quiser e ter a liberdade de se dividir entre todas as pequenas partes que te fazem quem você é e colocá-las em cima da mesa da sala e estudar uma-por-uma até não sobrar um pequeno detalhe que possa fugir ao seu escrutínio. imagine poder se entender no nível molecular — entender que você é átomo tanto quanto eu sou átomo — tanto quanto a árvore que presenciou o teu primeiro beijo é átomo — tanto quanto os teus pais são átomos. entender assim que nada tem o poder de te fazer deixar de ser átomo.

imagine ser fundamentalmente aquilo que o universo também é — e sentir orgulho disso. transcender a matéria — ver tudo de uma única vez. imagine deixar de se importar com carteiras de motorista ou compras do mês — será que ainda se faz compra do mês? essa é uma dúvida que eu não saberia sanar. essa entre outras tantas continuariam a ser um mistério pra mim. nem sei se quero entender tantas coisas assim. ignorância é uma benção que eu quero abraçar pra mim — só entender do que me importa é a missão aqui.

imagine entender qual é a sua missão aqui. imagine poder um dia dizer que você veio e foi desse mundo e terminou tudo que tinha para fazer. são poucos os que podem dizer isso. eu não posso dizer isso — e não tenho a pretensão de um dia poder. eu só quero mesmo é me entender sem ter que esquecer dos outros pra isso — difícil. palavra que me serve de muleta — quando digo que é difícil, me ausento da responsabilidade do eventual erro. quando digo que é difícil, me refiro ao habeas corpus que a ignorância dá. quando digo que é fácil é porque quero me mostrar pra você e ver se consigo te ajudar um pouco. quando perco as estribeiras é porque foi difícil demais — então eu volto um pouco. olho tudo de novo. palavra por palavra eu faço um esforço inumano — é preciso de uma força sem igual para mover as montanhas que gravaram seus vales dentro de mim.

é preciso muitos outros seres humanos dispostos a empurrar ladeira acima a pedra que eu chamo de consciência. imagine ter toda essa força. imagine não ser triste — nunca, nunca mais. nunca mais. por enquanto sou fraco e forte e, antes de tudo triste. imagino que você seja também. por isso essa carta é pra você. faça dela o que bem entender.d