murakami

finalmente li murakami. não sei se foi uma boa ideia. é interessante o modo como ele transforma a banalidade em algo surrealmente interessante — algo que eu nunca consegui fazer. a descrição de um momento, quando vinda das minhas mãos, nunca prende ninguém. talvez a minha sina seja continuar a escrever sobre como sofri seis anos atrás ao perder o que, naquela hora, era o amor da minha vida.

curta, ainda. a vida. eu tinha dezesseis anos e já achava que tinha vivido demais. contemplei resolver esse problema. fui bobo e não resolvi. decidi escrever; o que não deu certo. na época eu era revoltado demais. falava sobre coisas que ninguém jamais iria querer usar de legenda no instagram. percebi que esse deve ser o objetivo do escritor que se diz triste em pleno ano de dois mil e dezesseis; ser legenda no instagram.

ou não. acho que ainda existem as pessoas que se contentam em ver sentimentos tão profundos nelas presentes explanados por um completo estranho. e eu sou bem estranho. eu ainda escrevo — obviamente, não é? hoje, sou poeta. mas faz tempo que não escrevo um poema. por isso me digo “escritor”, é muito mais fácil.

“e você escreve o quê?”, me perguntam. “poemas,” eu respondo. “então você é poeta?” “não.”

eu sou um bosta. uma boa pessoa, no final das contas (pelo menos gosto de imaginar que sou), mas um bosta. alguém que gosta muito da língua japonesa. sou um ser humano, e todo ser humano é falho. eu sou só um pouquinho mais falho que os outros. mas eu tenho como princípio corrigir a maioria dos erros que cometi.

e como esses erros são parte de mim, eu os escrevo. sou um “escritor”, afinal de contas. espero um dia realmente me tornar um poeta.

mas não quero ser só mais um poeta. eu cansei de escrever poemas sobre o amor. quero escrever um poema de amor. quero me espalhar por completo em apenas 4 estrofes. rimas perfeitas. métrica tão bem calculada que diriam que foi trabalho de algum engenheiro. mas eu cansei.

e, para descansar, finalmente li murakami. e ele me abriu os olhos. e os ouvidos. é mais importante a habilidade de transformar um momento absolutamente mundano — e tedioso — como passar café em algo que todos queiram ler.

peco muito ao tentar falar de coisas mais complexas do que aquelas que a minha mente realmente consegue entender — e nisso me torno medíocre. talvez seja essa a hora de aprender a descrever. aprender a falar sobre nada com a autoridade de quem fala sobre tudo. ter cacife para aguentar mais um dia sendo medíocre, sem jamais sucumbir à pressão.

isso é difícil. quase impossível.

mas eu tento.

ando conseguindo, até.

a última vez que pensei em morrer foi quando, mais uma vez, meu coração foi partido em dois. mas a culpa foi minha, de qualquer jeito. então remendei, usando palavras como cola. o verso é minha super-bonder. cada poema é uma camada de durepoxi. funciona, às vezes. dessa vez ainda não.

mas eu estou divagando. eu nem consigo botar minhas ideias no lugar. comecei de um jeito e terminei de outro, como geralmente faço. não me importo. o fim e o começo são sempre o mesmo, no fim das contas.

finalmente li murakami, e isso não tem importância alguma.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.